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A literatura homoerótica e a MPB Imprimir E-mail
17 de fevereiro de 2007

Por Leonardo Davino de Oliveira
(PIBIC/CNPq/UFPB)

 Tratar da Literatura Homoerótica ainda é tão complicado e difícil quanto a discussão sobre o homoerotismo em si, hajam vistos os preconceitos, mesmo de acadêmicos, que ainda giram em torno do assunto.

Denílson Lopes, em seu livro O homem que amava rapazes e outros ensaios, afirma que a literatura gay não é aquela que retrata apenas o cotidiano sexual dos indivíduos com inclinação homoerótica, mas, principalmente, é aquela que transforma em arte a experiência do “sair do armário”, atitude que implica sérias conseqüências, longe dos estereótipos sociais e midiáticos.
 A maioria dos estudiosos sobre o assunto concorda que o Brasil iniciou-se no campo da literatura homoerótica com Bom-Crioulo (1895), do cearense Adolfo Caminha. Desde então, apesar das severas críticas de alguns segmentos da sociedade e das rejeições do mercado editorial, fazem parte da produção literária brasileira, textos gays e lésbicos.
Isso se intensifica nas idéias e pensamentos libertários da contracultura dos anos 60/70, mas é a partir das décadas de 80/90, quando a “homossexualidade” deixa de ser considerada doença, pelo Conselho Federal de Medicina, com a luta dos movimentos gay-lésbicos, em defesa dos diretos destes, que acontece o impulso para a propagação desse tipo de literatura.
 As pesquisas acadêmicas, sobre esse tipo de literatura, ampliam-se cada vez mais, seja por um viés sociológico, a quem agrada uma escrita mais engajada na luta de inserção do indivíduo na sociedade, seja pelo viés artístico-criativo do autor, independente deste ter ou não uma tendência homoerótica.
Foucault, ao tratar desse assunto em Um diálogo sobre os prazeres do sexo, afirma que com o repúdio da cultura cristã sobre o homoerotismo, a literatura homoerótica “concentra sua energia no próprio ato sexual”, pois não se permitiu ao indivíduo homoeroticamente inclinado elaborar um sistema de corte, “uma vez que lhes foi negada a expressão cultural necessária a essa elaboração”. Já Jurandir Costa Freire, em A inocência e o vício, diz que “a AIDS realçou definitivamente o arcaísmo cultural da noção de homossexualidade”, mas certamente também marcou a proliferação de escritos sobre o tema.
Severo Sarduy, em “O Barroco e o Neobarroco”, esclarece que o espaço barroco é o espaço da superabundância e do desperdício, em que o erotismo como atividade é puramente lúdico, pois não há uma funcionalidade para ele. O erotismo, visto desse modo, é uma paródia da função reprodutora, gerando uma transgressão do útil e do diálogo natural dos corpos. Portanto, o erotismo praticado pelos indivíduos homoeroticamente inclinados é um símbolo deste jogo com o objeto perdido, haja vista a violação da finalidade, estabelecida pela visão clássica (judaico-cristã), para os corpos. O erotismo praticado pelos gays afirma uma incerteza, abrindo espaço para a contradição com os padrões da “normalidade” estabelecida.
A presença da temática homoerótica na literatura e na música popular brasileira é bastante forte. Escritores como Glauco Mattoso, Roberto Piva, Caio Fernando Abreu, entre outros, e compositores como Zélia Duncan, Ângela RôRô e Caetano Veloso, entre outros, na música popular, são exemplos disso.
Caetano Veloso, por exemplo, compositor que já deu voz a diversos tipos de eu-líricos, dentre eles certamente a voz do indivíduo sexualmente ambíguo, ou em dúvida quanto a sua sexualidade, está representada na letra da canção “Eu sou neguinha?”, de 1987. Como exemplo de uma voz homoerótica temos a letra de “Ele me deu um beijo na boca”, de 1989. Já em “O namorado”, do disco Eu não peço desculpa, de 2002, ele dá voz a um indivíduo que observa a inclinação homoerótica de uma mulher que é “t’tudo de bom”.
“O namorado” é uma paródia que Caetano faz sobre a canção “A namorada”, esta registrada no disco Alfagamabetizado (1996), primeiro disco solo de Carlinhos Brown. Na letra de Brown, o eu-lírico faz uma descrição de um “broto”, além de alertar ao pretendente a namorado dela, para que ele perceba a tendência homoerótica do objeto de desejo. Tendência esta que será revelada nos versos do refrão da canção: “a namorada tem namorada”.
É a partir desse mote que Caetano Veloso faz sua paródia, construindo sua composição, através da intertextualidade, para debochar dos paradigmas existentes na sociedade. A paródia, certamente, é a forma mais expressiva encontrada pelo eu-lírico para zombar da ordem clássica imposta pela sociedade. O autor de “O namorado” parodia os versos de Carlinhos Brown reinventando-os de maneira a produzirem novos sentidos, ambivalência que ao mesmo tempo brinca e discute um tema bastante sério.
Artistas da “idade neobarroca”, Carlinhos Brown e Caetano Veloso, cada um a seu modo, conscientes dos problemas do meio em que vivem, satirizam e debatem conceitos e preconceitos sociais com qualidade estética. Deixando claro que é importante saber como a arte pode contribuir para uma visão mais sutil das relações afetivas entre homens, ou entre mulheres, e como a discussão sobre o homoerotismo pode contribuir na compreensão da arte contemporânea.
Em tempo: Caetano Veloso, na turnê Cê (2006), homônima de seu mais recente disco, lançou a inédita “Amor mais que discreto”. Na canção, que não está no disco, é sugerido um amor não consumado e quase doído que um Eu masculino, mais velho, segreda a um Outro masculino, mais jovem, além de dialogar parodísticamente com a canção “Ilusão à toa”, de Johnny Alf. É Caetano mais uma vez com sua mania de lançar mundos no mundo!

O namorado
           Caetano Veloso

Ela é t'tudo de bom
Sabe qual é o som
Nada do Leme ao Leblon
 
Usa um esmalte marrom
Batom do mesmo tom
Ela é m´mais que demais
 
Manda num gato malhado
Sempre colado ao lado
O par mais apaixonado
 
Mas
O namorado
Tem namorado
O namorado
Tem namorado
 
(Que importa o que se diz
Se a tarde cai num tom feliz
E a brisa bate leve e não tem medo
Se a onda quebra em pérolas e verdes tão sutis
E a luz do sol no céu não tem segredo)

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