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Muito prazer, José Américo de Almeida

publicado: 19/10/2026 10h39, última modificação: 19/10/2026 10h39
Aproximando-se dos 140 anos de nascimento do escritor e político paraibano, colhemos alguns depoimentos de pessoas que tiveram a honra de conhecer “o homem de Areia”

por Fátima Farias (Especial para A União)*

Um dos recantos mais aprazíveis da residência do escritor e ministro José Américo de Almeida (1887–1980) é o seu famoso terraço. Com localização privilegiada, recebendo a brisa e olhando a Praia de Cabo Branco, em João Pessoa, o paraibano cumpria seu rotineiro ritual: sentar- -se numa das cadeiras, quer para receber visitas, quer para meditar, e receber inspiração para seus escritos. Muitas pessoas tiveram acesso a tal regalia.

Em geral, eram políticos (em busca de conselhos), jornalistas, artistas e até mesmo pessoas comuns da comunidade que tiveram tamanho privilégio. Aproximando-se dos 140 anos de nascimento do “homem de Areia” — que acontecerá em 10 de janeiro —, o jornal A União conversou com alguns desses visitantes, que me revelaram como se sentiram com a oportunidade de “um dedo de prosa” com o anfitrião.

A maioria o considerava muito hospitaleiro. Um dos seus hábitos era acompanhar o visitante até o portão, que agora é a sede da Fundação Casa de José Américo (FCJA).

O que disseram essas pessoas sobre José Américo? Vamos conferir a seguir.

Glauce Burity (historiadora e viúva do governador Tarcísio Burity, ela o acompanhava nas visitas a Zé Américo)

“Dr. José Américo sempre falava em temas literários, sobre suas publicações e ouvia os comentários de Tarcísio acerca das políticas nacional e local, porque eram assuntos que interessavam a ambos. Era uma pessoa de fino trato e deveras observador”.

José Raimundo de Lima (aposentado, procurador de Justiça do Ministério Público da Paraíba e professor da UFPB)

“José Américo foi para o jardim ver o mar e ele se aproximou: ‘Ministro, sou um jovem de Areia, que queria lhe conhecer’. Sem cerimônia, mas com muita seriedade, ao olhar para [a secretária] Lourdinha, ela acenou com a cabeça e ele me estendeu a mão. Eu falei, em resumo, o que a emoção deixou que eu falasse: ‘Ministro, sei o retrato falado da sua personalidade, mas lhe perguntaria o que senhor aconselharia hoje a um jovem advogado?’. Ele respondeu: ‘Quando você ajudar alguém, não espere reconhecimento. Estude e se prepare para fazer um concurso de carreira jurídica’. Foi um encontro que me deixou feliz”.

Gilson Renato (jornalista)

“Por volta dos meus 12 anos, fui selecionado com outro colega, pela professora de História, para fazer uma entrevista com José Américo e transformar num trabalho de escola. Fomos de ônibus e lá fomos recebidos por sua secretária, Lourdinha Luna. José Américo foi muito solícito, conversou muito. Era bem paternal e até carinhoso com a gente. Ele conversava muito, perguntou sobre a escola e a literatura também. Mostrou alguns livros e falou sobre a importância deles. Foi uma conversa bem demorada. Foi servido um delicioso suco de cajá com os biscoitos wafer”.

Gonzaga Rodrigues (jornalista, escritor, membro da Academia Paraibana de Letras e amigo pessoal)

Gonzaga conheceu Américo, no exercício do jornalismo, visitando-o regularmente, e a relação tornou-se amizade, com Gonzaga passando, assim, a visitá-lo assiduamente, aos sábados pela manhã, integrando um grupo de convidados.

“José Américo era, sobretudo, um humanista. Humanista como político, humanista como escritor. Ele era mais do que escritor, era um homem culto, mas simples. Preparadíssimo, mas não mudou a linguagem do menino do Brejo, nem os hábitos naturais, estivesse em casa ou no Rio de Janeiro, fazendo discurso como candidato a presidente da República”.

Francisco Sales Gaudêncio (historiador, professor, membro da APL e ex-presidente da FCJA)

“As impressões foram a de que eu estava diante do maior monumento humano da época. É inimaginável o meu contentamento de estar diante dele. Era receptivo, um homem imponente, austero. Não era de muita conversa, mas gostava de escutar. Olha, era anestesiante você estar diante daquela grande figura humana. Considero-me premiado por conhecê-lo. Imagina um jovem do Sertão da Paraíba, naqueles rincões, ter esse privilégio”.

Abelardo Jurema Filho (jornalista, escritor e membro da APL)

Conheceu José Américo por meio de trabalho escolares, no Rio de Janeiro. Quando veio morar em João Pessoa, surgiu a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente e repetir as visitas, acompanhando seu tio Fernando Milanez. “Quase desmaiei de emoção, principalmente ao se referir ao meu pai Abelardo Jurema. José Américo de Almeida, um dos líderes mais lúcidos da história da Paraíba, deixou um legado de coragem, honradez e dignidade para todos os seus conterrâneos”.

Ítalo Kumamoto (médico)

“Fui convocado por dr. José Américo, quando cheguei a João Pessoa, recém-formado. Muito mais que privilégio foi uma honra, por me entregar a responsabilidade para cuidar de sua saúde. A relação teve início na década de 1970 e seguiu até março de 1980, no leito de morte. A visita durava cerca de 30 a 40 minutos e iniciava por volta das 15h”.

Além da assistência médica, o tempo era preenchido por conversas informais, sobretudo sobre o aspecto político, principalmente ao sentir que o médico gostava do assunto. No início, o tema preferido era o episódio da Revolução de 30 versus A Revolta de Princesa, cidade onde Ítalo Kumamoto nasceu e seus pais (migrantes japoneses) se fixaram. “Dr. José Américo queria sempre saber as novidades, como estava a política naquela região”.

Nessa convivência, algo lhe chamou atenção: “Nunca vi dr. José Américo falar mal de A ou B, nem sobre sua família. Era muito discreto”, frisa o médico. “Era um homem muito culto e um paraibano com projeção nacional, muito respeitado pelo status quo da época e, assim, antenado com os problemas da Paraíba, tinha grande poder de articulação. Ainda hoje é referência”.

Zezita Matos (atriz e professora)

Aluna do Liceu Paraibano, a atriz fala com o autor sobre uma das suas obras em particular, Coiteiros, que viria a ser tema de um espetáculo em que ela atuaria.

“Fomos recebidos por dona Lourdinha, sua secretária. A figura do escritor parecia um ser sobrenatural, calando o grupo que o visitava. Vestido de paletó, era um homem de muito sucesso, sempre sentado numa cadeira especial e falando baixo, dando sempre lições de vida e da política da qual detinha bastante conhecimento”.

O próprio José Américo foi assistir ao espetáculo Coiteiros, montado pelo Grupo do Theatro Santa Roza, adaptado por Altimar Pimentel, Elpidio Navarro e Pedro Santos, com direção de Fernando Teixeira, em 1977.

“É muito difícil falar sobre como ele reagiu, além dos aplausos e conversas que ele teve com Elpidio Navarro e Altimar Pimentel, presentes naquela noite e que afirmavam que ele gostou. Para nós, atores, é muito bom quando o autor vai assistir”.

Oliveira de Panelas (poeta e cantador)

O artista pernambucano radicado na Paraíba teve três encontros com José Américo, na década de 1970. O primeiro aconteceu em 1976, no antigo Pavilhão do Chá, em João Pessoa, no lançamento de um livro. O outro foi em setembro de 1977, quando participou de um festival no Theatro Santa Roza. Na plateia, Américo o convidou para ir cantar na sua residência e disponibilizou um carro para buscá-lo, com Pedro Bandeira e Otacílio Batista. Por fim, no último encontro, o escritor fez uma ligação para o filho, que morava no Rio de Janeiro, para ele ouvir a cantoria pelo telefone.

“Foi a grande percepção dele, a sapiência sobre o conhecimento das coisas e, sobretudo, da valorização da arte. José Américo não era apenas um grande paraibano, mas um grande brasileiro e, sobretudo, um grande humanista”.

Ângela Bezerra de Castro (escritora, professora e membro da APL)

Ângela Bezerra admira José Américo desde criança, influenciada pelo entusiasmo da avó. Sabendo da sua dedicação ao escritor, recebeu convite do professor Juarez da Gama Batista para conhecê-lo.

“O ministro nos recebeu no terraço. Após apresentados, começaram a conversar, enquanto eu escutava, com a maior emoção. De repente, professor Juarez me ordena: ‘Vamos, fale, diga alguma coisa!’ Falei, sem escutar o som de minha própria voz: ‘Ministro, não consigo ler A bagaceira, conforme o entendimento da crítica. Acho que seu livro se diminui, visto como um romance da seca”. Ele se aproximou mais de mim, no gesto de se mover mais à frente da cadeira. Surpreso e atencioso respondeu: ‘É? Pois confie na sua intuição’”.

“Ali nascia a ideia da Releitura de A bagaceira. Primeiro, ministrei um curso de aperfeiçoamento. Depois, escrevi minhas aulas para concorrer ao prêmio. Foi a única vez em que estive com o grande paraibano e um prenúncio de me debruçar sobre sua obra, um dia, e ser premiada num concurso literário”.

“Era um estadista, defendia o bem comum, de reputação ilibada, como se comprova pela simplicidade em que viveu. Um perfil de que o Brasil se ressente, sobretudo pela integridade, pela cultura e pela inteligência”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de outubro de 2026.