No Sítio Caiçara, município de Nazarezinho, no Alto Sertão paraibano, uma coleção particular procura preservar um pouco da cultura do cangaço e do sertanejo de antigamente. Segundo o colecionador Ramon Batista, são mais de 500 peças, entre facas, chapéus, moedas, oratórios e outros objetos. Alguns desses itens estão expostos na sala de sua casa, mas a maior parte deles está armazenada num quarto.
“É como se eu fosse um guardião dessas memórias”, diz o fotógrafo, cineasta e produtor cultural, que também atua como profissional da educação. Ele relata que tudo começou com um pequeno punhal, presente de um amigo pedreiro que encontrou o objeto quando foi demolir um antigo casarão, em torno do qual se contam histórias de ataques de cangaceiros. Ramon Batista desconhece se o artefato era da época do cangaceirismo, apesar de a região ser uma rota para os cangaceiros. “Na verdade é um punhal pequeno, que pode ter sido usado para primeiros socorros, quando algum deles estivesse ferido, pois dava para tirar uma bala”, sugere.
O acervo do paraibano foi crescendo aos poucos, graças aos conhecidos que, sabendo de sua paixão pelo cangaço, doaram peças para suas produções audiovisuais. Itens como uma fotografia do cangaceiro Chico Pereira ou o ferrolho da casa do coronel João Pereira, pai do cangaceiro, são guardados como relíquias pelo jovem colecionador.
“Eu sou de uma comunidade rural e cresci escutando histórias de cangaceiro, principalmente de Chico Pereira, que atuou aqui, na minha região. Eu sempre fui apaixonado por essas histórias, ficava encantado com minha avó contando e gostava de conviver com as pessoas mais velhas justamente para ouvir essas histórias”, relembra.
Francisco Pereira Dantas, mais conhecido como “Chico Pereira” (1900–1928), tem sido considerado o principal cangaceiro nascido na Paraíba, mais precisamente de Nazarezinho, à época distrito do município de Sousa. Ingressou no cangaço depois do assassinato de seu pai, um coronel da Guarda Nacional, que morreu pedindo que os filhos não buscassem vingança. Apesar de o autor do crime ter sido preso, logo foi solto, causando a revolta de Chico, o filho mais velho, que acionou o bando de Lampião para invadir a cidade de Sousa.
O retrato de seu conterrâneo guardado como preciosidade por Ramon Batista revela um cangaceiro diferente dos demais, sem chapéu quebrado na testa ou gibão, bem mais inspirado em personagens do faroeste norte-americano.
Oralidade e novas gerações
O ferrolho da porta ou a chave de um casarão que já não existe mais são motes para Ramon Batista recontar, em detalhe, as histórias que ouviu dos antigos, seja sobre Chico Pereira ou Antônio Silvino, outro cangaceiro que rondava a região ameaçando seus proprietários. “Essa chave que eu tenho foi do Sítio Roncador. O sobrinho do dono, por nome de ‘Maximiano Velho’, disse a ele: ‘Tio, você compre uma arma, que vai eu e fulano, e a gente segura a peteca quando os cangaceiros chegarem’. E assim foi feito. Teve uma troca de tiro grande com os cangaceiros. Esse senhor, Maximiano Velho, morreu com quase 100 anos e tinha uma bala alojada no corpo dessa troca de tiros, que o pessoal comenta que foram os homens de Antônio Silvino”, narra.
O fotógrafo e colecionador lamenta não ter registrado muitas das histórias que ouviu, a exemplo das de um senhor negro chamado “Bosco”, hoje falecido, a quem tinha o costume de visitar para ouvir os relatos dos confrontos que aconteceram naquele interior. Ramon Batista diz que, por ser muito jovem, não tinha noção de que muitos daqueles “causos” se perderiam com o tempo e se apagariam de sua memória.
É por isso que ele abre as portas de sua casa para que estudantes das escolas do município possam conhecer os itens de sua coleção e ouvir as histórias em torno deles, seja dos oratórios de santos, do rádio antigo que pertenceu ao seu tio e até hoje funciona, ou das duas moedas do tempo do Brasil Império, que, segundo ele, foram encontradas numa botija enterrada ao lado de uma casa velha.
“Vez ou outra, algum professor entra em contato comigo e pede para trazer os alunos, então a gente disponibiliza o que eles precisam dentro do conteúdo que estão ensinando, porque eu não tenho só peças do cangaço. Qualquer coisa que remeta à vida simples do Sertão de antigamente, eu tenho. Isso faz as pessoas voltarem no tempo, sabe? Eu começo a mostrar e contar, e eles ficam encantados. É a força da preservação dessas histórias”, explica o colecionador, que também já exibiu algumas de suas peças em praça pública, por ocasião do aniversário da cidade.
Estética específica
Parte das peças de Ramon Batista também são réplicas de chapéus, punhais e embornais típicos do cangaço. Nas pesquisas para algumas de suas gravações, como não podia contar com peças originais, buscou profissionais, na Paraíba e em Pernambuco, que faziam réplicas desses objetos. Deparou-se com uma estética específica em torno do vestir dos cangaceiros e cangaceiras, que foi se formando e ganhando ares novos quando Dadá, famosa companheira de Corisco, entrou para o bando.

- Entre as centenas de peças do acervo, estão facas, armas, chapéus, projéteis e adereços, dentre outros objetos
“Se você for ver direitinho, o chapéu de Lampião tem uma influência judaica. A réplica que eu tenho aqui é do chapéu que ele estava quando foi morto, em Angicos, em 1938, e tem umas estrelas que remetem muito a isso. Lampião parece que era muito exigente nessas coisas, porque esses adereços não eram só um modo de proteção. Eles eram muito bonitos, basta analisar as moedas no chapéu. Os embornais são diferenciados porque são bordados com flores. Dadá disse que estava no acampamento, viu as rosas e começou a bordar um para Corisco, então Lampião achou lindo e mandou fazer um par para ele também”, relata.
Muito dessa estética, assim como da história do cangaço, tem ganhado as telas por meio de filmes como Maria e o cangaço (2025) e de novelas como Guerreiros do sol (2025), contribuindo para que o fenômeno do banditismo, ocorrido entre os séculos 19 e 20, no Nordeste brasileiro, seja mais conhecido e também estudado, e, com ele também, a cultura sertaneja.
Ramon Batista sonha em poder disponibilizar a sua coleção num espaço mais apropriado e já pensa até em um nome: “Museu da Memória Sertaneja”. Enquanto seus projetos não se concretizam, busca parcerias para catalogar e estudar o acervo que está sob sua guarda, mas também produz filmes de ficção sobre a temática.
“Eu cresci escutando coisas dessas peças. Cada uma delas tem sua história, cada uma tem seu significado. Meu intuito é preservar. Além de colecionar, para que outras pessoas possam ter o prazer de pegar, usar a força do cinema e da fotografia para preservar essas histórias”, reafirma Batista.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de abril de 2026.
