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Irene Dias Cavalcanti

“Enquanto nós lutarmos, podemos acreditar no futuro”

publicado: 09/03/2026 10h21, última modificação: 09/03/2026 10h21
Escritora é um testemunho vivo de quem batalha incansavelmente pela liberdade de ser e sentir-se mulher
2026.03.03_irene dias cavalcanti © Roberto Guedes (634).JPG

Fotos: Roberto Guedes

por Marcos Carvalho*

Os santos de devoção sobre a mesa feito um altar, as fotografias de família e pinturas de si, assim como os cartazes das capas de livros espalhados pelas paredes da sala, não são os únicos ornamentos da casa da escritora Irene Dias Cavalcanti. As memórias de quase um século e os poemas eróticos, recitados de cor, ecoam como expressão da vida de uma mulher que enfrentou desafios, quando ousou traduzir os seus sentimentos mais profundos por meio da literatura.

“Quando estava casada, eu nunca publiquei. Escrevia, mas escondia num cofre para meu marido não ver, porque ele era muito machista e não ia tolerar que eu escrevesse. Ele morreu em 1970, e, em 1971, publiquei meu primeiro livro, Eu mulher, mulher”, conta a escritora, que considera essa a sua primeira gravidez de ternura. Três anos depois, publicaria Lirerótica.

A ousadia de uma mulher trazer à tona poesias que falavam de sexo, amor e solidão foi recebida com protestos por boa parte da sociedade. Na rua, foi recebida com cusparadas e chamada de vagabunda. Na Câmara de Vereadores, teve o seu pedido de pensão negado uma primeira vez, sob a alegação de que o dinheiro seria utilizado para publicar livros indecentes. O que muitos, ainda hoje, classificam como erótica, Irene prefere chamar de linguagem biológica, e fala de pênis, esperma, ovários e orgasmo na mesma intensidade com que fala de lábios, seios, rosas e olhares. Assumir seu corpo de mulher com todos os seus desejos.

“Eu não pensei em provocar a sociedade, pensei apenas que seria um grito poético que pudesse ajudar outras mulheres, mas me espantei quando vi que elas também ficaram chocadas com minhas palavras. Fui convidada, uma vez, para um festival de poesia, e quando comecei a declamar, arrancaram o microfone da minha mão e mandaram outra mulher declamar uma poesia com Nossa Senhora, para exorcizar, expulsar o Satanás que estava dentro de mim. Eu fui muito discriminada não somente pela religião, como também pelas demais mulheres”, confessa. 

Poesias da paraibana que abordam sexo, amor e solidão foram recebidas com protestos por boa parte da sociedade na época

Na avaliação da nonagenária, houve avanços em relação ao tabu da mulher falando sobre sexo, mas ainda existem preconceitos, sobretudo a partir do que escreve, diz ou fala. Afirma que não há mulher que não tenha sofrido, aqui ou ali, alguma discriminação, e não se incomoda em ser considerada feminista se são suas atitudes e colocações, ou mesmo a maneira que fala e se veste, que expressam isso.

Prestes a completar 99 anos, em maio, a escritora viveu e passou por muitos dos avanços femininos: da ampliação do acesso à educação até a conquista do direito ao voto, passando pela aprovação da lei do divórcio e a abertura para a prática de atividades até então consideradas exclusivamente masculinas, como futebol, até, por fim, a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres instituída pela Constituição Federal da República de 1988 e as políticas públicas de proteção decorrentes da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Irene Dias reconhece os passos dados, mas ainda demonstra preocupação com questões, como o feminicídio.

“O que me alegra é justamente a luta da mulher, porque enquanto nós lutarmos, podemos acreditar no futuro. Eu fiz isso na literatura porque acho que a gente não pode esconder nem deve prender as palavras. As palavras devem ter liberdade, assim como as mulheres. Eu me alegro em pensar que vou deixar um legado para a humildade. ‘Meu útero carrega a geração futura’. Eu gosto muito de saber que eu vou continuar com minhas ideias… ‘Meu útero carrega a geração futura’”.

O legado da escritora confunde-se com sua própria história: de menina que, quando começou a aprender as primeiras letras, escrevia “umas besteiras”, como ela mesmo diz, sobre os anjos, assim como a mulher que não viveu a juventude por estar já casada com um homem mais velho que não a deixava sair de casa. No seu livro mais recente, Irene Dias e Noites, relata seu exílio entre a casa, onde o marido, Lafayette Cavalcanti, colocava vigias na frente e nos fundos quando viajava, e os hospitais psiquiátricos, onde procurava algum conforto para os traumas vividos no casamento.

A liberdade veio com a morte do esposo, mas não sem dificuldades. Foi então que, deixando Campina Grande para fixar-se definitivamente na capital paraibana, pode concluir o curso de Direito pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e trabalhar no Correio da Paraíba, escrevendo por três anos para o programa Boa noite para você, comandado por Hilton Motta. Assegurada a estabilidade financeira com sua nomeação como assistente jurídica pública pelo governador Ivan Bichara, passou a se dedicar à prosa.

“Meus romances são mais sociais. Expressam o desejo de um mundo no qual as pessoas tivessem o mais básico para viver. Eu não me conformo de uma pessoa ter demais e outras, menos, uma pessoa ser a mais rica do mundo, enquanto outras estão morrendo de fome”, revela. Na lista de obras da autora estão A menina do velho senhor, O amor do reverendo, O médico e a noviça, O palhaço azul e Intolerância. Atualmente, ela prepara, com a ajuda da cuidadora que transcreve suas palavras, um novo romance sobre um retirante que vai em busca da amada, no sudeste do país.

A lírica e a prosa de Irene Dias representam uma forma de transgressão, tanto pelo seu discurso erótico quanto por sua própria voz feminina. Um testemunho vivo de quem luta incansavelmente pela liberdade de ser e sentir-se mulher. Sua mensagem para o Dia Internacional das Mulheres não poderia ser outra: “Que elas lutem, continuem lutando…”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de março de 2026.