Guerras, genocídio a céu aberto, aceleração do capitalismo. O mundo anda mesmo na corda bamba, mas o show de todo artista, para o bem da esperança, precisa continuar. Após anos distante da capital paraibana, O Teatro Mágico retorna a João Pessoa trazendo ao palco A corda bamba no pescoço, turnê construída a partir de inquietações políticas, temas sociais e vontade de reavivar os sonhos. O show acontece amanhã, às 20h, no Centro de Convenções Cidade Viva, no Aeroclube, com ingressos à venda no site ingressomagico.com.br, aos valores de R$ 160 (inteira), R$ 80 (meia) e R$ 90 (solidário + 1kg de alimento), acrescido de taxas da plataforma.
Em conversa com A União, o cantor e compositor Fernando Anitelli, vocalista do grupo fundado em 2003 em Osasco, relembrou as últimas passagens da trupe pela Paraíba e afirmou que havia um desejo antigo de incluir João Pessoa novamente na rota. “Não podia deixar João Pessoa de fora. Seria uma injustiça. Temos um carinho gigante – toda vez que a gente vem para João Pessoa é um calor, o público participa, brinca, canta. Depois do show sempre tem forró, ou eu participando do forró de alguém, fazendo um forró mágico”, afirma o artista ao recordar de momentos vividos na cidade após as apresentações.
O novo show sucede uma sequência de trabalhos recentes do grupo, incluindo as apresentações de Histórias para cantar (álbum de 2024), em formato voz e violão, e a turnê do ano passado, O reencontro, que celebrou a trajetória do coletivo com antigos integrantes e o cancioneiro dos primeiros discos. Segundo Anitelli, a proposta atual segue outro caminho estético e conceitual; combativa, mas sem perder a poesia.
“É sempre uma delícia sair em turnê de álbum novo, de canção nova, figurino novo, números novos”, diz ele. “Revigora a criatividade e a necessidade dos assuntos que a gente está trazendo agora, em uma turnê que a gente sente uma importância enorme de estar falando o que a gente está falando”.
Na corda bamba
Músicas inéditas e composições já conhecidas que dialogam com temas socioculturais e políticos integram a recente setlist – entre as clássicas estão “O sol e a peneira”, “Amanhã será”, “Abaçaiado”, “Almaflor”, “Xanéu no.5” e “Pena”. Já as novas canções surgem em parceria com músicos convidados como Flávio Venturini (“A vida se revela”), Gabriel Grossi (“Do rio ao mar”) e Humberto Gessinger (“Feito rio - fora do leito”).
A faixa em feat com Gessinger, inclusive, é utilizada como eixo conceitual da excursão sonora. A música foi ampliada por videoclipe realizado em parceria com integrantes do Free Gaza Circus, coletivo itinerante que atua na Faixa de Gaza promovendo atividades circenses para crianças em meio à tragédia na região. “A gente colocou cenas no clipe deles no meio dos escombros, fazendo uma roda, com assistente social, psicólogo, assistente de saúde, transformando a vida de crianças por algumas horas”, relata.
O músico atesta que a proposta do espetáculo é justo tratar de temas mais duros, ligados à violência contemporânea, porém sem abandonar a ternura e o caráter poético que marca uma trajetória de mais de duas décadas do grupo. “Estamos atravessando esse mundo maluco, cheio de violência, de guerra e fúria, e tendo que falar sobre essas coisas de uma maneira também capaz de acolher os corações com poesia”, desabafa.
A esse respeito, o artista defende a presença de posicionamentos críticos na produção artística contemporânea. Ao comentar o cenário político e social, marcado por males como a desinformação e o aumento da polarização entre a sociedade civil, Anitelli considera este o melhor momento para manifestações artísticas de caráter político. “Quando está nessa situação é quando é mais fácil fazer arte crítica”, diz ele.
“Difícil é fazer quando tá todo mundo achando que estão bem as coisas. E você tendo que alertar, abrir os olhos de alguma maneira. Esse momento que a gente tá atravessando na verdade é o momento propício pra gente trazer essas músicas críticas, atuando não só com a música – até porque a música é um combo de coisas”.
Mágica resistência
Ao comentar a parceria com o Free Gaza Circus, Anitelli criticou a naturalização das imagens de guerra consumidas diariamente pelas redes sociais. “A gente não pode normalizar e fingir que tá tudo bem enquanto um genocídio atravessa nossos dedos na telinha do celular. Dizer coisas como: ‘Ah, é normal a guerra [entre] Estados Unidos e Israel’. Que absurdo é esse?”, lamenta indignado.
Por isso mesmo, trazer o debate à tona no palco, com a mágica fusão entre música, teatro e circo, é considerada a melhor fórmula para questionar os temas sensíveis de um mundo dividido entre aqueles que não querem tocar no assunto e os que permanecem calados, olhando de cima do muro.
“Aí parece que a gente tem que ficar silenciado”, continua. “E quando a gente começa a silenciar importâncias é aí que a gente começa a se tornar conivente… com a violência, conivente com o descaso, e é para isso que a gente serve – o palhaço, o artista, a alegria, a música. É fazer do riso, a resistência; fazer do humor, a provocação, a reflexão ao pensar, e é isso que a gente está fazendo nessa turnê”.
A estrutura conta com sete integrantes em cena, sendo quatro músicos e três artistas circenses. Embora a formação atual mantenha nomes históricos da trajetória do grupo, o espetáculo não reproduz o formato da turnê comemorativa O reencontro, que reuniu músicos ligados aos primeiros discos do coletivo. Entre os participantes do atual projeto estão o baixista Serginho Carvalho – que já trabalhou com Djavan –, além de Fred Sommer e os artistas performáticos Andrea Barbour e Nô Stopa, presentes em diferentes momentos da discografia de O Teatro Mágico.
O pontapé inicial da atual turnê teve início no último dia 10 de maio, em Belo Horizonte, e passou por São Paulo no dia 16 antes de seguir para o Nordeste – hoje é a vez de Recife, amanhã em João Pessoa e no domingo (24), Natal. Agendados para agosto estão Fortaleza (1º) e Maceió (8). Além dos shows, o grupo pretende continuar lançando músicas inéditas em paralelo e ao longo da turnê.
“Quando a gente lançar todas, a gente imagina fazer um ‘caldeirão’, uma ‘panelona’ com as músicas todas, em um álbum”, pontua Anitelli. Além de Histórias para cantar O Teatro Mágico lançou os álbuns Entrada para raros (2003), Segundo ato (2008), A sociedade do espetáculo (2011), Grão do corpo (2014), Allehop (2016) e Luzente (2022).
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 21 de maio de 2026.
