A partir de uma homenagem declarada ao grupo musical Clube da Esquina, o álbum Todas as esquinas do mundo, lançado pelos compositores Edu Aguiar e Alcides Sodré, articula influências diversas da música brasileira e reafirma vínculos com artistas e tradições, especialmente do Nordeste. A paraibana Vó Mera, por exemplo, participa em uma das faixas do trabalho brilhando com a sua tradicional ciranda.
“Eu, com nove anos de idade, vi Milton Nascimento cantando ‘Travessia’ e fiquei hipnotizado com aquilo”, conta Aguiar. “Depois, quando ouvi o Clube da Esquina, o primeiro [de 1972], eu também fiquei alucinado. Acho que em vinil, eu tenho quase todos os discos de quase todos os mineiros do movimento, aqueles que me permearam mais”.
O tributo, no entanto, não se limita a um único movimento. Em vez disso, Aguiar amplia o escopo para abarcar diferentes vertentes que marcaram sua formação, a exemplo do diálogo com a Tropicália, a vanguarda paulista do Premeditando o Breque e do Grupo Rumo. Bem como a produção nordestina: Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Zé Ramalho e depois Lenine, Lula Queiroga e Alex Madureira.
“Por isso que o título fala ‘todas as esquinas’: estou prestando uma homenagem principalmente ao Clube da Esquina, mas aos demais movimentos dessa brasilidade musical que a gente tem”.
A relação de Edu Aguiar com a música remonta à infância, marcada pela convivência com um ambiente doméstico permeado por audições ecléticas. O pai, descrito como audiófilo, transitava entre gêneros, o que teria influenciado diretamente a escuta do artista. Já na adolescência, surgem as primeiras composições em parceria — algumas das quais reaparecem no disco atual, seja de forma integral ou reelaborada.
“A minha afinidade com o Nordeste como um todo é bastante grande”, afirma o músico. “Em meu segundo disco, Dias de Blumer [2019], fiz uma homenagem ao Baque solto [álbum de estreia de Lenine e Lula Queiroga]. Reuni vários artistas que estavam em Baque solto para participar, de alguma forma, do disco em momentos simultâneos ou separados”. Foi o caso de parcerias com Alex Madureira, Pedro Osmar e Ivan Santos — este último novamente parceiro em Todas as esquinas do mundo.
Já Braulio Tavares e Geraldo Azevedo participaram de Entropia (2019), terceiro disco de Aguiar. Em Todas as esquinas do mundo não foi diferente. “Acalanto”, quinta faixa do trabalho, faz Vó Mera entrar na roda, recomendada por Alex Madureira.
“Ela me chama de netinho carioca”, brinca Edu Aguiar. “E aí tive o prazer de ter Vó Mera exatamente no ano em que ela completou 90 anos de idade. Quando recebi o material gravado, vídeos que pedi para poder registrar as imagens, fiquei muito emocionado de poder ver essa coisa tão legitimamente brasileira, assinando embaixo o meu disco. Para mim foi muito importante”.
Outro músico citado é o percussionista Mingo Araújo, que durante boa parte dos anos 1990 tocou junto com os cantores e compositores norte-americano Paul Simon e Willie Nelson.
“Eu costumo chamá-lo de ‘meu termômetro’, porque quando eu mostro uma música pra ele, que ele gosta, diz: ‘Nossa, Edu, tá lindo!’. E quando não gosta: ‘Nossa Edu, isso aí tá uma boa merda’. Não acato tudo, mas gosto de ouvir a opinião dele”.
Em levadas enrodilhadas pelas cordas do violão e encorpadas pelo tempero percussivo de Mingo, Todas as esquinas do mundo faz convergir por suas arestas melódicas 11 canções de amar, tais como “Sol poesia luar”, “Fica perto de mim”, “A dona da cena” e “Paz e sossego”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 06 de maio de 2026.
