Oscilando entre o canto ritual e a criação artística contemporânea, o álbum Encruzilhada fêmea marca a estreia fonográfica da cantora e compositora Laíz de Oyá. O trabalho solo reúne pontos de reza dedicados à Pombagira, entidade feminina das tradições religiosas afro-brasileiras, como a Umbanda, refletindo a passagem da artista pelo teatro, grupos de cultura popular e suas vivências no terreiro. Disponível nas plataformas de streaming desde a última sexta-feira (6), o disco nasce de projeto desenvolvido ao longo de sete anos, fruto da manifesta relação entre a artista e as entidades da casa Ilê Axé Ojú Ofá Dana Dana. Já o show de lançamento do álbum será apresentado no próximo dia 21, no Theatro Santa Roza, em João Pessoa, com entrada gratuita – antes disso, a artista se apresenta em Olinda (19), no Teatro Fernando Santa Cruz, no Mercado Eufrásio Barbosa.
Antes de se transformar em álbum, o conceito já aparecia em experimentações artísticas que envolviam poesia, videoperformance e criação de figurinos. A ideia para gravar uma tal fusão de elementos surgiu quando a cantora começou a interpretar pontos – como são chamados os cânticos sagrados de sua fé – dedicados à Pombagira em apresentações intimistas ao lado do percussionista Victor Rama, com formato reduzido de voz e tambor.
Com o tempo, a coisa foi tomando corpo e a ampliação do repertório e da formação musical passou a pedir outras oferendas. Foi quando a artista percebeu que seu intuito sempre foi cantar pontos.
“Fui entendendo a potência disso tudo e falei: ‘Cara, vou aumentar isso aqui; botar mais tambor, botar mais voz”, conta Laíz. “E aí eu já tava nesse processo de querer fazer um disco, de querer me lançar. Cheguei a montar a ideia de um disco autoral, mas eu não senti que era com ele. Quando vi o Encruzilhada fêmea tomando corpo, eu me senti muito segura e falei: ‘É com esse trabalho que eu vou fazer o meu primeiro disco’”.
Das saudações de abertura em “Lebara/ Pombagira na encruza/ Arreda homem”, ao fechamento com “Me arranje um dinheiro/ Adeus adeus”, Laíz entoa suas homenagens ora em canto solo, ora sincronizada ao coro de vozes femininas ou em melodia vocal transcrita ao trompete. Atabaques e tambores sustentam o ribombar pulsante das letras.
A decisão foi tomada há cerca de dois anos e meio. Para desenvolver os arranjos, Laíz convidou o trompetista Tarcísio em Chamas – instrumentista atuante na cena musical de João Pessoa – para estruturar as composições baseadas nos cantos tradicionais. “É um disco todo de ponto; são rezas, é domínio público, então a gente não tem isso escrito. Aí Tarcísio fez todo um trabalho de arranjar essas canções. Começamos assim, nós nos encontrávamos e eu cantava e ele ia anotando a partitura para ele fazer os trompetes”, ela explica.
O processo de produção incluiu ainda uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar a gravação. E já durante a divulgação da iniciativa nas redes sociais, surgiram convites para apresentações ao vivo do trabalho, o que acabou antecipando a estreia do espetáculo em relação ao disco.
“A ideia era gravar primeiro para depois lançar o show, mas a galera convidou, eu topei e a gente colocou o trabalho na rua e eu vi que funcionava muito. Isso confirmou mais ainda esse desejo de fazer o disco”.
Em setembro do ano passado, os músicos entraram para gravar no estúdio Peixe Boi, em João Pessoa, com produção executiva da própria Laíz. O registro foi realizado em quatro dias e manteve a execução coletiva da banda em formato ao vivo, característica que a artista considera fundamental para a proposta sonora do trabalho. “Era importante para mim manter essa sonoridade de terreiro, como acontece no ritual. Não queria gravar cada instrumento separado”, destaca.
O disco também conta com participações vocais de integrantes da comunidade religiosa da cantora, a exemplo de sua mãe de santo, Renilda de Oxosse, que colabora à faixa 11, “Aliança de Ouro”. Outros membros do terreiro também participam do coro, em diferentes momentos de resposta do álbum, tais como Doté Cleyton de Xangô, Dofono Venâncio de Logun Edé, Daniel de Oyá, Dani de Oxosse e Paty de Ewá
Encruzilhada artística
A trajetória musical da artista começou no curso de teatro. Formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Laíz afirma que as artes cênicas foram fundamentais para sua aproximação com diferentes linguagens artísticas. Durante a graduação, também passou a integrar ainda o Coral Gazzi de Sá da UFPB. “Foi ali que eu deixei de cantar no banheiro e fui para o palco”, brinca ela.
Nos anos seguintes, a artista participou de diversos grupos ligados à cultura popular, como Imburana e Raízes. Mas Laíz pontua que foi a relação com a casa religiosa o que veio a orientar não apenas o repertório, mas também aspectos visuais e performáticos do projeto, referências que influenciaram a concepção estética tanto do espetáculo (corporeidade, cores) quanto do álbum.
Embora o disco dialogue diretamente com o universo religioso, a cantora salienta que o projeto também se insere no campo da criação contemporânea, combinando dimensões artísticas e culturais diversas. “A contemporaneidade tá muito presente em tudo o que eu faço”, predica, “então é justamente esse cruzamento que eu quero trazer. É um disco religioso, obviamente, mas também é contemporâneo. Quando você vê as imagens e o show, entende essa dimensão artística”.
Ao definir o trabalho como uma espécie de registro historiográfico da forma como as Pombagiras são cultuadas na Paraíba, ela esclarece existirem variações nas formas de culto e interpretação musical dessas tradições por todas as regiões do Brasil – no caso paraibano, existe uma maneira muito específica em torno à prática. “Eu gosto de dizer que é um disco para o povo de terreiro. Principalmente – obviamente que é pra todo mundo – mas é um presente pro povo de santo”, reitera.
Desmistificar a figura da Pombagira, frequentemente associada a estereótipos negativos, também desponta como objetivo temático de Encruzilhada fêmea. “Poder espalhar pro mundo que Pombagira é amor, que Pombagira é uma mulher que tá aqui pra ajudar a gente, pra cuidar de nós. Porque existe um imaginário muito triste, atravessado pelo racismo e pela intolerância religiosa, que coloca essas entidades como forças do mal. E não é isso, porque eu vi que não é isso, eu sei que não é isso”, testemunha.
Satisfeita com o momento específico de sua encruzilhada, Laíz de Oyá não descarta abrir caminhos outros no futuro. “Isso é [o] que abrange minha vida nesse momento. Mas eu acho que posso ir para muitos outros lugares também. Inclusive, quero; não sei ainda, mas já tenho vontades dentro de mim de fazer outras coisas. Mas quero ainda circular bastante com Encruzilhada fêmea, poder apresentar em outros estados”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de março de 2026.
