Um sorriso espontâneo; o recostar-se à cadeira de balanço na calçada elevada, de cimento batido; a simplicidade arquitetônica de uma casinha do interior ou o contemplar calmo da fé inabalável. Essas foram as imagens mais desafiadoras até então registradas pela fotógrafa Adriana Araújo, exibidas na exposição Cariri venoso ancestral, na Galeria Alexandre Filho, da Usina Cultural Energisa, em Tambiá. Os trabalhos podem ser vistos gratuitamente até o dia 10 de maio, de terça a domingo (das 9h30 às 18h) – por ocasião das atividades do projeto Viva Usina, nos próximos dias 17, 18 e 19 de abril a visitação é estendida até as 22h.
Na exposição são apresentadas 45 imagens (com dimensões de 80x53) em preto e branco, impressas em fine art, técnica que utiliza papéis especiais e tintas pigmentadas, que conferem resultado final de altíssima qualidade visual. Seguindo uma sequência lógica, Adriana subdividiu os registros em seções temáticas como “janelas” “sorrisos”, “trabalhos”, “interiores” e “festividades”. 
Primeira mostra individual da artista em uma galeria, Cariri Venoso Ancestral se inicia como um exercício prático, realizado em 2022, ainda sob as restrições da pandemia e quando Adriana cursou Fotografia no Centro Estadual de Arte (Cearte). Ao término do semestre, veio o exame de conclusão: um ensaio fotográfico com a condição de que os discentes explorassem situações desafiadoras na dinâmica criativa de captura da luz. Para a fotógrafa, sair da zona de conforto sempre envolveu mirar a objetiva para as pessoas e suas circunstâncias.
“Pensei no público do Cariri paraibano. Pra mim foi mais desafiador ainda pelo fato de ser uma parcela da população que não está nas redes, nas mídias digitais, nessa megaexposição que a gente vive”, afirma Adriana. Nascida no município do Congo e criada em Coxixola, o bom era que ela conhecia quase todo mundo da pequena cidade – de acordo com o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1.824 pessoas habitam o município paraibano.
“Muitos carregam essa característica de interior – de participar de procissão, de audição da cultura popular, dos artesãos. Pra mim era mais interessante fotografar esse pessoal”, diz ela. “Tanto as pessoas quanto o cenário. Eu já tinha as fotografias assim pensadas, né? O que eu queria, como eu queria, em que lugar eu queria da casa delas. E aí eu levei muitos ‘nãos’, porque muitos não compreendiam – ‘pra que tu quer essa foto?’. Achavam que tinha cunho político”.

Em uma das tentativas, Adriana abordou uma senhora que já conhecia há muitos anos, certa de que essa proximidade traria bons resultados. “Eu conversei a manhã todinha com ela, e quando eu falei da foto, ela me disse: ‘Ô, minha filha. É porque meu coração tá dizendo pra não fazer’”, lembra a fotógrafa, que mesmo acostumada com o mundo das interações instantâneas compartilha da sensação invasiva causada pelas investidas de alguém desconhecido. A senhorinha chegou a ceder por influência do filho que a acompanhava naquele momento, mas Adriana resolveu não fazer a foto.
A primeira experiência para o trabalho de conclusão de curso foi contemplada por recursos da Lei Paulo Gustavo em âmbito municipal. Concluído o curso, tentou o edital da Paulo Gustavo estadual, aprovou e ampliou o território antes circunscrito à Coxixola, propondo-se a fotografar 15 dos 26 municípios do Cariri paraibano.
A despeito da presença humana nas fotos da mostra, as casas que compõem as paisagens do interior paraibano também foram motivo de captura. Por isso a escolha pelas imagens em preto e branco, que, ao contrastarem luz e sombra em jogo bicromático, ressaltam e adensam os volumes das formas. No caso da mostra, rugas e reentrâncias da pele dos moradores idosos, bem como as diferentes texturas de suas moradias, feitas de tijolo ou taipa, ganham contornos mais expressivos.
Cariri na veia
Mesmo tentando dizer tudo com o título da exposição, Adriana confessa o parco poder de síntese com as palavras. No caso das fotos realizadas em Coxixola, chamou-o de “Rugas, as nossas”. “Era uma coisa muito específica, porque as rugas contam as histórias de qualquer pessoa; as marcas de expressão”, explica ela, que precisou mudar o nome em função das normas burocráticas para a aquisição dos recursos de patrocínio. 
“Aí ficou ‘Cariri venoso’, porque vem das veias. Quando a chega vai envelhecendo, a pele vai ficando mais fina, as veias ficam mais aparentes. E veias também no sentido das raízes; são as pessoas que estão ali, mas quase são do meu sangue, porque as famílias do interior tem essa coisa de ser parente seu de uma geração antiga”, ressalta.
Já a ancestralidade diz respeito à identificação da artista com as comunidades locais. “É como se fosse uma afirmação do que eu sou, sabe? Em qualquer lugar que eu esteja, desenvolvendo qualquer trabalho, eu me reconheço neles”, aduz, lembrando de práticas culturais centenárias como o coco de roda.
Tais manifestações artísticas também estão postas no recorte expográfico, personalizadas em grupos e artistas da cultura popular, como a Banda de Pífanos de Pio X (de Sumé); o coco de roda da comunidade do Riacho do Algodão (do Congo), o músico João de Amélia, gaitista de Monteiro que tocou por muito tempo com Zabé da Loca (1924-2017); e a artesã Maria José Rodrigues, do Quilombo Ligeiro de Baixo, em Serra Branca.
Segundo as contas da fotógrafa, entre períodos chuvosos, prestações de contas e saídas fotográficas, Cariri venoso ancestral levou aproximadamente sete meses para ser produzida. “A gente traz essa ancestralidade tanto nos fazeres, tanto artísticos como artesanais; tentando mostrar isso para o mundo, porque a fotografia também foi uma forma de mostrar que existem essas pessoas fazendo isso, nesse lugar”, declara Adriana.
“Pra se inscrever num edital você nem pensa tanto, não dá tempo de você refletir tanto sobre isso. É toda uma série de questões de mostrar o quanto aquilo é importante, pra que a comunidade reconheça. [...] Mostrar que são idosos, mas são pessoas que estão ainda trabalhando”.
Atentando para o lugar, espaço de pertencimento de identidade onde vivem os retratados, Adriana Araújo teve ainda o cuidado de ressaltar a arquitetura sertaneja. Diante da homogeneização estéril dos padrões da construção civil na atualidade (com uso de cerâmicas e porcelanatos), a ideia é falar em favor da valorização da identidade, mesmo aquela material, untada às paredes e ao chão da terra. “Eu desejo que alguém olhando pra ela [a exposição] chegue a pensar em algumas dessas nuances que eu citei”, anseia.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de abril de 2026.