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Cida Costa marcou o teatro pessoense

publicado: 26/03/2026 09h11, última modificação: 26/03/2026 09h11
Atriz de As velhas e Flor de macambira morreu ontem; amigos recordam seus grandes momentos no palco
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Cida Costa em foto recente e no espetáculo Alamoa, em cena com Lucy Camelo | Fotos: Arquivo pessoal

por Esmejoano Lincol*

Sérias questões de saúde afastaram a atriz Cida Costa, falecida ontem (25), aos 85 anos, do ambiente que a tornou conhecida — o teatro. Mas a sua ausência física nos palcos paraibanos não impediu que ela deixasse uma marca indelével no segmento, graças à sua participação em espetáculos seminais para a nossa dramaturgia — dentre eles, Alamoa e Beijo roubado (direção de Leonardo Nóbrega, junto ao Grupo Tenda) e As velhas (de Duílio Cunha) e Flor de macambira (realização de Christina Streva, por meio do Coletivo Ser Tão Teatro).

Zezita Matos, amiga de longa data de Cida, revela para A União que a conheceu nos anos 1990, na platéia do Theatro Santa Roza, em João Pessoa, assistindo a uma peça. Ela não recorda o que elas viram naquele dia, mas sabe, que, pouco tempo depois, ambas embarcaram, juntas, noutro projeto. “Atuamos no espetáculo Não se incomode pelo carnaval, de Paulo Vieira, dirigido por Ângelo Nunes em 1997. E As velhas, de Lourdes Ramalho, e direção de Duílio Cunha, em 2000. Ficamos oito anos em cartaz”, celebra.

O êxito local dessa adaptação da obra de Lourdes garantiu à equipe capitaneada por Duílio um Prêmio Sesc e a oportunidade de excursionar por outros estados brasileiros. A convivência também aproximou Zezita e Cida: a primeira dava caronas frequentes para a segunda, quando ambas precisavam deslocar-se pela cidade. Zezita acompanhou, ainda, os desafios que a família de Cida teve de enfrentar nos últimos anos, com a descoberta do Alzheimer na atriz. “Ela tem um lugar de destaque no nosso teatro”, resume a artista. 

Foto: Arquivo pessoal

O próprio Duílio Cunha lembra-se da primeira vez que viu Cida, também como espectador — na montagem de Beijo roubado — e de sua estréia no segmento, na década de 1980, com Papa rabo, peça cultuada de Fernando Teixeira. “Cheguei a frequentar a casa dos pais de Cida, assim como ela também frequentou a residência da minha mãe. Tínhamos esse elo, essa relação muito próxima. E mantenho, hoje, as melhores lembranças do mundo, tanto da vida particular, quanto da convivência, no trabalho, nos ensaios...”, aponta.

Depois da experiência de sucesso com As velhas, Duílio dirigiu Cida na comédia 3x4, em cartaz a partir de 2006. O realizador assevera que a paraibana conseguia transitar muito facilmente entre o drama e a comédia, estilos que comumente alternou. “Ela chega a fazer alguns filmes e se despede dos palcos em 2015, numa experiência com o Ser Tão Teatro, fazendo, a princípio, Vereda da salvação, desnuda, literalmente, de todos os preconceitos, com aquela capacidade de ser uma atriz sofisticada no seu gestos”, sinaliza.

Das características de Cida Costa, Duílio Cunha aponta a generosidade como a mais importante, seja para com os colegas artistas, seja com o próprio ofício. O diretor assinala, por fim, que a artista deixa uma lacuna difícil de ser preenchida. “Cida trazia essa face humana, emprestada da própria vida, das relações dela, para as personagens. E, para ela, não tinha personagem menor, ela não pensava o teatro desse jeito. O importante era estar no palco, estabelecer uma comunicação muito direta e muito apaixonada com a platéia”, conclui.  

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de março de 2026.