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Jornalismo, mulheres e escritores

publicado: 31/03/2026 09h47, última modificação: 31/03/2026 09h47
Os livros Memórias A União – Volume 2 e Paraíba na Literatura VII e a revista Vivências Femininas serão lançados hoje, no Espaço Cultural
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Capas das edições que serão lançadas hoje e abordam figuras de destaque em diversos segmentos | Imagens: Divulgação/Editora A União

por Esmejoano Lincol*

Projetos que tratam de temas e de sujeitos diferentes, mas que culminam em dois pontos em comum: a antologia Paraíba na Literatura VII, o livro Memórias A União – Volume 2 e a revista Vivências Femininas difundem o legado de pessoas importantes para a nossa cultura e ampliam o catálogo da Editora A União. O primeiro cristaliza junto ao leitor o perfil de literatos relevantes a nível local e nacional; o segundo resgata fatos importantes na constituição de um dos veículos oficiais mais antigos em circulação; e a terceira homenageia mulheres que cooperam com o desenvolvimento do estado. As três empreitadas chegam a público hoje, num lançamento a partir das 19h, na Livraria A União, situada no Espaço Cultural, em João Pessoa (bairro de Tambauzinho). A entrada é franca. 

O sétimo volume de Paraíba na Literatura dá continuidade à série iniciada em 2022, que encapsula a trajetória de mais 20 poetas e prosadores nascidos ou radicados no estado. Nesta edição, há textos sobre: Amneres Santiago, Arturo Gouveia, Átila Almeida, Celso Japiassu, Chico Pedrosa, Cyelle Carmem, Edônio Alves, Ezilda Barreto Milanês, Inácio da Catingueira, José Cavalcanti, José Jackson Carneiro de Carvalho, José Leite Guerra, Paulo Sérgio Vieira, Permínio Asfora, Raul Machado, Regina Lyra, Ricardo Anísio, Ronaldo Monte, Veruschka Guerra e Zila Mamede. O livro, diagramado em capa dura, conta com uma luva; tanto a capa quanto o invólucro são estampados com um azulejo que alude a nossa arquitetura.  

Cyelle Carmem, por exemplo, foi perfilada pela jornalista e escritora Renata Escarião: esta assinalou o fato de a colega ter alcançado sua primeira publicação aos 32 anos, analisando que, ao postergar esse evento, ela conseguiu angariar uma maturidade transparente nos textos, utilizando, em adição, o cotidiano e o seu estado de espírito como fontes de inspiração. “Isso porque a autenticidade, a sinceridade de quem se escancara nas páginas, seja de poesia, crônicas ou romance, é evidente na obra de Cyelle, que descreve sensações sentimentos de maneira visceral, [..] questões que nem todos os mortais teriam coragem de expor. É como se a escritora aceitasse, sem ressalvas, o chamado das palavras”, sinalizou Renata.

Ao mesmo tempo, o poeta e docente Edônio Alves ganha ensaio do escritor Expedito Ferraz Júnior: em sua análise, este passeou pelos detalhes da forma e do conteúdo do companheiro de escrita, estando, ambas as instâncias, segundo ele, conectadas com a tradição clássica, mantendo laços com a produção contemporânea paraibana, que incidem em seus versos. “Não é difícil aferir-lhe esse traço, bastando, para tanto, percorrermos alguns dos títulos de poemas reunidos em seus dois primeiros livros. Neles, as remissões à estética e ao imaginário greco-latinos se reiteram enfaticamente, seja no aproveitamento de temas, na atualização dos mitos, ou em citações e referências lingüísticas”, declarou Expedito.

Tradição no jornalismo

Memórias A União – Volume 2 transcreve entrevistas que colaboradores aposentados ou em atividade concederam ao jornalista Luís Carlos Sousa no programa homônimo, exibido em perfil oficial no YouTube, e reproduzidas na edição dominical do jornal. Foram ouvidos: Guilherme Cabral, Naudimilson Ricarte, Marconi Antônio de Araújo, Fred Svendsen, Albiege Lea Fernandes, Anette Leal, Luiz Werter, Deijaci Araújo, Hilton Gouvêa, Chico Ferreira, Ivan Trevas, José de Sousa, Antônio Gonçalves de Sá (o Tônio), Carmélio Reynaldo, Marcondes Brito, José Nunes, Lúcio Flávio, José Pinheiro, Walter Santos, Lenine Félix, Raul Córdula, José da Penha, Ilka Soares, Silvana Sorrentino, Teresa Duarte e Naná Garcez.

Tônio, que no fim do ano passado completou 50 anos de serviços prestados ao jornal e à editora A União, trouxe a público as dificuldades que tinha no início de sua carreira como ilustrador, sem o apoio do computador: todo esse processo era manual e tinha de ser calculado com precisão para que não houvesse falhas no texto presente nem no próximo. “Até para paginar o livro, a gente pegava a matéria completa, de dois metros, saía recortando, manualmente, colava e colocava o ‘numerozinho’, página por página. Era um trabalho ‘arretado’. E tinha que saber. Às vezes, umas páginas ficavam cortando a continuação da história. Não podia terminar em duas letras do outro lado. Duas linhas, ficava feio” explicou.

Já Teresa Duarte, chefe de reportagem de A União, lembrou sua proximidade e a de sua família com jornalismo (a partir do pai, Waldemar Duarte), e  indicou, ainda, como sua trajetória pregressa como repórter a tornou setorista do caderno de Turismo; ela mantém, até hoje, a coluna “Paraíba – Todos os cantos”, veiculada às sextas-feiras no jornal e na Rádio Tabajara. “Não recebia pauta: tinha que ter ideia, transcrever tudo. Fiquei bastante tempo fazendo entrevistas. E foi por causa dessas entrevistas que eu comecei a viajar muito pelo interior da Paraíba. Aproveitava as viagens, montava um banco de informações e fotos. Foi aí que comecei a despertar para o turismo e a produzir matérias especiais”, informou.

Histórias para contar

Por fim, Vivências Femininas, em sua terceira edição, reúne reportagens com mulheres cujo mérito não reverbera apenas em seu próprio segmento, mas em outras áreas. Ainda assim elas foram divididas por tema. Das ciências e educação, por exemplo, Francilene Procópio Garcia, Margareth Diniz, Maria de Fátima Agra, Margareth Diniz e Maria José de Lima da Silva; das executivas do setor privado, Andréia Barros, Erika Marques de Almeida Lima Cavalcanti, Manuelina Hardman, e Roseli Garcia; das gestoras do setor público, Marcela Tárcia, Marielza Rodriguez e Rosália Lucas; dos esportes, Luciana Rabay, Lucilene Meireles e Silvana Fernandes; e das artesVó Mera, Marlene Almeida, Lucy Alves e Eneida Agra.

O repórter Daniel Abath remontou o ofício da artista visual Marlene Almeida, em atividade há mais de 40 anos e que utiliza em suas telas, desde então, pigmentos naturais, coletados na natureza pela própria autora. No bate-papo que teve com Abath, ela revelou que sua gênese no segmento não aconteceu na prática, mas sim na pesquisa, em bibliotecas. “Me entusiasmei com a história de Cézanne – ele pintou dezenas de vezes a mesma montanha”, contou Marlene. “Eu era menina ainda e aquilo se transformou numa coisa romântica, linda, especial. E foi nascendo essa vontade minha de ser também uma pessoa que tinha uma caixinha com tinta, ia para a natureza e podia pintar uma montanha”, atestou.

Enquanto isso, o editor do caderno de Cultura de A União, Renato Felix, conversou com a cantora, instrumentista e atriz Lucy Alves. Na ocasião, ela comentou como a sua ascensão pessoal, desde que atuava no grupo no Clã Brasil, passando por sua participação no programa The voice, da TV Globo, foi relevante não apenas para ela própria, mas para outras mulheres. “Eu falo porque várias já me falaram que eu fui uma grande referência e isso é massa. Eu acho que a gente, quando pode abrir porta, influenciar, quando a gente pode ser uma referência, é muito forte. Quando a gente vê uma imagem assim, a gente fala: ‘Cara, é possível’. Eu fico feliz pela minha carreira, mas também por poder ser um exemplo”, ratificou.

Naná Garcez, diretora-presidente da EPC, celebra, justamente, a diversidade de pautas de seu projeto, que coadunam na salvaguarda da história política e cultural do estado. “No caso do Paraíba na Literatura, também é um jeito de recuperar a memória dos literatos que já partiram, que fizeram sucesso e foram representativos numa ação de meio cultural, além dos que ainda estão conosco. No Memórias A União, Luís Carlos Sousa fez um trabalho excelente. Contar a história deste veículo é contar, também, a história da nossa sociedade. Por fim, o Vivências Femininas é uma forma de realçarmos a participação da mulher na sociedade de modo geral. Pessoas novas, maduras, todas com boas histórias para contar”, conclui. 

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 31 de março de 2026.