Quem tem a sorte de cruzar com as pinturas do artista plástico Clóvis Dias Júnior sente de pronto o impacto forte de seus personagens. De olhos bem abertos, sorriso contido e expressão serena, falam sem dizer palavra sobre a força da alegria que nos anima a vida. Alguns dirão que o motivo, tal qual o estilo, é ingênuo, ou naïf, diante das brutais injustiças que assolam o mundo, enquanto outros, como o artista, apegar-se-ão à esperança dos melhores dias. É assim em A Alegria da Festa, exposição aberta a partir de amanhã (hoje haverá uma sessão restrita a convidados), contendo 35 obras de Clóvis Júnior na Casa MGA, em Cabo Branco.
Com curadoria de Renata Gadelha, o recorte expográfico reúne trabalhos do acervo particular do artista, além de seis obras pertencentes ao colecionador Ivan Correia. A exposição é aberta ao público, de segunda-feira a sábado, das 14h às 19h, até o dia 19 de fevereiro.
A trajetória artística de Clóvis Júnior, que torna a ocupar um espaço expositivo da capital, é mesmo marcada por referências ao cotidiano, às festas populares e às memórias do interior paraibano, as quais integram um conjunto amplo de obras produzidas ao longo da última década, ora revisitadas sem se restringir a um único recorte temático.
Clóvis explica que sua pintura não se limita a um assunto específico, mas se constrói a partir de referências recorrentes. “Na realidade, a minha arte abrange tudo. Ela abrange a nossa cultura, nossas lendas, nossas crenças, nosso cotidiano. É uma pintura bem dinâmica, do dia a dia. É uma pintura que fala do nosso povo”, diz ele acerca de seu universo polimórfico que contempla desde as comuns pessoas a elementos simbólicos ligados à vivência nordestina.
Fazendo jus ao título, há um número considerável de telas que curvam o pincel para o tema específico da festa. “Entram no São João, no Carnaval, na Semana Santa. Tem toda uma história do nosso dia a dia, porque minha pintura é muito esse registro dos nossos costumes”, atesta. As técnicas empregadas refletem o percurso recente do artista, que atualmente tem se dedicado à pintura sobre tela e pintura sobre cerâmica. Seu processo criativo parte da escolha de um tema e da construção gradual da cena — o trabalho começa pela idealização dos personagens e da composição geral.
“Eu primeiro desenho, imagino o que vai ser feito, idealizo e vou montando o personagem principal da obra. Depois a gente vai eliminando o que vai entrar e o que não vai, como um quebra-cabeça — você vai montando e depois vai vendo o que cabe e o que não cabe na obra, e isso em qualquer tema”, descreve.
A propósito, os personagens ocupam lugar central em sua produção, muito mais do que paisagens ou naturezas-mortas. Quase sempre estão ligados à festa de junho, celebrações católicas e eventos populares, vinculados à experiência de vida do próprio artista. “É o meu mundo, é a minha vivência no interior”, diz.
Chifre de caju
Natural de Guarabira, Clóvis Júnior mudou-se para João Pessoa aos 17 anos — primeiro para estudar, mas acabou fazendo da capital sua morada. Tanto que a memória da cidade de três décadas atrás também aparece como referência recorrente em sua produção. Ele recorda uma capital menos urbanizada, especialmente a região do Bessa, bairro no qual reside há 35 anos e onde viria a fundar um dos mais antigos blocos carnavalescos da capital.
“Quando eu vim morar aqui, a Praia do Bessa era uma fazenda”, afirma. “Foi daí que a gente teve a ideia de criar o Boi do Bessa. Eu e Cassandra [Figueiredo, poetisa e esposa do artista] fizemos esse bloco pra justamente resgatar a memória do bairro, porque aqui era uma terra de muito cajueiro. Ele não nasceu só pra ser mais um bloco de Carnaval, mas com a mensagem de resgatar os cajueiros do Bessa. É tanto que o único boi no mundo com chifre de caju é o da gente”.
Em várias obras, ramos de caju afloram presença natural, enlaçando mulheres, santos e santas, pássaros e criaturas etéreas. O Boi do Bessa também se mostra transfigurado pictoricamente enquanto um personagem das múltiplas cenas de alegria festiva que integram a seleta da mostra.
Quanto à recepção do público frente à primeira exposição do artista, Clóvis afirma que a expectativa não está ligada a interpretações específicas, mas à experiência sensível proporcionada pelo contato com as obras. “Eu quero que levem alegria, levem a paz, a harmonia, que é o que a minha arte transmite”, diz ele.
No ano passado, o artista realizou uma exposição nos Estados Unidos e foi condecorado com a maior honraria pública da cultura brasileira, a Ordem do Mérito Cultural (OMC). O grau de comendador foi entregue a Clóvis pelas mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ministra da Cultura, Margareth Menezes — diante de 11.318 nomes, indicados por pessoas, instituições e coletivos de cultura de todo o país nos variados segmentos artístico-culturais, apenas 112 pessoas foram agraciadas com a OMC, a exemplo de Alaíde Costa, Chico César, Marcelo Rubens Paiva, Walter Salles e Fernanda Torres.
“Tive a honra de ser o primeiro comendador da cultura paraibana. Pra mim foi ímpar essa homenagem e esse legado; só faz a responsabilidade aumentar. Como disse Margareth Menezes: ‘Leve essa medalha, essa comenda para o povo paraibano’. Eu digo que isso não é meu. Como ela mesma falou, é da Paraíba, né? É como se eu tivesse chegado onde queria, de ter o reconhecimento”.
Além da pintura, o artista naïf e autodidata também trabalha com esculturas e gravuras. De acordo com o Dicionário das Artes Visuais na Paraíba (editora Linha D’Água, 2004), de autoria do artista visual Dyógenes Chaves, Clóvis Júnior cursou Educação Artística na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ocasião em que pôde travar contato com a gravura em metal, sobretudo a partir das orientações do professor Hermano José.
Ainda segundo a obra, sua primeira exposição individual se deu em 1983, nas dependências da Biblioteca Central da UFPB. Entre outras obras do artista, expostas tantas vezes no Brasil e no exterior, por países como Argentina e França, as nuances cromáticas do caju pessoense já frutificavam em telas como “São Sebastião” (1990) ou na xilogravura “Guerreiros da floresta” (1987).
Indagado quanto aos próximos trabalhos, o artista adianta que vem refletindo há algum tempo sobre um projeto para uma nova exposição em Pernambuco, prevista para o segundo semestre. A proposta está em fase de pesquisa, mas, mesmo sem recorte definido, é certo que a ideia, naïve ou prospectiva de melhores horizontes, há de sempre pintar a cultura e a arte paraibanas com o colorido primário da alegria.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de janeiro de 2025.