Na Aldeia Acajutibiró, município de Baía da Traição, no Litoral Norte do estado, onde mora, Jô Potiguara (Josiana Torres) é chamada de mãe e recebe o pedido de bênção tanto dos seus dois filhos como das cinco crianças que nasceram por suas mãos. Ela é a mais nova da Associação de Parteiras e Benzedeiras do Povo Potiguara (Aparbep). Começou quando tinha apenas 17 anos, acompanhando a sogra Lindinalva da Silva, mais conhecida por Dona Pempa, e somente aos 30 realizou o primeiro parto sozinha.
“Alguns me chamam de tia; outros, de mãe, e tem todo aquele respeito, de sempre pedir a bênção. Fica um laço grande entre a criança e a gente. Existem tradições da aldeia, como uma época em que todo mundo visita todo mundo para pedir a bênção e a gente sempre leva um mimo para as crianças. A mãe, às vezes, oferta um peixe como forma de ser grata. É um laço que continua após o parto”, explica Jô, que é agente comunitário de saúde na aldeia.

- Na Baía da Traição, em Aldeia Forte, a Casa da Parteira Potiguara recebe intercâmbios para troca de saberes, como o encontro das Parteiras de Pernambuco, em parceria com as do Projeto Curumim | Fotos: Reprodução/Instagram @parteiraspotiguarapb
As gestantes que procuram as parteiras estabelecem com elas uma relação de confiança, que perdura para a vida toda. “Na tradição potiguara, a parteira é uma mulher sábia, que ajuda a trazer à luz. Existe um carinho muito grande e ela fica como se fosse da família, vira comadre, tia... A gestante se torna uma pessoa nossa, que a gente cuida como uma mãe cuida de uma filha”, ressalta.
Com a ajuda da associação, são realizadas rodas de conversas com as gestantes, ou chás, que podem ser tanto na casa da parteira ou da própria mãe. Tudo isso colabora para fortalecer os laços afetivos e comunitários. Há gestantes que são acompanhadas pelas parteiras desde o pré-natal, porém, como muitas atendem em várias aldeias, há partos que acontecem de maneira repentina, mas nunca sem o acompanhamento necessário. A ideia é que os saberes da medicina moderna unam-se aos saberes ancestrais indígenas.
“A gente acolhe as gestantes com nossas rezas, nossos cantos, nossas massagens e nossos chás. Tem vários chás e o momento do parto vai dizer, dependendo de como a mulher esteja. Se ela está sofrendo muito e se vê que aquele processo está demorando, aí, a gente faz as rezas, faz os chás para dar mais energia, como o chá de pimenta-do-reino ou de mel com tomate, por exemplo, para poder acelerar mais o parto. Tudo depende de cada parteira, porque cada uma tem seu jeito: umas fazem cantos, outras fazem massagem. Tudo isso no aconchego da família, para deixar a gestante bem mais tranquila”, conta Jô Potiguara.
Ela ressalta que a indução do parto é realizada de modo natural, mas sempre monitorando a pressão arterial e escutando o bebê. Caso se perceba que o parto normal não é possível, a gestante é encaminhada para a maternidade. Nesse sentido, a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, elaborou, no ano passado, um Plano de Parto adaptado ao contexto da saúde indígena, respeitando as especificidades culturais e os sistemas de conhecimentos dos povos originários, sem dispensar um serviço qualificado de atenção ao pré-natal, parto e puerpério nos territórios. Isso permite, por exemplo, que as parteiras possam acompanhar as gestantes indígenas nos hospitais.

- acolhendo gestantes para rodas de conversas e oficinas, além de outras iniciativas, desde a inauguração da sede, em 2024
A criação da associação contribuiu para que as parteiras potiguaras organizem-se e fortaleçam melhor suas práticas e seus saberes. Tia Nancy, uma das mais antigas parteiras do grupo, levou a adiante a ideia e conseguiu, com a ajuda das demais e de projetos, construir a Casa da Parteira Potiguara, em Aldeia Forte, sede onde as mulheres reúnem-se, realizam cursos e intercâmbios, além de acolherem gestantes para rodas de conversas e oficinas sobre o tema.
A divulgação dos saberes e ações nas redes sociais é outro ponto que favorece, inclusive, para que gestantes de outras cidades busquem as parteiras potiguaras para realizar seus partos de maneira natural. Jô Potiguara está acompanhando uma gestante de sete meses que mora numa cidade do Rio Grande do Norte, e faz questão de contar com uma parteira na hora de ter o seu bebê. Nesse processo, ela não dispensa as informações médicas do pré-natal, mantendo conversas frequentes até o dia do parto, previsto para o mês de julho.
“É um chamado, sabe? É uma coisa que você sente a vontade de estar perto. O nascer é uma dádiva de Deus, uma coisa que a gente não consegue explicar. E costumo dizer que cada parto é único e a gente sente a espiritualidade da criança vindo ao mundo. Nossas práticas e saberes ancestrais ensinam muito sobre o amor, o respeito, o carinho, o cuidado com o outro, porque você se torna parte de uma família”, completa Jô.
Memória audiovisual
Para ajudar a preservar as narrativas e saberes dessas mães do povo potiguara, o coletivo audiovisual indígena Memórias Potiguara realizou uma série de registros com as parteiras do território. A técnica de Enfermagem Bianca Potiguara, 25 anos, é uma das integrantes do grupo e foi responsável pela condução das entrevistas. Ela reforça a importância de preservar os relatos e experiências dessas mulheres para as futuras gerações.
A ideia da série, que está disponível no canal do grupo no YouTube (@memoriaspotiguara), surgiu quando o coletivo percebeu que, ao longo dos anos, o parto tradicional estava se perdendo. Tanto Bianca quanto Jô Potiguara, por exemplo, não nasceram de parto natural, ao contrário da maior parte dos antigos, que vieram ao mundo pelas mãos das parteiras tradicionais das aldeias.
“Eu ouvi de muitas parteiras que elas sentem o chamado, mas o que mais me impressionou nos relatos foi a coragem delas, principalmente porque tem momentos do parto que é difícil e elas pedem força aos ancestrais para que dê tudo certo. Para além da preparação física, existe a preparação espiritual. É um ato de muita coragem saber que você tem duas vidas em suas mãos e manter a calma, sem entrar em desespero”, analisa Bianca.
A jovem não se sente chamada para o ofício ancestral, mas recentemente foi convidada por Jô Potiguara para fazer os registros de um parto. “Eu gosto muito de acompanhar e registrar, até porque os netos dessas parceiras podem ver, podem conhecer quem eram elas, conhecer sua história… Tem parteira que faz o parto da criança e a criança cresce, fica adulta, vira mulher e faz o parto do filho da pessoa que ela ‘pegou’. Então é parteira-avó, como se diz”.
Tradição celebrada e integrada
O Dia Internacional da Parteira é celebrado, anualmente, no dia 5 de maio. A data foi instituída pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1991, com o objetivo de reconhecer e valorizar a profissão. Apesar da prática milenar de atenção ao parto e ao nascimento domiciliar ter sido bastante respeitada em antigas sociedades egípcias e greco-romanas, nas quais os conhecimentos eram passados entre as gerações de mulheres, em períodos da história ocidental como a Baixa Idade Média, as parteiras foram acusadas de bruxaria e condenadas à morte pela utilização de ervas e outras práticas de cura.
No contexto da saúde indígena brasileira, os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) contam atualmente com mais de duas mil parteiras e parteiros, que exercem um importante papel do cuidado integral, desde a gestação ao pós-parto, aliando conhecimentos próprios de cada povo às políticas públicas do Sistema Único de Saúde (SUS).
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de maio de 2026.
