Havia uma foto guardada na memória e em alguma gaveta da casa. No registro, à época com três anos de idade, a menina segurava um rádio gravador colorido dos anos 1980, seu primeiro Gradiente, com o clássico microfone acoplado. Foi passando em revista essa imagem que a cantora e compositora paraibana Luana Flores encontrou o eixo conceitual de seu primeiro álbum, Cria do sol quente, lançado hoje no universo fonográfico digital. Aguçando as lentes para os motivos mais íntimos, o trabalho reúne nove faixas construídas ao longo de três anos e meio de trabalho independente, com algumas das canções já lançadas, porém repaginadas em novas versões.
“Comecei a brincar que esse foi meu primeiro microfone e foi a minha primeira oportunidade na vida de amplificar a minha voz”, conta a artista, que nasceu em João Pessoa mas possui familiares sertanejos. E partiu justo das origens a sugestão para um título que já existia, dito em letra de “Encantarya”, faixa colaborativa entre Luana e Cátia de França que já fora lançada como single em dezembro de 2023. Nele, Cátia entoa: “Sou cria de um sol quente / Minha arma é o repente (sempre) / Queimando no lampião”.
O primeiro álbum solo traduz desdobramento natural à luz da maturidade do EP Nordeste futurista, lançado em 2021, que rendeu à artista circulação em festivais dentro e fora do Brasil. Se no trabalho anterior o olhar se projetava para o futuro, em Cria do sol quente o vetor muda um pouco de direção, apontando para a infância e a temporalidade do hoje. “Eu não sinto como se estivesse me despedindo do Nordeste futurista e chegando com outro trabalho. É uma mixagem, um entrando no outro”, ressalta Luana
“Eu quis trazer de maneira mais forte a questão do tempo presente, porque eu tava falando muito sobre futuro. E aí eu quis trabalhar com a ideia da presença. Tudo o que a gente tem é o agora, e o agora diz muito sobre o passado e sobre o futuro também. O ponto de partida dessa ‘cria’ foi pensar que vem de criatura, de criação, da criatividade e também de criança”.
Geografias sonoras
A produção do álbum atravessou mais de uma paisagem nordestina. Começou a tomar forma na Barra do Mamanguape, no litoral paraibano, onde Luana residiu por quatro anos, alternando entre três comunidades: Praia de Barra do Mamanguape, Lagoa de Praia e Praia de Campina. Depois, a artista se mudou para o Crato, no Sertão do Ceará, onde passou um ano e seguiu compondo.
As últimas etapas foram concluídas em João Pessoa, com passagens ainda por Brasília, em sessões de gravação com Ramiro Galas, produtor piauiense radicado na capital federal e que assina a produção ao lado de Chico Corrêa. “A gente tá junto desde o início. Ele [Chico] foi meu professor também. Produzir com ele é aprender mais sobre esse universo”, revela.
A viabilidade financeira do projeto veio por meio de um edital público da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). “Eu sou uma artista independente e vim fazendo o disco desde 2023 de maneira completamente independente. Foi graças ao projeto aprovado que eu consegui finalizar e lançar esse disco”, ressalta Luana.
Faixas do presente
O álbum já apresentou ao público algumas de suas músicas de forma isolada. “Encantarya” (com Cátia de França) ganha remix de Chico Corrêa no disco. Já “Siga a cygana” conta com feat de Luul, duo de crias da Barra do Mamanguape.
Terceira faixa, a latina “Guerreira de lança” foi o primeiro single da carreira solo de Luana, desta vez inteiramente repaginada em parceria com Ramiro Galas. No álbum, a canção de reggaeton agrega a voz da artista argentina Chocolate Remix, conexão viabilizada pelo projeto Latine-se, que articula intercâmbios culturais entre artífices da América Latina. “É a minha segunda faixa internacional”, diz Flores, que já havia iniciado parceria estrangeira com “Bote quente”, single lançado com o artista francês Thx4crying.
“Coragem na fé”, que sincroniza o batuque swingado do pandeiro aos beats de Galas, e “Alumeia”, em colab engajado com a potiguar Juliana Linhares, chegam sem alterações ao álbum – os singles foram lançados, respectivamente, em maio de 2026 e novembro de 2024. As demais são inéditas ou passaram por reelaboração completa.
Uma das composições mais singulares do álbum é “Luzia Tereza”, homenagem a uma contadora de histórias de Guarabira. “Nessa faixa eu tive acesso a gravações das histórias de Luzia, em fita rolo de 1982, através do Nuppo [Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular, mantido pela Universidade Federal da Paraíba]”, comenta.
Repetindo a parceria com Jéssica Caitano em “Reza” (single de 2020), “Ladainha do Mato” inclui, além de Jéssica, a rabequeira potiguar Tiquinha Rodrigues, enquanto “Quintal de Mariinha” foi composta a partir do cotidiano no Vale do Mamanguape. Por último, “Pifarada” conta com a participação especial da professora e atriz Ni de Souza, mestra de reisado do Cariri Cearense, presença que fecha o ciclo afetivo do período vivido no Crato.
Lançamento e horizonte
O show de lançamento do álbum está marcado para o dia 10 de julho, no Sesc Bom Retiro, em São Paulo. Luana articula ainda apresentações em João Pessoa e pelos interiores da Paraíba, compromisso que é marcante em toda a sua trajetória, quer seja o de que o trabalho consiga reverberar às comunidades e territórios que o gestaram.
“Sinto que é um momento de carreira de mais maturidade. Eu espero que ele [o álbum] alcance muitas pessoas, muitos corações e que possa trazer alegria e movimentos de leveza para o planeta. E que com esse trabalho eu possa alcançar ainda mais públicos, tocar em bons lugares”, almeja Luana. Ao lado dos palcos, a artista sinaliza expansão para além da música: projetos ligados às brincadeiras populares, à performance e à salvaguarda ambiental e cultural integram o horizonte que vislumbra para este novo ciclo.
Quanto às apresentações, Luana segue sozinha no palco, isso se deixarmos de considerar, além da parafernália eletrônica, os bonecos da cultura popular que lhe acompanham a todo lugar que vai. Ao mesmo tempo experimenta novos instrumentos e outros equipamentos eletrônicos – um deles é a rabeca, para a qual iniciou aulas recentemente. Típico da criança criativa que primeiro amplificou a voz com seu pequeno Gradiente.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 02 de junho de 2026.

