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Morre Orlando Senna, codiretor de Iracema

publicado: 11/06/2026 09h16, última modificação: 11/06/2026 09h16
Cineasta foi também secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura
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Orlando Senna teve seu Iracema: uma transa amazônica censurado | Foto: Divulgação/MinC

por Redação*

Sete anos separam a filmagem e o lançamento de Iracema – Uma transa amazônica: visto com desconfiança pelo regime militar vigente no país, o filme estreou apenas em 1981 mesclando ficção e documentário e retratando um Brasil invisível, que a ditadura insistia em empurrar para debaixo do tapete. A empreitada dos diretores Orlando Senna e Jorge Bodanzky tornou-se um dos registros audiovisuais mais importantes do século 20 e impulsionou a carreira do primeiro, morto anteontem (09), aos 86 anos. Para além do trabalho nos sets, Orlando ampliou sua atuação artística e política na formação de novos cineastas e na gestão pública.

Nascido na Bahia, o jovem diretor engajou-se no movimento do Cinema Novo, por meio de sua proximidade com um dos “cabeças” do coletivo: Glauber Rocha. Em entrevista para a revista Rebeca há dois anos, Orlando rememorou as primeiras experiências como realizador – os curtas-metragens Festa e Imagem da terra e do povo; um terceiro, que registrava peça do Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes (CPC-UNE), acabou tendo sua única cópia destruída, na sua frente, por um militar, em 1964. “Não sou criminoso, é o senhor que está quebrando obras de arte”, teria dito, ousadamente.

Depois do autoexílio no Chile, em razão da perseguição política, Orlando regressou ao Brasil. Por ocasião das colaborações prévias de Jorge Bodanzky com uma produtora alemã, ambos conceberam o projeto de Iracema. A trama acompanhava a trajetória da personagem título (primeiro papel de Edna de Cássia), que trabalha como prostituta em Belém (PA), e o seu encontro com o caminhoneiro Tião (Paulo César Pereio). “Foi uma coisa explosiva, recebeu não sei quantos prêmios [incluindo um troféu em Cannes]. Enquanto não podia ser exibido, se fazia uma enorme rede [de projeções “pirata”]”, comentou o diretor para a Rebeca.

A maior parte de sua obra permaneceu circunscrita à década de 1970 (após um longo hiato, ele voltaria a lançar novos filmes apenas em 2018). Desta leva, destacam-se: Gitirana (1975), nova parceria com Bodanzky, mas rodado na região Nordeste; e Diamante bruto (1978), roteiro ficcional inspirado na obra Bugrinha, do escritor Afrânio Peixoto – este foi o primeiro longa de Orlando a ser liberado pela Censura. Nesta mesma década, o baiano conheceu sua esposa, a atriz Conceição Senna. A relação deles foi retratada, décadas depois, no documentário O amor dentro da câmera, assinado por Jamille Fortunato e Lara Beck Belov.

Nos anos 1990, Orlando Senna aproximou-se da cena cultural de Cuba e ajudou a fundar a Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICTV), na cidade de San Antonio de Los Baños, com a ajuda do escritor Gabriel García Márquez. No retorno ao Brasil, no começo da década seguinte, foi nomeado secretário do audiovisual do Ministério da Cultura (MinC), durante o primeiro governo Lula; anos depois, tornou-se diretor-geral da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), engajando-se na implantação da TV Brasil, em sua configuração atual. Seu último trabalho como realizador foi a ficção Longe do paraíso, que chegou a público em 2020.   

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de junho de 2026.