Do primeiro mergulho, quando tinha apenas 14 anos de idade, até hoje, aos 80, o engenheiro George Cunha tem acumulado histórias, descobertas, algumas relíquias e uma paixão: o mar. Uma relação que começou na infância, quando veraneava na praia de Cabo Branco, na capital paraibana, e foi aprofundando-se com alguns amigos que já mergulhavam. A partir daí começaram a arquitetar aventuras para conhecer melhor as embarcações naufragadas no fundo do mar.
“Mergulhar é uma aventura e eu tive a oportunidade de praticar a caça submarina numa época em que tinha pouquíssima gente. O primeiro naufrágio que eu mergulhei foi do Navio Queimado, uma embarcação americana que vinha carregada de café e afundou em frente à praia de Tambaú, no ano de 1873, a cerca de 12 km da costa. Esse é um dos naufrágios mais bonitos que se pode ver no Brasil, especialmente pela vida aquática que existe ao redor dele”, conta o engenheiro, que se revela encantado com o mundo marinho.
O elegante vapor norte-americano de formas finas e proa reforçada, que, na verdade, tinha o nome de Erie J. N. Y., encontra-se a 18 m de profundidade. À época do afundamento, o navio pertencia a uma empresa criada após o fim da Guerra Secessão (EUA), e estava incumbido do comércio e serviço postal entre os Estados Unidos e o Brasil. Dos mergulhos que já realizou na embarcação, George recolheu duas peças de bronze. De outros, como o Alfama de Lisboa, naufragado na costa pernambucana, em 1809, ele guarda mais relíquias: duas garrafas de vinhos com as marcas da cruz, símbolo do Império Português, um garfo de prata, um prato de louça e um penico.
George Cunha elenca, ainda, dois outros grandes naufrágios no Litoral paraibano, situados mais precisamente na praia do Bessa, e que apresentam condições favoráveis para mergulho: o vapor espanhol Alice, que afundou em agosto de 1889 e está localizado a 8 km da costa e 13 m de profundidade; e uma alvarenga — tipo de embarcação sem propulsão e de menor porte — que transportava cargas até os navios que não podiam atracar nos cais dos portos, localizada, segundo o mergulhador, a cerca de 18 km da praia e 20 m de profundidade.
Cada aventura representa também um mergulho na história do naufrágio e do contexto de navegação da época, que exige qualidades de pesquisador. “Quando eu comecei a mergulhar, o objetivo principal era a caça submarina, para pegar peixe, mas à medida que vai chegando a idade, a gente vai vendo as coisas e passa a se interessar por arqueologia, pela história de cada naufrágio, dos equipamentos náuticos, daquele navio e das pessoas que estavam ali e perderam a vida naquele naufrágio”, relata.
O engenheiro mostra a coleção de livros sobre o mar e os relatórios de pesquisa de órgãos oficiais sobre cada uma das 67 embarcações afundadas na costa paraibana, a maioria delas sem condições de mergulho, pois as condições aquáticas não permitem muita visibilidade. De todos os naufrágios, o mais emblemático e almejado por mergulhadores é do Galeão Santa Rosa, uma fragata portuguesa que afundou em 1726, na costa nordestina, quando ia em direção a Lisboa carregando consigo 13 arcas com 26 toneladas em moedas de ouro, além de diamantes e pedras preciosas.
“É um naufrágio que se avalia em cerca de 2 bilhões de dólares. Já vieram grupos estrangeiros para fazer pesquisas, mas o grande problema é que não foi encontrado o local. Existem controvérsias. Uns dizem que ele afundou perto do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e outros que foi em frente à praia de Cabo Branco, em João Pessoa. Pelas minhas pesquisas, eu tenho quase certeza que esse naufrágio foi aqui, na Paraíba”, defende.
O mergulhador encontrou uma comunicação do provedor-mor da Fazenda Real do Estado do Brasil à Coroa portuguesa, datada de um ano após o naufrágio informando que havia chegado uma carta da Paraíba informando que haviam sido encontrados, entre as praias de Miriri e Baía da Traição, um embrulho com artefatos maranhenses quebrados e outro com uma garrafa de óleo, tudo da marca Zagal, assim assinaladas pelo emissor e entregues ao primeiro carpinteiro do nau. Apesar do relato afirmar que foram solicitadas averiguações para garimpar a costa em busca da embarcação, o mistério permanece até hoje.
“Ele ainda é mítico e desejado de ser encontrado por muita gente. Essa carta é fundamental e mostra uma evidência de que um artefato do Santa Rosa foi achado aqui. Esse tipo de artesanato leve boiou e deve ter sido levado pelas correntes de vento. Como o naufrágio ocorreu no mês de setembro, o vento nessa época é predominante sul-leste. Então, você traça uma faixa na costa a partir do achado e, possivelmente, o naufrágio está nessa faixa, a um ângulo de aproximadamente 45 graus da praia”, calcula o engenheiro.
Turismo de risco
As práticas de caça ou pesca submarina modificaram-se desde os primeiros mergulhos de George Cunha, visando garantir tanto a preservação da vida subaquática quanto a segurança dos que se aventuram nessa atividade, que é regulamentada pelo Ministério do Esporte e Turismo, por meio da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), e pelo Ministério do Meio Ambiente, junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O turismo de mergulho ou mergulho recreativo tem crescido entre viajantes interessados em explorar ecossistemas marinhos, mas é importante realizar cursos para iniciar a prática.
“Os naufrágios aqui de João Pessoa são interessantíssimos e eu diria que hoje tem um potencial muito grande de exploração turística. Muitas pessoas têm conhecimento desses naufrágios e vêm aqui conhecer. Eu conheço praticamente todos os pontos de mergulho aqui no Nordeste, de Alagoas até o Ceará, e, para mim, os dois mais bonitos são o Queimado e o Vapor Bahia, que está na divisa de Paraíba com Pernambuco”, destaca.
Apesar das belezas marinhas, o mergulhador octogenário conta que o momento mais emocionante aconteceu com um amigo, quando faziam caça submarina em Fernando de Noronha (PE), e ao sofrer um apagamento, enquanto subia de cerca de 30 m de profundidade, foi resgatado pelo companheiro. Por isso, a recomendação de que a prática seja realizada em duplas, para que o parceiro dê suporte, caso necessário.
“Ao notar o desmaio, o amigo mergulhou imediatamente para tentar alcançá-lo, mas o cinto de chumbo que se utiliza, fazia o mergulhador afundar. Depois de uma primeira tentativa sem sucesso, ele respirou profundamente várias vezes para ganhar fôlego e desceu novamente, mas ainda assim, não conseguia alcançá-lo. Numa atitude extrema e corajosa, atirou o arpão no pé de pato do companheiro e conseguiu puxá-lo até a superfície. Esse foi um momento difícil e que mostra como a amizade e a coragem é fundamental nessa atividade”, ressalta o mergulhador.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de maio de 2026.

