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Muito além dos versos

publicado: 06/04/2026 09h40, última modificação: 06/04/2026 09h40
Raimundo Santa Helena, cordelista paraibano, completaria 100 anos amanhã: ele quis enfrentar Lampião e ajudou a criar a Feira de São Cristóvão
Raimundo e sua esposa Yara - Arquivo pessoal.jpg

O poeta viveu seus últimos dias em Pernambuco | Foto: Arquivo pessoal

por Esmejoano Lincol*

Durante parte de sua vida, o poeta popular Raimundo Luiz do Nascimento viveu em municípios do Ceará e do Rio de Janeiro, mas nunca abandonou suas raízes paraibanas. Tanto que em seu apelido artístico — Raimundo Santa Helena — está assinalado o nome de sua cidade, situada no Sertão do estado. O centenário de seu nascimento, celebrado amanhã, evidencia o seu legado como cordelista (talento materializado em mais de 300 folhetos) e ativista cultural, assinalando, ainda, um de um suas maiores heranças: a Feira de São Cristóvão, tradição fluminense criada em 1945, idealizada ao lado de outros conterrâneos. 

Os primeiros anos da vida de Santa Helena, contados pelo próprio em algumas de suas obras, tem lances dramáticos. No início do século 20, seu pai, que também se chamava Raimundo, foi o fundador do distrito de Canto do Feijão, região quase na divisa com o Ceará, que viria a se tornar, em 1961, o município de Santa Helena. O pioneiro teria sido morto durante a invasão de Lampião à cidade: o cangaceiro viu que aquele homem “com a espada na mão, era intocável”, conforme indicou no relato. Sua mãe, Rosinha, defendeu ele e seus dois irmãos com um ferro de passar roupa, escondendo o poeta recém-nascido numa moita.

Sem o patriarca e sem os bens da família — roubados por um fazendeiro vizinho que arrematou mas não pagou lotes de terra de Raimundo —, Rosinha e sua prole peregrinaram por várias cidades nordestinas em busca de melhores condições de vida, encontrando, ao invés disso, mais desafios. 

Raimundo Santa Helena publicou mais de 300 folhetos de cordel | Imagem: Tônio

“Ao meio-dia de 31-12-1937, sem tostão, num velho trem de madeira, fugi de casa para matar Lampião. Mas tive de trabalhar duramente no Ceará, para sobreviver e sustentar minha mãe”. Da labuta como empregado doméstico à lida no mar: começou, então, a acalentar o sonho de ingressar na Marinha, por meio da Escola de Aprendizes do Ceará.

A Segunda Grande Guerra, em vias de acabar, mas ainda em voga, não foi suficiente para capturar toda a atenção do paraibano: a poesia popular, absorvida por meio da observação e da leitura de outros cantadores nordestinos, o tomou de assalto. Ele exercitava seus versos autorais na idas e vindas em alto mar, durante o teste prático da Marinha — nesse processo, chegou a ter a prisão decretada por um oficial, revoltado ao ver que Santa Helena havia escondido um poema, escrito em papel higiênico, no meio de um sanduíche. Outro superior o libertou com uma boa notícia — havia sido aprovado em primeiro lugar no curso para marinheiro.

Mas a poesia venceu: em 1945, ao desembarcar, condecorado, no Rio de Janeiro, decidiu fixar morada, formar família e dar vazão ao talento como autor. Em território fluminense, ao lado do mestre Azulão e de outros nordestinos que migraram para o Sudeste em busca de postos de trabalho e espaços para divulgar sua arte, fundou a Feira de São Cristóvão (hoje o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas). “Era tudo no chão, na esteira, para vender jerimum, redes, cachaça. O pessoal vinha atraído pela propaganda de rádio, chegava atrás de emprego e não achava nada”, disse Santa Helena em entrevista para O Globo em 2011.

Igual tatu

Em seus folhetos, Raimundo Santa Helena compartilhava não apenas suas duras vivências no Sertão e na Marinha: ele aproveitava o ensejo para divulgar, ainda, suas visões sociopolíticas. Um de seus textos mais populares é a Cartilha do povo, datado de 1982. Às vésperas da redemocratização brasileira, o cordelista tratava, nesse livreto, de temas que seguem orbitando o cenário nacional, como o imperialismo dos EUA e a escala de trabalho vigente: “Do progresso brasileiro / O povão não usufrui / Embora com seu suor / É o que mais contribui / Mas num regímen que suga / O honesto que madruga / Nada que preste possui”.

Em Guerra de Canudos, que veio a público um ano antes, ele abordou a disputa desigual entre as forças policiais e aqueles que resistiram, sob o comando de Antônio Conselheiro: “No Nordeste brasileiro / Que explodiu em Canudos / Na combustão da miséria / Nos corpos semidesnudos / Quando balas de canhão / Trituravam no sertão / Esqueletos cabeludos”. Em 2001, parte de sua obra foi reunida na antologia Cordel: Raimundo Santa Helena, organizada pela editora Hedra, com texto de apresentação de Braulio Tavares. “Eu não sei caro leitor / A tua opinião / Mas eu não faço pesquisa / Sou poeta do sertão”, assinalou na contracapa.

Quando faleceu em 2018, aos 92 anos, vivia no estado de Pernambuco com a esposa, Yara, e seu acervo. Partiram com apenas dois meses de diferença — ela primeiro, ele depois. “Embora vivendo distante geograficamente, jamais deixei de estar presente, já que eles nunca quiseram mudar-se para junto de mim. E olha que implorei e até montei um apartamento para eles. Respeitei a decisão, mas nunca os abandonei”, contou a filha Ynah de Souza Nascimento, num relato pessoal em seu blog, na internet. Em 2019, o acervo material de sua biblioteca — inclusive os seus folhetos — foram doados à Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

Duas décadas antes de sua morte, o Raimundo que quis desafiar Lampião, mas foi impedido pela fome, tornou-se personagem principal do documentário De repente Santa Helena, dirigido por Isabel Ramalho; o filme está disponível no site Porta Curtas. “Vocês entrevistam o cordelista, o poeta, o escritor. Mas, no final, eu termino sendo um nordestino, que, como eu disse antes, é igual a tatu: se cavar um buraco aqui, a gente rasga o chão e sai ali”, brincou, em depoimento.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 05 de abril de 2026.