Uma das primeiras edificações das cidades fundadas pelos portugueses nas terras brasileiras era o forte. Sua principal função era defender o território das invasões estrangeiras. Para a cidade de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), a coroa ibérica ordenou, em carta enviada ainda em 1585, pela chancelaria do rei Felipe II, da Espanha, a construção de uma fortificação, sugerindo a foz do Rio Paraíba como local apropriado. O ouvidor Martim Leitão, protagonista na conquista da capitania, consideraria, no entanto, um outro local, distante três léguas espanholas da foz, num porto natural situado no Rio Sanhauá, que mais tarde seria chamado “Varadouro”.
“Existiram dois fortes no Varadouro e algumas fortificações auxiliares dele, que a gente chama de ‘baterias’, que são pequenas localidades improvisadas, geralmente contendo um, dois ou três canhões. O primeiro forte era de madeira e o segundo, de pedra. Nenhum dos dois existe mais. Foi tudo demolido. A gente não tem mais vestígios, mas eles ficavam no que seria o Porto do Varadouro e hoje em dia compreende a orla do bairro Varadouro e o Porto do Capim”, afirma o historiador e professor Leandro Vilar.
Em formato quadrangular e sem baluartes, o forte foi erguido com terra e madeira, materiais baratos e fáceis de serem encontrados na região, sobre alicerces de pedra e cal. A técnica simples e de rápida execução era comum da época, pois permitia responder emergencialmente diante de possíveis incursões estrangeiras. Vilar defende que o Forte do Varadouro serviu de marco zero para a fundação da vindoura povoação de Nossa Senhora das Neves, que foi sendo construída lentamente nos anos seguintes à sua fundação, quando foi renomeada como “Filipeia”, em homenagem ao monarca ibérico.
“Segundo o Sumário das armadas, o principal relato da fundação da Paraíba, em novembro começou a se fazer a limpeza do terreno e as medições, e, por volta do começo de 1576, o forte já estava pronto. Ele era de madeira e terra. Foi quando já se começava a traçar a primeira rua e montar as casas. Na verdade, comemorar o dia da cidade em 5 de agosto de 1585 é errado, porque a cidade só surgiu um ou dois anos depois. Essa data seria da fundação da Capitania da Paraíba, e não da cidade, que é mais tardia. Até porque, naquele primeiro momento, quem morava ali eram os militares e os trabalhadores do forte. Não se tinham casas, era um acampamento”, explica o historiador.
Vilar lembra, no entanto, que a primeira fortificação nas terras potiguaras data do ano anterior. O Forte de São Filipe e Santiago foi construído em poucas semanas, e com os mesmos materiais, na margem norte do Rio Paraíba, localidade que se conhece hoje como “Forte Velho”, no município de Santa Rita. Ele foi abandonado um ano depois por deserção de seu capitão, que se desentendeu com o militar encarregado da conquista do território.
“O Forte do Varadouro despontava como fortificação de defesa daquele pequeno núcleo urbano, que era a capital da Paraíba, já que a maior parte da população era rural, vivendo nos engenhos e fazendas de gado, além de haver comunidades de lenhadores e de pescadores. Somam-se também aldeias indígenas espalhadas principalmente pela Zona da Mata litorânea. Por conta disso, o forte, apesar de pequeno, foi julgado ser suficiente para aquela cidade”, explica o historiador, recordando que essa primeira construção foi chamada também de “Forte da Cidade”.
Sobre o Forte de Pedra, como ficou conhecido o segundo equipamento bélico, as principais fontes históricas são uma pintura em forma de mapa da foz do Rio Paraíba do período da ocupação holandesa, na qual se observa a fortificação da cidade de FrederyceStadt (ou Frederica), bem como o Forte de Santa Catarina, em Cabedelo. A estrutura pode ser vista, também, no quadro de Frans Post, pintado em 1638, por encomenda de Maurício de Nassau, no qual os telhados vermelhos da cidade, no alto da colina, estão bem distantes da fortificação junto às águas do rio.
Achados arqueológicos
No decorrer dos trabalhos de restauração da Igreja de São Frei Pedro Gonçalves, situada no Centro Histórico de João Pessoa, nos anos 2000, historiadores, arqueólogos e arquitetos, supervisionados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), identificaram ruínas que poderiam ter pertencido à segunda construção do Forte do Varadouro.

- Cidade e Forte de Frederik na Paraíba (E), óleo sobre tela do pintor holandês Frans Post (1612–1680), produzido em 1638; no livro Varadouro — soneto em preto e branco, registro fotográfico de uma área residencial do Porto do Capim | Imagem: Reprodução/Fundación Cisneros
O superintendente do órgão à época, Claudio Nogueira, relata que também se realizou no mesmo período uma outra pesquisa arqueológica acompanhando a implantação de emissário sanitário na área do Varadouro–Porto do Capim, onde foram localizados três canhões coloniais, peças de artilharia, parcialmente enterrados na linha do antigo cais, como se vê num antigo cartão-postal, que hoje estão localizados dentro de algumas das casas da comunidade. “Há uma possibilidade de que eles tenham pertencido ao antigo Forte do Varadouro e tenham sido reutilizados após perderem a sua função após o forte ter sido abandonado/desativado séculos antes”, pontua Nogueira.
Os relatórios oficiais, no entanto, não chegaram a concluir que os fundamentos encontrados nas proximidades da Igreja São Pedro Gonçalves são, de fato, ruínas da antiga fortificação da cidade. Para o professor Leandro Vilar, essa associação não pode ser feita porque as descrições documentadas em relação ao Forte do Varadouro apontam que ele ficava mais próximo do rio, e não numa elevação.
“O que pode ter sido descoberto talvez seja algum resquício de trincheira ou alguma bateria, que é uma pequena localidade improvisada geralmente contendo um, dois ou três canhões, e não necessariamente o forte. As pinturas do século 17 mostram o forte próximo à beira do rio e não em cima de uma colina, porque ele foi construído para proteger diretamente o porto. A ideia de construir um forte mais acima, onde seria a Igreja de São Pedro Gonçalves, teria como função proteger a Cidade Alta, mas a gente não tem fortificação lá a não ser um muro e algum tipo de trincheira”, defende.

- No lugar, encontra-se um dos canhões coloniais, parcialmente enterrado | Foto: Walter Carvalho/Reprodução
As poucas referências materiais à fortificação que, segundo Vilar, demarcou a primeira estrutura construída no território da recém-fundada capitania da Paraíba, o fazem tornaram-se uma lembrança distante, que beira-o esquecimento. O Forte de São Felipe e Santiago (Forte Velho), o Forte de Santo Antônio (na margem norte do Rio Paraíba, em frente ao Forte de Cabedelo) e o Forte da Restinga (na Ilha da Restinga, em Cabedelo) também foram destruídos, contribuindo para que se perca também a memória coletiva.
“As pessoas só se lembram daquilo que conseguem ver. Por isso, quando não se tem a estrutura em si, as ruínas, é mais fácil que a história sobre aquilo vá se perdendo com o tempo”, pondera o historiador, que considera ainda um outro aspecto: o crescimento relativamente recente — de pouco mais de um século — do interesse pela história local a partir da criação do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHGP), no início do século 20. “São 300 anos de esquecimento”, contabiliza Vilar.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 05 de abril de 2026.