Para a fotógrafa francesa Romane Iskaria, a Jurema tanto se mostra como uma planta sagrada quanto como uma crença de caráter animista. “Isso significa que, para as pessoas da Jurema Sagrada, existem espíritos presentes na natureza ao redor delas. Esses espíritos são chamados de encantados”, diz ela. Atenta aos lugares animados pela cultura popular, Romane inaugura venissagem de sua exposição individual Atlas sensível: topografia de um território vivo, amanhã, às 16h, na Estação Cabo Branco, em João Pessoa. A mostra estará disponível para visitação pública até 20 de junho (das terças às sextas-feiras, das 9h às 18h; sábados e domingos, das 10h às 18h).
Trazendo o culto à Jurema Sagrada para o centro da sala, o recorte expográfico abrange um filme documental de 45 minutos, em instalação evocativa das televisões públicas de praças brasileiras dos anos 1980, além de mais de 50 fotografias impressas experimentalmente sobre papel de algodão. Quem assina a curadoria e cenografia é o artista Serge Huot.
Iskaria deu início ao projeto sobre a presença sagrada da árvore típica do Nordeste brasileiro porque sentiu a falta de imagens em relação à sua pesquisa. “Meu trabalho tem uma abordagem documental e frequentemente se volta para comunidades invisibilizadas”, ela afirma. “Já desenvolvi outros projetos de longa duração nesse sentido”.
Um deles retratou comunidade assíria, do Oriente Médio – a fotógrafa possui origens iranianas por parte do avô e de seu bisavô, que chegou a fugir do Irã com destino a Marselha, na França. “Então, carrego em mim essa história de exílio, que me levou a desenvolver projetos em diferentes partes do mundo”.
No Brasil, em específico na Paraíba, a ligação familiar data de 15 anos. “Sempre fotografei essa região, as pessoas, os territórios, os rituais e os costumes”, comenta Romane, que chegou à Jurema Sagrada por meio de uma pesquisa aprofundada ao longo do tempo.
“Para mim, esse projeto busca dar visibilidade às pessoas dessa crença afro-brasileira e aos encantados. Essas pessoas sofreram e ainda sofrem, muitas vezes em silêncio, uma forma de apagamento, como se suas crenças fossem algo negativo. Foi por isso que quis direcionar meu olhar para elas, porque vejo na Jurema, nos encantados e nas tradições afro-brasileiras uma riqueza de memórias, rituais e saberes que são fundamentais valorizar e trazer à luz”, ressalta.
Romane Iskaria teve seus trabalhos exibidos por toda a Europa, além de Estados Unidos, Brasil e Oriente Médio. Para ela, Atlas sensível funciona como uma espécie de vitrine de sua identidade artística, a qual não se circunscreve apenas à seara da fotografia. “Gosto muito de criar instalações imersivas, que permitem ao público viver uma experiência mais completa, que vai além de simplesmente olhar uma imagem emoldurada na parede”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de abril de 2026.