Notícias

cultura popular

Mestre andarilho da poesia matuta

publicado: 16/03/2026 09h38, última modificação: 16/03/2026 09h38
Um dos homenageados na sétima edição da coleção Paraíba na Literatura, o guarabirense Chico Pedrosa celebra os seus recém-completados 90 anos de vida dedicados aos versos “feitos de terra e chão”
Chico Pedrosa - Alexandre Macedo 4.jpg

Com oito livros e mais de 300 folhetos de cordel publicados, Pedrosa é um dos últimos representantes vivos da escola de declamadores que tem como referência o poeta Zé da Luz (1904–1965)|Foto: Alexandre Macedo/Arquivo pessoa

por Marcos Carvalho*

O dia popularmente dedicado à poesia em solo brasileiro, 14 de março, guarda não só a homenagem ao poeta dos escravizados, Castro Alves, como também a feliz coincidência do nascimento do poeta popular e declamador paraibano, Chico Pedrosa, que completou 90 anos ontem. A trajetória do cordelista é contada pelo conterrâneo e professor Vicente Barbosa, na sétima edição da coleção Paraíba na Literatura, com lançamento em breve, pela Editora A União.

Barbosa inscreve o poeta guarabirense na tradição da chamada poesia matuta, na esteira de nomes pioneiros dessa arte, como Patativa do Assaré, Catulo da Paixão Cearense e, o também paraibano, Zé da Luz. “Seus poemas são fala e canto, cuja unidade das composições proclama a autenticidade dos versos colhidos junto à simplicidade do povo. Ele mesmo define a própria poesia quando diz: ‘Doutor, minha poesia / É feita de terra e chão / Não possui galanteios / Dos poetas de salão / É tão simples como a vida / De minha gente sofrida / Perdida na multidão’”, destaca o professor.

Francisco Pedrosa Galvão é fruto colhido do sítio Pirpiri, município de Guarabira, único rebento que vingou do tronco dos agricultores Mestre Avelino e dona Ana Maria. Cresceu ao som do balanço do ganzá, tocado pelo pai nas horas vagas e também nas rodas de coco das noites enluaradas. Na escola, só cursou até o 3o ano primário, porque a professora o expulsou. Anos depois, narraria esse trauma da infância nos versos do poema Revolta dum estudante:

“Numa página do caderno / onde eu fazia ditado / mandou o seu afilhado / escrever uns palavrões. / No outro dia mostrou-me / eu neguei, ela acusou-me / cheia de má intenções / Minha letra ela conhecia / muito melhor do que eu / viu quem foi que escreveu / e mesmo assim me condenou / por mais que eu implorasse / ela me afastou da classe / conforme premeditou”.

A resposta definitiva ao incidente só veio na juventude, quando, passando pelos infortúnios da vida de retirante nordestino em situação análoga à escravidão, escreveu seu primeiro folheto, Os sofrimentos dos nordestinos no Triângulo Mineiro. De volta das Minas Gerais, Pedrosa foi incentivado pelo amigo e também cordelista, Ismael Freire, a dar os primeiros passos na produção de seus próprios folhetos e vendê-los nas cidades do interior. De lá para cá, passou a tirar daí o seu sustento, assim como dos shows que realiza em bienais de livros, feiras literárias e outros eventos.

Os versos do poeta sempre estiveram marcados pelas dificuldades vividas pelo povo nordestino. Valendo-se das rimas, ele sempre protestou contra as injustiças, satirizando diferentes situações sociais com irreverência e sutileza. “Chico se converte num dos últimos representantes vivos da escola de declamadores que tem como referência o poeta paraibano Zé da Luz. Chico é diferenciado, pois seus poemas são múltiplos, ora retrata o cotidiano do sofrer nordestino, ora também denuncia a devastação ambiental, ora fala das injustiças sociais, tudo isso sem perder a veia poética carregada de bom humor”, enfatiza o professor Vicente, ressaltando sua satisfação em escrever sobre o cordelista.

“Foi escrevendo cordéis / Lendo e vendendo nas feiras / Do meu querido Nordeste / Que palmilhei as primeiras / Veredas que me levaram / A ultrapassar fronteiras”, escreveu o cordelista, que ainda hoje vive na estrada, transitando entre Feira de Santana, na Bahia, onde morou por mais de 30 anos e atualmente vivem seus filhos, e Olinda, em Pernambuco, onde possui um apartamento que serve como ponto de apoio para outras andanças pelo país.

Hoje, amanhã e sempre

Na bagagem, Chico Pedrosa carrega a habilidade e a memória dos mais de 300 folhetos publicados, de oito livros, entre eles Pilão de pedra (1988), Raízes da terra (2004) e Antologia poética Sertão Caboclo (2007), além de oito CDs com suas poesias e um DVD de causos e cantos, gravado no Teatro de Santa Izabel. Aposentadoria é palavra que não faz parte dos versos do nonagenário. Para os próximos meses, após a realização de uma cirurgia de catarata, ele já possui agenda confirmada de participação em feiras de cordéis em Salvador (BA), Fortaleza (CE), Brasília (DF), São Paulo (SP) e Feira de Santana (BA).

“Eu vivo trabalhando, porque, se ficar parado, o bicho pega. Não pode ficar parado, não. A gente vai para essas feiras como convidado, e lá expomos nossos cordéis e livros, fazemos uma apresentação no palco do evento e ainda recebemos um cachezinho e, assim, a gente vai levando a vida, como Deus quer. Para nós, a nossa festa é essa”, revela, ao ser perguntado sobre as comemorações pelos 90 anos de idade.

Ainda que se considere um andarilho, a Paraíba continua ocupando lugar especial no seu coração. Numa das poesias, exaltou as qualidades de sua terra natal, da qual germina como semente através de seus versos e sua voz.

“Chico tem dado um grande contributo ao mundo literário paraibano, pois sua rica obra tem sido levada às escolas, sendo debatida e estudada nas universidades e outros espaços culturais e literários espalhados pelo estado e país afora. A obra de Chico jamais envelhecerá. Ela será de hoje, de amanhã e de sempre. Quando, por exemplo, ele dá enfoque à questão ambiental, demonstra, aí, sua grandeza e perspicácia com o que acontece no mundo atual, com um tema recorrente e que preocupa o planeta”, pontua o professor Vicente Barbosa.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de março de 2026.