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A bordo do livro digital

publicado: 27/02/2026 09h01, última modificação: 27/02/2026 09h01
A paraibana Jadna Alana ganha o Prêmio Kindle com a publicação do romance Barquinho de Papel
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Professora de Escrita Criativa e vivendo em Ouro Preto (MG), Jadna Alana já publicou 11 livros | Foto: Arquivo pessoal

por Daniel Abath*

Quando um ex-professor de Letras da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) usou o composto “regionalismo fantástico” ao prefaciar um dos livros da escritora paraibana Jadna Alana, aquilo lhe chamou a atenção. Curiosa, a autora resolveu partir para Minas Gerais e cursar o mestrado na área (Estudos da Linguagem), em busca da defesa do conceito enquanto gênero literário. Conseguiu o feito — ela define, grosso modo, como um gênero ambientado, exclusivamente, nos interiores do Brasil e entremeado ao fantástico. Mas, ao mesmo tempo em que cursava a pós na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), as dúvidas e indeterminações de deixar a terra natal inspiraram Jadna Alana a escrever o romance Barquinho de Papel (e-book Kindle, 92 páginas), eleito vencedor da décima edição do Prêmio Kindle de Literatura. O livro encontra-se disponível na Loja Kindle e no Kindle Unlimited.

Natural de Campina Grande e criada em Nova Palmeira, no interior do estado, Jadna passou a morar em Ouro Preto há três anos por ocasião do mestrado. A cidade histórica mineira serviu, inclusive, como pano de fundo para um de seus últimos romances, Um Instante d’Ocê (Editora Qualis, 2024, 198 páginas). 

“Barquinho de Papel” possui mais de uma camada de leitura, falando também de ancestralidade | Foto: Divulgação/Amazon

“Eu tô assim… nem assimilei ainda”, afirma Jadna a respeito de sua conquista, anunciada na última segunda-feira (23). “É muito difícil assimilar, embora a carreira tenha muito tempo — agora em 2026 faz 10 anos que comecei a trabalhar com literatura, a escrever, a publicar. O sonho de qualquer escritor é publicar numa grande editora e até então eu ainda não tinha conseguido ir para esse estágio”.

Prestes a ser distribuída para o Brasil inteiro pela Editora Record, Jadna teceu árduo caminho nas veredas do mercado, publicando de forma independente por meio de selos de menor porte. Afora os R$ 50 mil em premiação, a escritora, que também é professora de Escrita Criativa, revela-se mais feliz com o desaguar de sua distribuição no oceano de circulação mais robusta. Além da Record, o livro também deve sair pela curadoria do clube de leitura TAG Experiências Literárias, assinada por diversos nomes da literatura nacional. A obra, escrita em 2023, já havia vencido o Prêmio Carolina Maria de Jesus nesse mesmo ano.

Também para adultos

Apesar do título, Jadna prefere não delimitar a obra na perspectiva infantojuvenil, já que a mensagem, como ela mesma define, é também endereçada ao público adulto, à guisa de um Pequeno Príncipe

Barquinho de Papel tem essas duas fases de leitura. Se um leitor adolescente, ou criança ler, vai entender que é sobre uma menina que quer construir um barquinho de papel para conhecer o mundo, na camada mais simples de interpretação, mas um leitor adulto lendo vai saber que é sobre ancestralidade e memória cultural”, explica.

Jurema, protagonista da história, é menina humilde, moradora do vilarejo fictício Cruz Credo, no interior da Bahia. Curiosa acerca das coisas do mundo, seu sonho é atravessar o mar a fim de entender o que há para além das senhorinhas na calçada e do mesmo padre de sempre, na mesma igreja azul, conformadores da paisagem cotidiana de seu povoado.

Começa, então, a catar papel no lixo — uma lista de feira que nunca mais será usada, uma carta jamais enviada para um filho emigrado ou uma receita de bolo, ilustrativa de uma história de família, são exemplos dos descartes —, fazendo dos recortes da vida do próprio lugar a matéria-prima para o seu barco de fibras vegetais.

Uma sereia, filha de Iemanjá na trama, diz à Jurema que ela não conseguirá partir caso se recuse a levar consigo tudo aquilo que pulsa no vilarejo e a constitui enquanto pessoa. Tanto que ao ser pintado de azul, o barquinho afunda. “Ela retorna ao vilarejo para refazer esse barco e descobre que para conseguir velejar não pode rasurar esses escritos”, revela Jadna, em metáfora sobre a importância da memória histórica e cultural.

“É um barquinho cheio de palavras, cheio de histórias de pessoas que não conseguiram atravessar o mar; que não tiveram a oportunidade de sair desse vilarejo. Mas Jurema vai levar essas pessoas com ela nesse barquinho, através dessa memória e desse entendimento de que nós somos parte daqueles que nos constituíram enquanto indivíduos”, detalha quanto à camada de sentido mais adulto da narrativa.

Da tormenta de possíveis, primeiro lhe sobreveio, em onda aleatória, o título. “Uma vez escutei a música da Anavitória, ‘Barquinho de papel’, e achei muito bonito o nome da canção. Fiquei com isso na cabeça — ‘ah, um dia eu quero escrever um livro que se chame Barquinho de Papel’”.

Aliás, muito do processo criativo de Jadna Alana é feito da recolha de ideias e fragmentos de coisas com as quais deseja trabalhar, em contos, romances ou novelas. No caso da história de Jurema, a fagulha data de fins de 2022, quando de sua aprovação na Ufop e da saída iminente da Paraíba.

“Eu tava muito atravessada por essa coisa de deixar a Paraíba, deixar o Nordeste, de onde eu sou, para ir morar no Sudeste. Estava com muitos conflitos familiares, de deixar a minha família lá e vir para cá; de vir sozinha e desbravar esse mundo de coisas que estavam destinadas para mim, aqui sozinha, levando quase nada na bagagem”, lembra ela, que viajou portando apenas a mala e o sonho. “Tudo das experiências da Jurema eu tava muito inspirada mesmo, metaforicamente, nesse processo que eu estava vivendo, pessoal”.

O mestrado foi concluído no ano passado, mas ela decidiu ficar em Minas por questões logísticas do mercado editorial — vide o próprio Prêmio Kindle, que acontece em São Paulo, e as duas grandes bienais do país no Rio de Janeiro e em São Paulo. Visando minimizar os custos que dificultavam sua inserção nos meios literários, Minas Gerais acabou funcionando como um ponto de apoio bem posicionado entre os dois pólos culturais da região, São Paulo e Rio.

Jadna publicou 11 livros. Escritos, ela diz ter por volta de 15, alguns dos quais desistiu de publicar; outros, permanecem guardados. ”Sempre prosa”, enfatiza.

“Eu sou — nossa! — extremamente caótica para poesia. No máximo uma prosa poética, mas no geral, romance e conto” — entre outros, publicou Quintal Fantástico – Contações Folclóricas (editora Izyncor, 2023), Para Onde Vão as Sombras (editora Coerência, 2021) e Riacho de Jerimum (Coerência, 2019). O próximo projeto de Jadna, que aponta Ariano Suassuna (1927–2014) como pedra fundamental do reino literário, será voltado para vivências sobre a mulher na sociedade, ainda sem data de publicação.

Qualquer pessoa (com a devida inclinação para as letras) pode participar do Prêmio Kindle, aberto anualmente pela Amazon Brasil e voltado para os gêneros de ficção e romance. A submissão do original é feita pela plataforma gratuita de autopublicação Kindle Direct Publishing (KDP), observada a exigência do livro não ter sido publicado em formato físico, como é o caso de Barquinho de Papel, que só agora terá contrato assinado com a Record, em publicação prevista para o fim deste ano ou início de 2027.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de fevereiro de 2026.