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Coluna de Amador Ribeiro Neto Imprimir E-mail
06 de novembro de 2007

O poeta que dá voz aos mendigos

Paulo de Toledo, poeta santista, estréia com belo e importante livro de poemas. Seu "51 mendicantos" (Editora Éblis, Porto Alegre, 2007) é uma sucessão de poemas com alta dosagem de concentração formal e poética. Cada poema possui apenas 3 versos. Versos Recado dado para uma época que já incorporou a internet como veículo de comunicação diária. Nada de jogar tempo fora. Poesia é condensação, dizia Pound. Paulo é Pound.

Os poemas têm a aparente forma de haikais, mas – frise-se – não são haikais. Mesmo que se pense no haikai tropicalizado, como aquele feito por Paulo Leminski, Millôr Fernandes, Alice Ruiz, Olga Savary, Saulo Mendonça, Eunice Arruda. Nada disto. São tão somente tercetos e assim devem ser lidos, incorporando-se à leitura a imprescindível informação de seus títulos.

Os mendicantos são mais que cantos de mendigos. O poeta dá voz àqueles que apenas sussurram e expõem-se à humilhação da mendicância. O leitor tem oportunidade de ouvir outra voz – a dos mendigos. Seus cantos são irônicos, corrosivos, derrisórios, bem-humorados, chistosos. Estes mendigos dialogam com a cidade e seus habitantes, ora em voz alta e intempestiva, ora em escárnios de gestos desabados. Ora com raro e fino lirismo.

Nos poemas de Paulo de Toledo a polifonia é a marca do canto do mendigo. Tomando como personagem principal de sua poesia esta gente errante e marginalizada, o poeta lança olhos sobre a parte baixa de nossa sociedade e revela-nos a força da vida que reside, se organiza e se estrutura aí. É um trabalho de trazer aos olhos e à consciência o que enxergamos mas não vemos. Ainda que exposto todo dia, toda hora, cada minuto.

Cito "nem tudo são flores": "Com o cacetete o guarda dá no pé do ouvido / do mendigo que brincava comovido / de bem-me-quer com uma flor do município". Outro, intitulado "pesquisa": "Ser detido pelo FBI? Ser falido pelo fmi? / segundo o mendigo que é bom de q. i. / ser capturado pelo óvni". Mais um: "o papel do jornal": "o vento investe contra o lar do / mendigo e seu teto voa junto / com a manchete: alta do dólar".

Como se vê, a ordem policial do município pune um momento de lirismo do mendigo. Depois: ser capturado por um óvni é melhor que ser fisgado pelo FBI ou pelo FMI. Aguda ironia que levanta vôo para outros espaços. E a dubiedade do "papel" do jornal desnuda o mendigo ao mesmo tempo em que aponta para nossa realidade calcada em dólares. Lixo que deriva do luxo (poema de Augusto de Campos) deriva para o bicho de Manuel Bandeira. Como em "o ninho do mendigo": "O choro vem do fundo do lixo / dentro da lata de leite ninho / chamar de bicho seria um luxo". Paulo é pau, é pedra, é caminho.

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