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Batucada de segunda

publicado: 25/05/2026 09h19, última modificação: 25/05/2026 09h19
João Cavalcanti, ex-Casuarina, canta amanhã, em João Pessoa, em participação no Sanhauá Samba Clube
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“O primeiro sambista que vi foi meu pai”, conta João Cavalcanti | Foto: André Rola/Divulgação

por Daniel Abath*

Quem ainda acredita que o culto ao samba encontra-se circunscrito aos redutos cariocas pode estar, como diria o saudoso mestre Dorival Caymmi (1914–2008), “ruim da cabeça ou doente do pé”. Prova disso é o projeto Sanhauá Samba Clube, que todas as segundas-feiras ocupa a Vila do Porto, no Varadouro (JP), com o melhor do gênero genuinamente brasileiro, por vezes abrilhantado com participações especiais de fora. É o caso de amanhã, às 21h30, ocasião em que o Sanhauá Samba Clube convida o cantor e compositor João Cavalcanti, filho de Lenine e ex-vocalista do Casuarina, a subir ao palco da Vila do Porto. Em segundo lote, os ingressos estão à venda na plataforma Shotgun por R$ 25.

De acordo com Potyzinho (cavaquinho e vocal), o clube de samba pessoense surgiu de um convite feito por Ramón Suárez, proprietário da Vila do Porto, ao cantor Seu Pereira.

“Então, Seu Pereira me ligou, sugeri a formação, fizemos uma reunião, eu, Seu Pereira e Ramón, e firmamos o projeto que já dura sete anos”, explica o cavaquinista. “Nesta edição teremos a honra de receber João Cavalcanti, cantor e compositor carioca com a alma fincada em solo nordestino”.

Criado em 2019, o projeto dá ênfase a participações de artistas da música paraibana e da cultura popular local, como Totonho, Escurinho, Val Donato, Nathalia Bellar e Vó Mera, entre tantos. Além de Potyzinho, integram a formação atual a cantora Polyana Resende, Kojak do Banho (voz e banjo), Fabiane Fernandes (voz e vioão) e os percussionistas Erandi Oliveira, Francisco Neto e Alisson Cavalcante.

Alma nordestina

Em conversa com A União, João Cavalcanti conta que seu avô paterno nasceu em Campina Grande e só depois se mudou para Recife, onde casou e teve filhos (um deles, Lenine). “Acabou que eu tive mais contato com a família da minha avó, que era de João Pessoa originalmente. Mas muita gente foi pra Recife”, diz ele.

Na capital, pelas suas contas, João já cantou umas duas ou três vezes, mas muito tempo atrás. “Minha mãe casou de novo com um pessoense, então tem uma família torta minha no Bairro dos Estados, na Praia do Poço”, acresce o sambista, que mais recentemente esteve na cidade por ocasião de uma participação em álbum do contrabaixista paraibano Xisto Medeiros.

Nessas idas e vindas, João conheceu Potyzinho, mas nunca havia tocado no Sanhauá Samba Clube, apesar de conhecer o trabalho do grupo. Segundo o artista carioca, trata-se de uma participação menos incomum do que possa parecer. “O samba tem uma informalidade — que não pode ser confundida com falta de cuidado e falta de profissionalismo — que permite às vezes você não ter um repertório prévio formal. Em geral tem um espaço muito maior pra essa informalidade”, pontua.

Por sempre fazer concessões em torno de pedidos eventuais do público, o músico garante que muito do programa da noite pode pintar na hora. Quase sempre também recupera no palco o repertório do Casuarina, banda de samba carioca formada em 2001 e na qual João, à época com 21 anos, cantava e percutia o tantan, o que lhe deu a cancha necessária para o samba. Em longa trajetória, de mais de 15 anos, dos quais resultam discos como Casuarina (2005), Certidão (2007) e No passo de Caymmi (2014), João deixou o grupo em 2017, ano em que decidiu começar sua carreira solo.

Foi então que gravou os álbuns Garimpo (2018) — ladeado pelo sanfoneiro Marcelo Caldi —, o EP Samba mobiliado (2019) e o mais recente, Ivone rara: 100 anos da dona do samba (2022), trabalho em reverência a Yvonne Lara da Costa (1922–2018), mais conhecida como “Dona Ivone Lara”, lendária cantora e compositora, ícone da história do samba nacional.

“Sempre tem umas duas ou três canções da Dona Ivone, quase sempre com Délcio Carvalho [1939–2013], parceiro histórico. Eu conheci e convivi com os dois. Sempre tem Wilson Moreira [1936–2018] outro querido amigo, uma pessoa que me ensinou muita coisa sobre samba, música e sobre humanidade, caráter”, detalha o apanhado do repertório atemporal e transgeracional de seu samba nos palcos. Naturalmente, as canções autorais mais pedidas de João estão na agulha, a exemplo de “Ponto de vista” e “Queira ou não queira”.

Almejando agrupar o repertório da compositora em formatação que transcende as limitações de gênero, o tributo a Dona Ivone sempre foi um desejo íntimo e latente ao músico, que é também formado em Jornalismo. E foi justo o faro da profissão que o fez evocar, com muita reverência e carinho, a quase esquecida efeméride do centenário da sambista em função de sua longevidade. “Pelo viés da melodia esses dois [Ivone e Wilson] são os mais impressionantes. Ela é uma das maiores melodistas do mundo”, confessa.

O lugar do samba

Indagado sobre a genealogia de seu interesse pelo segmento, Cavalcanti lembra da percepção pública corriqueira de que tornar-se um cantor de samba, de algum modo, distancia-o da carreira do pai. Segundo ele, a pressuposição não condiz com a verdade. Defendendo a ideia, remonta aos oito anos de idade, no início dos anos 1990, quando o Rio passou por um processo de revalorização do Carnaval de rua, este “obscurecido” em meio ao deslumbramento espetacular das escolas de samba cariocas.

“Há muitas facetas, mas o Carnaval do Centro do Rio de Janeiro era esvaziado durante o Carnaval, fora da Marquês de Sapucaí, e ali, nos anos 1980 e 1990, tem uma recuperação muito grande”, reitera. “E meu pai foi compositor de blocos como o Simpatia É Quase Amor, como o Suvaco do Cristo… Fez samba pra muitos desses blocos dessa geração da retomada do Carnaval de rua. E eu tava lá, com oito ou nove anos, vendo. Então, assim, o primeiro sambista que eu vi de perto foi meu pai”.

Citando, de um lado, nomes como Élton Medeiros (1930–2019), Paulinho da Viola e João Nogueira (1941–2000), e, de outro, Cláudio Jorge e Ivor Lancellotti, considera a multiplicidade de mundos que cabem no terreiro do samba, centro nevrálgico de onde irradia a música popular brasileira. “Eu sempre digo que a minha escola de samba tem nome e sobrenome e é paraibana, que é Jackson do Pandeiro [1919–1982]. O repertório que fez uma espécie de grande intersecção dos meus quereres foi o repertório de Jackson”, assegura o salgueirense.

Analisando o espírito social do momento, consubstanciado em uma predileção pelo “não gostar” das coisas, o sambista assume sua posição em revés: “Eu sou um cara que gosta. Eu gosto de ouvir tudo, gosto de pensar para além dos meus filtros pessoais, naturalmente muito canhestros. Ouço tudo de novo que é lançado, tento ouvir tudo, do ultra pop ao ultra indie, e isso é constitutivo de quem eu sou”. A propósito, João estacionou agora no trabalho de Os Garotin, boy band de soul brasileiro oriunda de São Gonçalo. Ele recomenda.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de maio de 2026.