A cultura paraibana continua a reverenciar as artistas femininas no mês dedicado a elas. A exposição Mulheres de março mostra obras do acervo permanente da entidade em João Pessoa e em Campina Grande. A mostra no Sesc Centro de JP foi inaugurada na última sexta-feira (6) e seguirá aberta à visitação gratuita de segunda a sexta, das 8h às 17h, até 30 de abril. No Sesc Centro de Campina, a vernissagem é hoje, às 19h; depois, as obras ficam em exposição de segunda a sexta, com entrada franca, das 8h às 18h, apenas até 11 de abril.
Ao todo, 60 obras de 43 artistas paraibanas compõem essa exposição. Na capital, estão Allyne Eloy, Ana Lúcia Pinto, Analice Uchôa, Aurora Caballero, Célia Gondim, Conceição Myllena, Cristina Carvalho, Cybele Dantas (Cyber), Evanice Santos, Iris Helena, Isabela Murrá, Letícia Lucena, Li Vasc, Lina Ganem, Lonelas, Lu Maia, Luana Rodrigues, Luciana Urtiga, Manu da Pazz, Marby Silva, Marília Riul, Maria José Porto, Minna Miná, Mozileide Neri, Potira Maia, Raquel Stanick, Tarciana Kaline, Vanessa Dias e Yasmin Formiga.
Já para a Rainha da Borborema, além de Analice, Aurora, Evanice, Iris, Isabella, Raquel e Yasmin foram selecionadas Alessandra Soares, Assuéria, Célia Romeiro, Ednalva Cerqueira, Jacira Garcia, Karla Noronha, Letícia Lucena, Manu da Pazz, Morgana Ceballos, Patrícia Lucena, Potira Maia, Rebeca Souza, Ri Maia, Sammy Sah, Thaynha, Valéria Antunes, Waleska Silveira e Zenilda Pereira. “Muitas iniciaram suas trajetórias na instituição e, hoje, possuem carreiras consolidadas no Brasil e lá fora”, explica Paulo Aurélio, produtor e curador do Sesc.
Jacira Garcia, conhecida por suas esculturas, tem atuado em projetos solo e em parceria com outros artistas, por meio de imbricações entre as artes visuais e a música, por exemplo — um desses projetos é Pedra poema, assinado com o ilustrador Gonzaga Costa e o instrumentista Yuri Gonzaga. “Mas no Sesc, a obra escolhida faz parte da exposição Ancestralidades e evidências, resgate dos registros rupestres da Pedra do Ingá, inspirada pela reflexão entre o tempo e o vazio”, detalha a autora.
Somando oito anos de carreira profissional, Jacira reflete sobre espaços dados às mulheres nas artes, pontuando que, apesar do preconceito, o respaldo do público e dos pares tem crescido, bem como a visibilidade do “fazer artesanal”, também por parte dos artistas homens. “No meu caso em particular, que lido com o barro, ainda existe a desvalorização da matéria- -prima. No entanto, sinto-me abraçada quando reconhecem a identidade do meu trabalho associado a minha idade”, atesta.
Analice Uchôa, notória pelos quadros em arte naïf, tem compartilhado parte dessa produção com público, graças a séries como Pinceladas brincantes, em exposição no ano passado, na Paraíba, com imagens da infância, um de seus temas recorrentes. Os títulos escolhidos pelo Sesc perfazem duas telas de grande extensão.
“Por uma delas até ganhei uma homenagem da instituição: mulher do ano, como artista naïf. A que está em Campina, chama-se ‘Pipas’, baseada em brincadeiras de crianças, que dei para o Sesc”, assevera.
Analice afirma que no início de sua trajetória, há cerca de 30 anos, as artistas plásticas padeciam de descrédito similar ao dos homens, mas que esse processo, para elas, acontecia com muito mais violência. “Há três anos participo de um coletivo de artistas mulheres. Foi um crescimento também muito grande para mim, que estava sozinha. E agora não, somos nove ou 10 integrantes. E a gente está se empoderando, está lutando, batalhando para achar o nosso cantinho”, celebra.
Thaynha está representada por uma fotografia tirada há pouco mais de 10 anos: na época, ela era estudante da graduação em Arte e Mídia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), de quando pesquisava audiovisual. “Essa obra acabou sendo incorporada ao acervo para essa exposição. No entanto, ela pertence a um momento bastante específico da minha trajetória. Desde então, minha pesquisa artística se deslocou significativamente e hoje está concentrada, sobretudo, no campo da arte urbana e do grafite”, ressalta a artista.
Considerando a experiência de uma década como artista visual e os desafios que ela e outras colegas enfrentam, Thaynha lamenta a distância entre discurso positivo e prática. “Muitas vezes, somos incluídas em pautas sobre representatividade, mas não participamos das decisões e processos que envolvem nossas próprias obras. Acredito que o debate sobre a presença das mulheres na arte precisa ir além da visibilidade simbólica. Também envolve condições reais de trabalho, reconhecimento profissional, escuta e remuneração”, conclui.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de março de 2026.

