“Hoje, eu escrevo para qualquer canto, menos para as gavetas”, sentencia a poetisa e professora princesense Rosilene Leonardo. Desde os oito anos, quando escreveu seus primeiros textos, até a sala de aula, enfrenta desafios para firmar a sua trajetória e romper com os ciclos de violência estrutural impostos por sua condição feminina. “Hoje, eu alcanço estudantes, alcanço a mim mesma, a outras mulheres, porque também tenho um trabalho de feminismo muito forte. Eu alcanço homens, alcanço várias pessoas, mas eu não quero mais as gavetas. Eu não quero mais esconder o que eu escrevo”, completa.
As rupturas vêm desde o ambiente familiar, onde até então ninguém se dedicava à escrita, depois com um casamento violento e tóxico que, por 16 anos, a impediu de escrever ou, caso escrevesse, tinha que passar pela censura do marido. Mesmo sendo a primeira mulher da cidade de Princesa Isabel, no Sertão paraibano, a publicar um livro de poesia, ela ainda enfrenta aquele que considera seu maior desafio: a política interiorana. “A política aqui é violenta, porque, se você tiver postura política e não votar em quem está no poder, fecham-se todas as portas para você”, denuncia.
O primeiro refúgio que encontrou para dar vazão ao apreço pela poesia foi a sala de aula. Formada em Letras, Rosilene fez desse espaço seu laboratório. Como na cidade não havia espaço que reunisse os amantes da literatura, ela fazia projetos para as escolas onde lecionava, reunindo poetas locais — mulheres e homens— em busca de estimular as novas gerações para a escrita. “Eu não quero ser só ruptura, não quero ser mais a primeira mulher que lançou o livro. Eu preciso ser canal, ser a pessoa que só começou, para que venham outras”.
Os projetos escolares não foram suficientes, por isso criou um projeto chamado Mulheres que Pensam e Escrevem. Ligou para diversas companheiras que gostavam de escrever e começou a reunir um grupo. O projeto encontrou apoio, logo depois, na Academia Princesense de Letras e Artes (Apla), da qual Rosilene Leonardo também é membro.
“Nós tínhamos feito pesquisas para a academia e descobrimos que havia sido fundada aqui [em Princesa Isabel], em 1935, o Grêmio Literário Joaquim Inojosa, grande poeta e jornalista pernambucano, que estava levando para as cidades interioranas os ideais da Semana de Arte Moderna. A partir desse grêmio, do qual participaram muitas pessoas, inclusive pais de outras que nós conhecíamos, a gente resolveu resgatar o grupo. Só que a gente percebeu que só tinha homens. Como sou feminista, minha luta foi descobrir se havia mulheres que escreviam e por que elas não se apresentavam nas praças. Normalmente, elas só estavam inseridas na igreja e em casa, escreviam para as gavetas”, relata a poeta.
O grupo ressurgiu com bastante vida incentivando a participação das novas gerações, inclusive algumas ex-alunas e ex-alunos de Rosilene. As reuniões aconteciam regularmente no Palacete dos Pereiras, sede da Apla, e seus membros mostraram--se interessados em se apresentar nos saraus promovidos pela instituição, mas muitos ainda sentiam insegurança em relação a seus escritos, sobretudo as mulheres vítimas do machismo, pois não tinham espaço em casa para se dedicar à arte.
“Percebemos que precisávamos preparar essas pessoas para que elas se apresentassem no sarau maior, por isso que se chama ‘Sarauzinho’. Aí a gente começou a convidar as pessoas na escola, a comunidade externa, e começamos a fazer oficinas de escrita e poesia. Chamamos um mestre, que pode ser um dos jovens, eu ou outra pessoa, para conduzir esse momento. Levantamos temas para trabalhar o ano todo, como consciência negra, música, arte, dança e outros temas transversais”, explica Rosilene Leonardo, que, com Emmanuel Conserva de Arruda, presidente da Apla, organizou a obra coletiva com as produções desse grupo chamada “Sarauzinho: a poesia do tempo”, lançada no início deste ano pela Editora A União.
A proposta de trabalho para este ano é trabalhar de forma mais sistematizada nas escolas, tanto com crianças quanto com adolescentes e jovens, utilizando-se do mapa poético, metodologia de ensino criada pela docente considerando aspectos como ludicidade e outras linguagens associadas à escrita. Num poema que fala, por exemplo, sobre feijão, frutas ou sorvete, ela apresenta esses elementos para trabalhar a criatividade, pede que os mais pequenos se expressem em cartolinas, que depois serão fixadas em uma das paredes históricas no palacete durante a visita da turma. O processo de criação vai variando conforme a idade, explorando a subjetividade a partir de uma frase, uma estrofe e, finalmente, uma poesia completa.
“Nossa maior preocupação é resgatar nesses estudantes o sentido da arte do poetar que atravessa muitos eixos no ser humano e fazer com que eles consigam entender que ser poeta ou fazer poesia não é coisa somente de alguém famoso. É preciso trabalhar com estratégias didáticas de produção e leitura, para também conseguir quebrar o machismo, que é muito forte em todo canto, mas, em cidade interiorana marcada pelo coronelismo, é bem mais forte”, ressalta Rosilene Leonardo.
Poesia marginal
A poesia ganha contornos insurgentes na capital paraibana com o grupo Slam Subversivas, fundado em 2018 por estudantes do Campus Jaguaribe do Instituto Federal da Paraíba (IFPB). Isadora Palhano, uma das integrantes do grupo, conta que as batalhas de poesia falada com performance corporal, que caracterizam o slam, são realizadas mensalmente de maneira itinerante e constituem uma ramificação do hip-hop.
“O grupo nasceu para fazer com que os estudantes produzissem suas poesias e pudessem mostrá-las para o mundo. Um marco muito forte é que ele é organizado apenas por mulheres, por isso algumas edições são fechadas apenas para mulheres e pessoas não binárias, por entender que, muitas vezes, esse espaço do palco é reservado para homens. Então, a gente também tenta subverter essa movimentação, dando o destaque para essas outras pessoas, que normalmente não estão nos holofotes. É uma forma de democratizar a arte da palavra”, defende.
As batalhas são como saraus, que podem acontecer tanto numa praça como em algum espaço cedido em parceria, estimulados por um certo espírito de competição. O poeta inscreve-se na hora para recitar os versos, que pode ter, no máximo, três minutos, sob pena de haver desconto na nota caso ultrapasse esse tempo. Os jurados são escolhidos aleatoriamente na plateia, porque se supõe que qualquer pessoa pode julgar a poesia. Não estão em jogo critérios como métricas ou rimas e a organização do evento recomenda que os jurados não deem notas abaixo de sete, pois o intuito é incentivar os processos criativos.
Isadora Palhano começou a escrever aos 16 anos para expressar o que estava sentindo e não mostrava seus versos a ninguém. Conheceu o slam por vídeos do YouTube e passou a ouvir e decorar poesias de outras companheiras. Quando a expressão artística chegou à Paraíba, tomou coragem para recitar no chamado “Mic Aberto”, modalidade que acontece antes ou durante a edição do evento, mas sem jurados. Só depois ela começou a recitar suas próprias poesias.
“No slam não tem regra, a temática é livre, então você pode falar sobre sentimento, mas os exemplos que eu tinha me aproximaram da temática social, principalmente de questões que envolvem mulheridades, o patriarcado, o machismo, o racismo, assédio etc. Foi um momento de muita descoberta, em que eu comecei a me enxergar como artista, a enxergar o meu espaço no mundo, a entender mais a fundo a produção de um evento, como é que funciona, tive mais relações interpessoais e consegui fazer muitas amizades, muitas relações com outras poetas em momentos de intercâmbio cultural”, relata.
A conquista do espaço dos palcos aconteceu aos poucos. Isadora lembra que era incomum ver alguma mulher batalhando ou se apresentando no slam. Primeiro se apropriaram do Mic Aberto, onde não existem julgamentos, e só depois enfrentaram as batalhas. No caso do Slam Subversivas, o grupo percebeu a lacuna no cenário paraibano e, considerando que sua composição era feita por mulheres que tinham um olhar mais crítico sobre as questões de gênero, resolveram adotar essa identidade.
“A gente está pautando gênero quando a gente faz nossas poesias, independentemente do tema, porque, quando uma mulher está no palco ou na organização do evento, trazemos essa luta que é importante e que está no nosso nome”, enfatiza. As batalhas promovidas pelo grupo costumam acontecer no segundo domingo de cada mês, em diferentes locais, com divulgação pelo perfil nas redes sociais (@slamsubervisvas).
As histórias de Rosilene Leonardo e Isadora Palhano mostram como a poesia vem ganhando novos contornos e sendo reapropriada pelas novas gerações para expressar seus anseios. Um motivo a mais para celebrar o Dia Estadual do Poeta, instituído pela Lei nº 8.263/2007, em homenagem a Augusto dos Anjos, comemorado em 20 de abril, data de seu nascimento. A proposta da data pretende incentivar a divulgação das potencialidades dessa arte literária no estado, contribuindo para despertar novos talentos. A Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB) lista, em seu calendário de comemorações oficiais, que a data é também o Dia do Escritor (Lei nº 4.541/1983).
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de abril de 2026.
