Três mulheres adultas, unidas por uma infância compartilhada em lares adotivos, revisitam memórias fragmentadas para reconstruir uma história envolta por silêncios e versões conflitantes. Eis o ponto de partida de Minhas meninas: Alguns lares guardam mistérios perturbadores (VR Editora, 352 páginas), romance da escritora australiana Sally Hepworth publicado em português em julho de 2025 que alterna pontos de vista para revelar, gradualmente, os acontecimentos que marcaram a vida de Jessica, Norah e Alicia.
Em conversa com A União, a autora best-seller do The New York Times explica que, desde o início do projeto, imaginou três meninas que cresceram juntas sem laços de sangue, mas conectadas por uma experiência comum.
A estrutura narrativa do livro foi construída a partir das próprias personagens – cada uma delas possui uma voz distinta, o que orientou a divisão dos episódios narrados. Jessica, a mais velha, é apresentada como alguém que busca manter controle sobre a própria vida; Norah surge como a personagem impulsiva, responsável por momentos de humor; já Alicia, assistente social, observa os acontecimentos a partir da perspectiva de quem conhece o funcionamento do sistema de adoção.
A diferenciação de perfis também ajudou a definir o modo como a história seria contada. “Uma vez que eu tinha desenvolvido cada personagem e definido sua voz narrativa única, foi fácil narrar suas histórias individuais e entrelaçar as informações para criar a grande revelação no final”, afirma a escritora.
O romance trabalha intensamente as lacunas de memória e lembranças incompletas, recurso que mantém parte da verdade oculta inclusive para quem está narrando. Para a autora, esse procedimento faz parte do processo criativo e exige organização constante durante a escrita.
“Para mim, é isso que torna o livro tão divertido de escrever. Embora possa ser desafiador lembrar até mesmo do que já escrevi, quanto mais do que os personagens estão revelando! Mantenho anotações detalhadas dos pontos da trama”, explica. Segundo ela, leitores de confiança também participam da revisão do material, ajudando a identificar trechos complexos e a verificar se a progressão da história permanece clara.
Conhecida por escrever thrillers domésticos com forte componente psicológico – a exemplo de A boa irmã (Editorial Presença, 2023, 296 páginas) –, a autora afirma que Minhas meninas não representou uma mudança radical em relação a seus trabalhos anteriores. A principal diferença se deu no processo de pesquisa: para compor o universo do livro, Hepworth conversou com dezenas de mulheres que passaram a infância em lares adotivos e ouviu delas relatos que incluíam experiências difíceis e também histórias de afeto construídas dentro dessas famílias.
“Ouvi algumas histórias terríveis, mas também algumas belas, e por isso estava consciente de não querer representar o sistema de acolhimento familiar como algo maligno ou um sistema inerentemente falho”, relata. “Muitas vezes a justiça não é feita quando deveria, mas, ao mesmo tempo, laços incríveis são formados com os irmãos adotivos, como no caso das minhas três personagens. Sem essas conversas, eu não teria conseguido compreender os sentimentos de perplexidade, deslocamento e impotência que resultam de ser tirado de casa e colocado com estranhos quando se é uma criança jovem e traumatizada”.
Uma das figuras centrais da narrativa é a Srta. Fairchild, mãe adotiva das três meninas. A personagem é apresentada como uma presença ambígua, que se relaciona de maneira distinta com cada uma das jovens. A autora afirma que buscou explorar a psicologia da maternidade em um contexto marcado por conflitos pessoais e dificuldades emocionais. Para desenvolvê-la, recorreu a leituras sobre transtorno de personalidade narcisista e estudos sobre comportamentos familiares em ambientes de tensão, a fim de compreender como uma mesma figura parental pode ser percebida de formas diferentes por crianças que compartilham o mesmo espaço.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de março de 2026.
