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Alexei Bueno deixa imenso legado

publicado: 30/06/2026 09h29, última modificação: 30/06/2026 09h29
Estudioso de Augusto dos Anjos, escritor fez amigos na Paraíba e colaborou com a Editora A União
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Alexei Bueno visitou a Paraíba algumas vezes: foi um dos participantes da primeira FliParaíba | Foto: Ivo Gonzalez/Divulgação

por Daniel Abath*

Poeta, tradutor, crítico e editor carioca, Alexei Bueno faleceu na última sexta-feira (27), aos 63 anos, em sua casa no Rio de Janeiro. Ao longo de seus 40 anos de carreira, Alexei conquistou vários prêmios, a exemplo do prêmio Jabuti (2004), da Academia Brasileira de Letras de Poesia (2004) e do prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional (2022). No início do mês, quando participava de um colóquio sobre Luís de Camões em Lisboa, Alexei sentiu-se mal, vindo a ser diagnosticado com câncer de fígado.

Assaz estudioso da obra do poeta paraibano Augusto dos Anjos, Bueno chegou a colaborar com a editora A União e sempre se fez presente em eventos literários paraibanos, como aconteceu em novembro de 2024 com a primeira edição do Festival Literário Internacional da Paraíba (FliParaíba) junto ao professor paraibano Milton Marques Júnior, Bueno abriu o debate intelectual do evento com a mesa “Identidade e reconhecimento: Camões, o estrangeiro”. Àquela ocasião, sentenciou ao jornal A União com a convicção de bibliófilo e enciclopedista: “Qualquer um sabe que boa parte da grande literatura brasileira foi e é produzida no Nordeste”.

Jornalistas e escritores paraibanos comentaram nas redes sociais acerca da perda, a exemplo do colunista de A União, Astier Basílio; “Hoje o Brasil perde um de seus grandes poetas e eu me despeço de um amigo”. Já Linaldo Guedes, outrora editor do suplemento literário Correio das Artes, atestou a potência das pesquisas de Bueno sobre a produção augustiana.

“A primeira vez que soube de Alexei foi quando comprei a antologia sobre Augusto dos Anjos, organizada por ele para a Nova Aguillar”, disse Linaldo. “Passei meses juntando dinheiro para comprar essa antologia, um dos poucos livros que nunca me desfiz ao longo dos anos e que é base para meus estudos e pesquisas sobre Augusto dos Anjos. [...] Era um bom poeta e um grande estudioso da literatura brasileira. Tinha um temperamento forte, mas era capaz de gestos grandiosos”.

Valendo-se de um antigo provérbio africano em seu blog Mundo Fantasmo, Braulio Tavares comparou a partida de Alexei a um incêndio em uma biblioteca. “Na verdade, nem fomos tão próximos assim; tínhamos aquelas amizades de um-encontro-por-ano, muitas vezes em função de nossa presença num colóquio literário, lançamento de livro, esses eventos providenciais que nos arrancam da poltrona e da página. Benditos eventos, que nos fazem conhecer pessoas assim”.

Cria de Copacabana, Alexei Bueno editou por conta própria, aos 16 anos de idade, os versos de sua primeira lavra, O tempo anoitecido. Em 1995, quando seu Via estreita (poema em 10 partes e de versos livres) abocanhou o prêmio de melhor livro de poesia do ano pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), o poeta hospedou-se no Palácio do Marquês da Fronteira, em Lisboa, onde reuniu material para uma antologia da poesia portuguesa contemporânea, organizada com Alberto da Costa e Silva em 1999.

Entre outros escritores, Alexei traduziu para o português Gérard de Nerval, Edgar Allan Poe, Longfellow, Mallarmé, Tasso e Leopardi. Em 2022, contribuiu com a historiografia literária brasileira ao lançar A escravidão na poesia brasileira: do século XVII ao XXI (Editora Record). Imparável diante do imenso legado, deixou ainda no mundo, no mês passado, aquele que se tornaria seu derradeiro livro, A chave quebrada.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 30 de junho de 2026.