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Nos entalhes da arte

publicado: 04/05/2026 10h01, última modificação: 04/05/2026 10h01
Verdadeiros artesões e moldadores da música, apresentamos um vislumbre do vasto universo da luthieria
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Há mais de 30 anos, Félix Medeiros é um dos responsáveis pela criação e manutenção de instrumentos clássicos de corda da Orquestra Sinfônica da Paraíba (OSPB) | Fotos: Carlos Rodrigo

por Marcos Carvalho*

A música passa todo dia pelas mãos de Félix Medeiros, ainda que ele não saiba tocar nenhum instrumento. Sua profissão é antiga, apesar de pouco conhecida nos dias de hoje: luthier. Há mais de 30 anos, ele é um dos responsáveis pela criação e manutenção de instrumentos clássicos de corda da Orquestra Sinfônica da Paraíba (OSPB). Quando começou na Oficina Escola de Lutheria Professora Isabel Buriti, que fica localizada num dos boxes da Fundação Espaço Cultural José Lins do Rêgo, em João Pessoa, eram apenas dois artesãos da música, com os quais Félix aprendeu as primeiras lições.

“O luthier é o que regula o instrumento. Se chega algum instrumento com som baixo ou não muito limpo, a gente regula e faz toda a manutenção. Ajusta o cavalete, a altura, a pestana, deixa tudo regulado para que a pessoa que vai tocar se sinta melhor no desempenho. E o luthier confecciona também, faz todos os instrumentos, tanto viola clássica quanto violoncelo, contrabaixo e violino”, explica o profissional.

Não existe um tempo predefinido para concluir um instrumento. Um violino, segundo Félix, pode ser finalizado em um mês, ao passo que o violão tende a ser mais rápido, e se for feito em série, isto é, cortando todas as peças para depois colá-las, pode-se fazer até cinco peças no mesmo período. O segredo da luthieria (ou lutheria) está no modo como o artesão trabalha a madeira, atentando para suas características e para as medidas, a fim de tirar dela uma melhor qualidade de som. 

Félix em ação na oficina

“Qualquer que seja o instrumento, tem que haver um equilíbrio, senão as notas saem do lugar. No violino, se botar o cavalete, que é a peça de madeira colada no tampo para fixar as cordas, mais para frente, vai ter que fechar mais os dedos para poder tirar as notas certas; se colocar mais para trás, vai ter que abrir mais os dedos; e se não souber dosar a barra harmônica, que é aquela ripa de madeira colada no tampo superior, do lado das cordas graves, o instrumento prende o som e fica o como uma rabeca. Então, tudo é um equilíbrio”, pontua.

De pinho a pau-brasil

Quem conhece tudo sobre madeiras na Oficina Escola de Lutheria é José Lima, mamanguapense que se criou em João Pessoa e já na adolescência trabalhava como marceneiro. Hoje, acumula mais de 40 anos de experiência como luthier, ofício que aprendeu com o irmão, depois que este retornou de uma temporada de três anos de estudos no Rio de Janeiro. Na arte de fazer instrumentos, José interessou-se pela acústica das madeiras e tem pesquisado sobre como os diferentes tipos interferem na sonorização.

Ele explica que as madeiras mais cônicas, como o pinho, servem para fabricação do tampo, enquanto as madeiras mais pesadas ou duras, são utilizadas para fazer a caixa dos instrumentos. As mais valorizadas costumam ser importadas da Europa, como o ébano e o abeto. “Os instrumentos de qualidade tem algumas características fundamentais, e a primeira delas é a qualidade da madeira. Tem que ser bonita e já esteja seca há, no mínimo, cinco anos. O formato do desenho da madeira também é muito importante. Para o arco do violino, por exemplo, a madeira que melhor responde à sonorização é o pau-brasil”, ressalta o especialista.

Um luthier precisa entender de designer, acústica, elétrica e mecânica, mas José Lima ressalta que para iniciar é preciso ter vontade de aprender e algumas noções básicas de como manusear as ferramentas. Os instrumentos feitos por um luthier ganham valor pela qualidade que apresentam, criando um determinado padrão que consolidam seu nome, como uma assinatura sonora. O luthier italiano, Antonio Stradivari, por exemplo, que viveu nos séculos 17 e 18, continua sendo referência na arte de construção de instrumentos, tendo seu nome associado ao ápice das técnicas de luthieria pela qualidade excepcional, design e sonoridade dos instrumentos feitos em sua oficina.

Os músicos profissionais costumam recorrer a um luthier em busca de um personalizado, pois os instrumentos industrializados costumam ser recomendados para os que estão em aprendizado. Há quem busque um instrumento com som mais agudo, outro mais suave, outro mais agressivo, cabendo ao artesão da música dosar os materiais para chegar ao resultado esperado. Félix Medeiros relata que já recebeu pedidos de músicos que queriam um violino com som de viola, e conseguiu atender à solicitação.

“Quando eu faço um instrumento, é como se fosse uma criança. Quando você escuta, é como se fosse um filho seu, você fica satisfeito e, às vezes, fico até emocionado. Mas essa é uma profissão que está se acabando, apesar de ainda existirem alguns luthiers em João Pessoa. Aqui não somos muito reconhecidos. E se você cobrar um valor, o pessoal já fica com cara feia. Por isso, eu deixei de fazer serviços particulares. Dá um trabalho danado e as pessoas não dão o devido valor”, desabafa Félix.

Jovens luthiers

Tendo Chico César como cofundador, ONG Casa Béradêro, em Catolé do Rocha, ensina a uma nova geração o ofício de ser um luthier | Fotos: Arquivo Casa do Béradêr

Uma das iniciativas que luta para que a profissão não morra vem de Catolé do Rocha, no Alto Sertão paraibano. A Oficina de Iniciação à Lutheria, promovida pela Casa Béradêro, ONG fundada pelo cantor e compositor Chico César e pela sua primeira professora de música, a irmã Iracy Barbosa, capacita jovens na prática da criação e restauração de instrumentos de cordas. A instituição possui uma orquestra e a luthieria contribui para essa iniciativa, restaurando ou confeccionando instrumentos de cordas como cavaquinho, ukulele, violão, guitarra, contrabaixo elétrico, violino e viola.

“A oficina começou em 2004, depois que a gente recebeu vários instrumentos para o projeto e não tinha quem consertar. Eu comecei sozinho a tentar fazer alguns reparos, mas passei a pesquisar onde existia um luthier. Foi então que pensamos em trazer professores de Olinda (PE), João Pessoa e Campina Grande para ministrar as aulas”, conta Luciano Silvestre, luthier responsável pelo acompanhamento dos jovens iniciantes.

Os alunos aprendem sobre regulagem básica, troca de cordas, ajustes de escala, substituição de cavalete e outros cuidados essenciais aos instrumentos. Sob a orientação de Luciano Silvestre, eles começam por desenhar a planta do instrumento, transferem as medidas para a madeira, realizam os cortes, as colagens e o envernizamento, de modo que cada um dê forma a três violões elétricos. Geralmente, a turma é formada por 10 jovens.

“Há um interesse muito grande do pessoal em fazer o curso e a gente sempre tem que abrir mais vagas, dando a opção para eles trazerem o próprio material, porque o instituto só dispõe de uma certa quantidade. Hoje, nossa luthieria tem trabalhado mais com a reforma e restauro de instrumentos. Como aqui é uma cidade pequena e longe da capital, tem muitos músicos da região que nos procuram para reformar, alinhar ou fazer ajustes. Eu me sinto muito feliz em transmitir o que aprendi”, destaca o luthier.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de maio de 2026.