Passado quase um ano do decreto do Vaticano que reconheceu virtudes como fé, esperança e caridade em grau heroico no padre Ibiapina, missionário que se dedicou ao trabalho social na região do Cariri, entre o Ceará e a Paraíba, uma notícia voltou a animar seus admiradores. Trata-se da aprovação do nome do religioso na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados para que ele seja inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. O projeto de lei proposto pelo deputado Luiz Couto (PT-PB) deve ser levado ao plenário do Parlamento e, caso não haja recursos, será encaminhado ao Senado para apreciação.
Couto, que é natural de Soledade, cidade paraibana que se formou a partir de um cemitério e uma capela fundadas pelo padre Ibiapina, afirma nutrir uma profunda admiração pela trajetória do missionário não só pela proximidade histórica de seus feitos, mas principalmente pelo compromisso do religioso com a justiça social. “Ele dedicou sua vida aos pobres, à educação, à caridade e à promoção da dignidade humana. Por isso, apresentei esse projeto com a convicção de que o Brasil precisa reconhecer oficialmente personalidades que fizeram do serviço ao próximo uma missão de vida”, declarou.
Sem desvincular a fé das ações em favor dos mais vulneráveis, padre Ibiapina não mediu esforços para construir hospitais de emergências quando a epidemia de cólera assolava a província da Paraíba, dizimando quase um terço de sua população. Para o parlamentar, a presença transformadora do chamado “Peregrino da Caridade” no Nordeste e seu testemunho de solidariedade, cuidado com os pobres e defesa da dignidade humana o tornam uma figura que merece ser tomada como exemplo.
“A possível inclusão do nome de padre Ibiapina no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria representa um ato de justiça histórica e de reconhecimento nacional a uma figura extraordinária do nosso povo. Significa afirmar que o Brasil também se constrói a partir do exemplo daqueles que dedicaram a vida ao bem comum, à solidariedade e à justiça social. É uma homenagem à memória de padre Ibiapina, mas também um reconhecimento da contribuição do Nordeste à formação moral, social e humana do país”, destaca o parlamentar.
O reitor do Seminário Maior da Diocese de Guarabira, padre José Lucas Nóbrega, aprofundou a vida do missionário, que é considerado venerável pelo Vaticano e confessa que fica feliz com a possível homenagem, que considera mais do que justa. Ele relata que, quando começou a pesquisar sobre o padre Ibiapina, perguntava-se o porquê de um homem de grande relevância histórica ficar por tanto tempo no esquecimento.
“Em meados de 1855, apenas com dois anos de padre, alastrou-se por Pernambuco e nas províncias vizinhas uma epidemia de cólera e, quando todo mundo estava fugindo dos rincões do interior, que não tinham hospitais, Ibiapina fala com o bispo, deixa todos os cargos que tinha na Diocese de Olinda e se mete no interior do Nordeste do Brasil, para salvar e socorrer as vítimas, consolar as famílias dos mortos. Ele começou a construir cemitérios, tanto no sentido cristão da caridade de dar descanso e respeito aos mortos, como no sentido profilático, atento à questão da higiene e da saúde”, relata o sacerdote.

- Peregrino da Caridade no Nordeste tem a sua trajetória calcada na solidariedade, no cuidado com os pobres e na defesa da dignidade humana | Foto: Reprodução/Facebook @Santuário Pe. Ibiapina
É nesse contexto de grande orfandade e escassez, que surgem as 22 Casas da Caridade nas províncias do Ceará, Pernambuco, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte, construídas em mutirões que eram incentivados pelo religioso. Padre José Lucas faz questão de frisar que todas essas ações não contavam com recursos do Império. A pregação e as orações eram acompanhadas de gestos concretos realizados com a força do próprio povo.
“Padre Ibiapina deixa uma mensagem de otimismo para o povo brasileiro. A sociedade de sua época tinha seus desafios, como seca, fome, epidemia e a corrupção na política, mas esse homem não desistiu. Como um bom brasileiro, diante do sofrimento e das situações extremas, ele não desistiu nem jamais desanimou. Com o povo, ele fez a diferença e foi um pioneiro. Padre Ibiapina mostra que, se nos unirmos, nós que muitas vezes somos excluídos e até tratados com certo preconceito por sermos nordestinos, podemos mudar a nossa própria realidade”, aponta o presbítero.
Padre José Lucas destaca, ainda, outros fatos da trajetória do religioso que corroboram a proposta de sua inscrição como Herói da Pátria, como sua atuação como juiz, advogado e político, assim como o próprio nome “Ibiapina”, acrescentado ao nome de batismo pelo pai, Francisco Miguel Pereira, como homenagem à terra que o acolheu, mas também em razão de seu espírito patriota. Basta dizer que o pai de Ibiapina participou da Confederação do Equador, foi preso, condenado e fuzilado em praça pública.
Livro da memória
Para a historiadora Noemia Oliveira, a indicação de padre Ibiapina como herói nacional diz não só sobre o homenageado, mas também sobre o próprio brasileiro como povo personalista, muito propenso a condensar lutas e pautas políticas em figuras proeminentes, assim como de um contexto social que vive carente de lideranças, a ponto de buscar alguém de dois séculos atrás para reconhecer seus feitos. Isso não significa que a pesquisadora, que estudou a atuação do padre Ibiapina no mestrado e doutorado, discorde da proposta. Ela considera que reconhecer a trajetória do religioso nordestino, assim como de outras pessoas já inscritas no Livro de Aço, representa uma forma importante de referendar histórias de vidas que até bem pouco tempo eram silenciadas no Brasil.
“O livro acaba sendo um lugar de memória, no qual as pessoas podem ir lá e visualizar o nome dessas pessoas, ou pelo menos saber que elas existiram, mas também um lugar de reconhecer que nosso país tem histórias políticas, de lutas e enfrentamentos que, muitas vezes, não somos dados a pensar nelas”, recorda a pesquisadora, elencando nomes de religiosos como José de Anchieta, frei Caneca, Antônio Conselheiro e dom Helder Câmara que já figuram no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
Noemia Oliveira chama atenção, ainda, para como estes nomes são reveladores de como as lideranças religiosas têm se destacado no campo de ações políticas, já que a proposta do livro é rememorar pessoas e legados importantes para uma sociedade mais justa e democrática. No caso do padre Ibiapina, ela destaca que ele pode ser o primeiro a ressaltar um caráter de política filantrópica e assistencialista junto às populações mais pobres, evidenciando também essa dimensão histórica nacional.
“Diferente de outros religiosos, a atuação de padre Ibiapina nas províncias do Norte, que hoje a gente conhece como Nordeste, tem ações que foram concretizadas, e as Casas de Caridade são uma representação disso. Cidades no interior da Paraíba, como Soledade, foram criadas pelo padre Ibiapina. Então, ele foi, além de um filantropo, um modernizador e nada mais justo que ele apareça nesse livro de heróis e heroínas do Brasil, levando em consideração que as suas ações são importantes e tiveram muito impacto na história do país e na história das populações pobres do Nordeste”, completa.
Registro perpétuo
O Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria ou simplesmente Livro de Aço, pois a obra de fato é formada por páginas desse material, destina-se ao registro perpétuo do nome dos brasileiros, ou de grupos de brasileiros, que tenham oferecido a vida à nação, para sua defesa e construção, com excepcional dedicação e heroísmo.
Depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), foi idealizado em 1985, durante a comoção nacional causada pela morte de Tancredo Neves, o primeiro presidente civil eleito após 20 anos de Regime Militar, mas foi criado somente em 1992.
A inscrição de um novo personagem depende de lei aprovada no Congresso Nacional. Até agora, figuram no livro 99 nomes, sendo três paraibanos: o líder da Insurreição Pernambucana e governador, André Vidal de Negreiros, e as lideranças da luta camponesa assassinadas, João Pedro Teixeira e Margarida Maria Alves. O último nome a ser colocado no Livro de Aço, em novembro de 2025, foi o de dom Hélder Câmara, bispo católico que atuou pelos direitos humanos durante a Ditadura Militar brasileira. Para que o nome de padre Ibiapina seja incluído, a proposta ainda deve ser aprovada no Senado Federal.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de março de 2026.