Nos últimos meses, o Governo Federal lançou na rede mundial de computadores uma biblioteca digital, com obras literárias premiadas, livros clássicos e best-sellers, todos gratuitos para leitura. Acessável pelo endereço meclivros.mec.gov.br, a plataforma MEC Livros disponibiliza títulos nacionais e mundiais de domínio público, além de obras contemporâneas licenciadas em formato digital. Celeiro de autores consagrados e de vultosos artistas independentes da atualidade, a Paraíba figura no rol de buscas do portal literário. Mesmo que de forma (ainda) — assim desejamos crer — incipiente.
Pode-se acessar o acervo tanto pelo computador (em navegadores convencionais como Mozilla Firefox e Google Chrome) quanto no celular, por meio do aplicativo MEC Livros, disponível para Android e IOS. Por se tratar de um serviço do governo, faz-se necessário o login pela conta do gov.br, e funciona como uma biblioteca física: o interessado aluga o livro que quer ler por 14 dias, podendo renová-lo por mais 14.
Entre os paraibanos, José Lins do Rego aparece na busca com 18 resultados, em títulos como Menino de engenho (1932), Doidinho (1933), Banguê (1934) e O moleque Ricardo (1947). Já Ariano Suassuna, ou mesmo o artífice de A bagaceira (1928), o romancista José Américo de Almeida, não possuem sequer uma menção. Isso se explica, em parte, pela recente hospedagem dos volumes às prateleiras virtuais da biblioteca pública digital. Mas nomes contemporâneos, como os do autor André Ricardo Aguiar e Maria Valéria Rezende, nos representam.
Aguiar desponta no MEC Livros com um único livro: o infantil Chá de sumiço e outros poemas assombrados (Editora Autêntica, 2014), enquanto Rezende figura com os infanto-juvenis No risco do caracol (2008), Hai-quintal (2011) e Ouro dentro da cabeça (2017), também publicados pela Autêntica. No entanto, outros tantos autores talentosos da nova geração, como os Brunos Ribeiro e Gaudêncio, ou poetas da monta de Hildeberto Barbosa Filho, Sérgio de Castro Pinto e Políbio Alves ainda passam ao largo da empreitada digital.
“Minha avaliação é positiva em primeiro momento”, declara André Ricardo Aguiar, “porque a nossa literatura — rica — e de todo mundo, boa parte dela, não tem os mesmos mecanismos do que se produz com a máquina das grandes mídias, nem em livros que estão nos outros centros maiores e, muitas vezes, acoplados a premiações, etc. Então ver alguns livros paraibanos num plano de acesso ao livro, é algo bom. Claro que tem muito a se aperfeiçoar, como é essa estrutura de empréstimo, pois ainda está em processo”.
Informada somente pelos jornais e amigos, Maria Valéria, tal qual André, foi pega de surpresa. “Meus romances adultos não estão — eu não sei por que, mas enfim”, afirma a escritora, ao mesmo tempo em que menciona a imprecisão quanto ao pagamento de direitos autorais para aqueles selecionados pela curadoria. “É um problema sério no país, porque o direito autoral em geral é 10% do preço de capa, como se fosse gorjeta de garçom. É um problemão e não está claro, ainda, se vai haver alguma remuneração para os autores”.
“Quem escreve quer ser lido”
Leitora contumaz desde a tenra infância, Rezende informa estar muito feliz em saber que seus livros infantis estão à disposição, desejosa da efetiva leitura de seu trabalho pelos usuários, já que, como ela mesma diz, “quem escreve quer ser lido”.
Aguiar corrobora: “É bem-vindo ter mais alcance, mesmo que limitado a uma duração de tempo e no meio digital”, e mesmo considerando precipitado fechar em opinião mais formada, acrescenta: “Ver um livro meu que chegou no MEC Livros é saber que ele tem visibilidade — que aliás, sei que tem, pois é um livro com selo do PNLD [Programa Nacional do Livro e do Material Didático], e isso, acho que ajuda”. 
“Tem tanto livro e tem tanta gente publicando hoje, né? Parece que publicar um livro virou um negócio indispensável na vida de qualquer famoso”, ressalta Valéria. “E isso significa também o quê? Que dependendo de quem você é e onde você mora, os seus livros terão uma repercussão muito maior — inclusive, o mercado escolhe quem vai fazer sucesso. E quem compra os livros que estão na moda, não quer dizer que leiam necessariamente”, alude, cônscia daqueles que, como diria Caetano Veloso, devotam aos livros a instrumentalidade de objetos decorativos, cultivados em estantes ou aquários.
Lógica de plataforma
Para o autor de Chá de sumiço e outros poemas assombrados, os motivos para uma certa invisibilidade de outros literatos paraibanos diante dos radares da plataforma são muitos e envolvem, no mínimo, questões socioculturais e políticas.
“Toda produção sempre tem lacunas de visibilidade, e não seria diferente aqui”, comenta. “O ato de escrever um livro não é impossível, e talvez publicar por conta própria ou por edital. Mas sinto que tudo ainda se afunila, e deve ter muitos valores escondidos, não estimulados, e claro, que nem sequer consegue furar a bolha até do acesso ao livro, ponto fundamental, pois o escritor ou escritora precisam antes de tudo ler” enfatiza Aguiar.
André acredita que sempre existirá o risco de que a plataforma reproduza um recorte restrito de vozes da literatura brasileira, justo pela publicação em larga escala em um país continental como o Brasil. “E, talvez, nem saberemos quais vozes podem estar restritas ao seu meio de origem, sem furar a bolha”, pontua ele.
“Funciona como uma biblioteca que tem um espaço e um número de leitores. Uma biblioteca ideal teria tudo, mas não é a realidade. Acredito que a plataforma dê acesso para estimular mais o hábito de ler, pensar, criticar e, quem sabe, criar leitores num meio digital que parece sempre esmagar a leitura aprofundada em troca do que rola na rede, a superficialidade, a velocidade e a fragmentação”.
Às escuras em relação ao processo burocrático e administrativo da seleção das obras, e lembrando do serviço de assinatura Tag Livros, Maria Valéria confessa: “O que eu gosto muito e que tenho tido muito prazer são os clubes de leitura que estão se espalhando pelo Brasil todo e que estão lendo os meus livros, sabe?”.
É válido mencionar, ainda, que a versão da plataforma para celulares tem funcionado com certa instabilidade, a exemplo de fechamento abrupto do app ao alternar a orientação de leitura (de retrato para paisagem). De acordo com feedbacks de vários usuários, as obras em quadrinhos seriam as mais prejudicadas pelo mau funcionamento.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de maio de 2026.
