Dolores Gonçalves Costa nasceu em 1907, em Santa Maria Madalena, no Rio de Janeiro. Entre as possibilidades de conseguir ser cantora e atuar como atriz, ela se tornaria, em 1927, aos 20 anos, Dercy Gonçalves, como o Brasil passou a conhecê-la. De início nas chanchadas brasileiras, passando por programas humorísticos, novelas na televisão e aparições em entrevistas, trazia uma performance em que sua persona e atuação se misturavam com a própria vida. Dolores, então, nasceu para ser Dercy. Partindo dessa premissa, chega aos palcos pessoenses a peça Nasci pra ser Dercy, monólogo assinado por Kiko Rieser e interpretado por Grace Gianoukas, em cartaz, amanhã, no Intermares Hall, com ingressos a partir de R$ 50 na plataforma Bilheteria Digital.
A peça investe em um contexto de metalinguagem. A produção conta a história de Vera, uma atriz convidada a interpretar o papel de Dercy Gonçalves. No entanto, ela acaba encontrando inconsistências no roteiro apresentado pela jovem equipe que prepara o espetáculo, e gera embates sobre o texto, considerando as aparições de Dercy estereotipadas. Vera passa então a trazer mais dados e informações sobre a comediante, no sentido de humanizá-la, caminho a partir do qual começa a “receber” a persona de Dercy.
“Ela vai contando quem foi a Dercy Gonçalves para esses jovens que escreveram o roteiro, sem quase pesquisa nenhuma. Ela começa a contar, e a Dercy vem baixando. A história é essa”, explica Gianoukas.
Rieser reforça que o artifício da metalinguagem contribuiu para opor os clichês com a grandiosidade e singularidade de Dercy. “Eu quis colocar esse senso comum, esse estereótipo, e fazer a contraposição. Então é a história dessa atriz que vai fazer um teste e se depara com o roteiro que é puramente essa estereotipação da Dercy. Mas ela conhece a Dercy mais a fundo, porque a mãe era fã, etc., e começa a lutar contra esse roteiro e começa a mostrar quem foi a Dercy de verdade, todas as camadas, toda a densidade, a profundidade da Dercy”.
A construção da personagem
Gianoukas explica que Dercy esteve presente no seu imaginário desde sempre, tanto no cinema, nas edições da Sessão da tarde, da Globo, nas novelas, nas chanchadas brasileiras das décadas de 1940 e 1950.
“Eu tinha assistido quase tudo da Dercy Gonçalves, do Braguinha, esse pessoal todo, Oscarito, Grande Otelo. Eu tinha isso muito forte, mas fui rever vários desses filmes que hoje, graças a Deus, estão disponíveis. E fui assistir também muitas e muitas e muitas entrevistas da Dercy Gonçalves, porque eu precisava entender quem era Dercy aquém do palco”.
Nesse sentido, o principal material de refino da pesquisa veio por meio de três entrevistas de Dercy para o programa Roda viva nos anos de 1987, 1989 e 1995. “São entrevistas muito reveladoras. Porque está lá aquela persona Dercy Gonçalves, e, de vez em quando, ela começa a contar algumas coisas que mexem um pouco com ela, e ela vai entrando numa coisa de intimidade, ela mexe nos anéis, mexe no colar, muda o olhar, muda o ânimo, começa a contar algumas coisas. De repente, para se defender, ela já volta com aquela persona”.
Prêmios e reconhecimentos
Desde a estreia, em 2023, o espetáculo reuniu mais de 40 mil espectadores e percorreu mais de 60 cidades. O trabalho da equipe tem sido reconhecido também na conquista de prêmios. A interpretação de Grace rendeu os prêmios Shell e APCA de Melhor Atriz, em 2024, e o I Love Prio de Humor por melhor performance. Além disso, o autor Kiko Rieser recebeu o Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Dramaturgia Original.
Mas, para Gianoukas, o reconhecimento veio mesmo com a reação e a relação que ela tece com o público no palco. Ela conta que um dos momentos mais emocionantes no reconhecimento da sua atuação na peça veio com a presença da família de Dercy no espetáculo.
“Acho que, para mim, como atriz, o espetáculo se completa com a troca com o público. E eu acreditei que eu estava fazendo um trabalho legal quando a filha da Dercy Gonçalves, a Decimar, foi me assistir no Rio de Janeiro, com as netas, as bisnetas e vieram todas me abraçar e dizer: ‘Finalmente, um trabalho que coloca a minha mãe no lugar que ela merece como pensadora, como mulher, como artista’. Não que não tivesse outros, mas, assim, é uma visão da Dercy que a humaniza muito. A família ficou muito encantada e agradecida. É muito além dos estereótipos”.
Homenagem
Gianoukas afirma que a peça não poderia deixar de colocar em cena os palavrões que fazem parte da iconoclastia de Dercy.
“Foi com isso que ela levou o público pro teatro, foi com isso que ela sustentou a família, foi com isso que ela teve tantos empregos como produtora”, analisa.
Mas a abordagem vai além dos clichês, tentando ao máximo humanizar a figura de Dercy: “É uma homenagem. Esse é o primeiro espetáculo de teatro sobre Dercy Gonçalves. Não teve nenhum outro no Brasil. Vão fazer 18 anos da morte dela. É uma importância enorme manter viva a memória dessa mulher. Se a gente está aqui hoje, a Dercy tem uma importância enorme”.
A atriz também aponta que o trabalho de Dercy deveria ser mais estudado. “Ela não está na academia, não se estuda Dercy Gonçalves. Porque a academia é muito europeia, os brasileiros não são estudados. Ainda na academia se considera Dercy popularesca”, afirma. “Mas o que ela fez é para ser estudado, é motivo de tese. Então esse espetáculo, além de ser uma homenagem, tenta fazer justiça a essa mulher”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de maio de 2026.
