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Musical conta a história de Djavan

publicado: 21/05/2026 09h10, última modificação: 21/05/2026 09h10
Espetáculo tem apresentação única hoje, no Pedra do Reino, e aborda da infância do cantor à consagração
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O ator mineiro Raphael Elias interpreta Djavan no palco | Foto: André Wanderley/Divulgação

por Esmejoano Lincol*

Numa conversa com o músico e pesquisador Charles Gavin, o alagoano Djavan mostrou-se ressabiado com as críticas que taxavam suas obras como “incompreensíveis”. “Açaí”, exemplo anedótico desse  “ruído” , estaria, segundo o seu autor, dotada de sentidos totalmente reconhecíveis pelos ouvintes. O espetáculo Djavan, o musical: vidas pra contar, amplia o contato do público paraibano com tais imagens e traz detalhes cruciais da trajetória do artista. A sessão, única, acontece hoje, às 20h, no Teatro Pedra do Reino, situado no Centro de Convenções de João Pessoa (Polo Turístico Cabo Branco). Os ingressos, à venda no site Sympla, custam de R$ 25 (meia para a plateia popular) a R$ 250 (inteira para a plateia A).

O projeto, com direção de João Fonseca, foi realizado por Gustavo Nunes, por meio da produtora Turbilhão de Ideias — estes conceberam outros espetáculos com grandes nomes da MPB, a exemplo de Cássia Eller: o musical. Sobre a escolha de Djavan, o realizador aponta que o seu repertório é um diferencial, mas não é o único fator.

“Ele reúne sofisticação musical, popularidade e uma assinatura artística absolutamente única. Nunca seguiu fórmulas, nunca se encaixou em padrões óbvios, mas construiu uma linguagem própria. As canções não são apenas sucessos; carregam memórias, imagens, sentimentos e narrativas”, explica.

Vidas pra contar parte da infância de Djavan e deságua na sua consolidação como autor e intérprete. O mineiro Raphael Elias dá vida ao protagonista. A pesquisa, aponta Nunes, baseou-se em entrevistas com o próprio biografado, complementadas por João Viana, filho de Djavan e diretor musical da peça.

“Ainda tivemos contato com pessoas próximas a ele, contando com um ambiente de respeito e diálogo. Isso foi importante para que o espetáculo tivesse verdade e sensibilidade, sem perder a liberdade criativa necessária ao teatro. E, assim, encontrar equilíbrio entre o homem, o artista e a sua poesia”, informa.

Para Nunes, a força de Vidas pra contar repousa na articulação entre os hits e as histórias narradas — algumas das faixas são “Flor de lis”, um de seus primeiros êxitos autorais, datado de 1976, e “Meu bem querer”, que chegou a público em 1980. Mas nem só de sucessos vive esse espetáculo.

“Tivemos muito cuidado em incluir as menos óbvias [uma delas, “Álibi”, registrada por Maria Bethânia], porque elas ajudam a construir a dramatur personalidade artística dele. Em muitos momentos, essas canções menos conhecidas acabam surpreendendo profundamente o público”, assevera.

Raphael Elias recorda que soube dos testes para o elenco de Vidas pra contar, mas que teve receio de se inscrever. Um amigo encaminhou para a produção um vídeo seu cantando “Outono”, composta por Djavan em 1992. Logo, ele foi chamado para uma avaliação presencial que, mais tarde, resultou na aprovação.

“Para a Globo News, Djavan disse que gostou muito do meu trabalho e que teve até um estranhamento em momentos que me achou muito parecido. Completou dizendo que estou cantando e tocando bem e que sou um bom ator. Isso para mim foi a melhor coisa que poderia ter chegado de retorno”, assevera.

Somando 12 anos de carreira no teatro, Raphael esteve, antes, em outros segmentos nesse meio, como cenografia e figurino: “Como ator fiz minha estreia profissional em 2022, com o meu grupo de teatro, o Complexo Negra Palavra. No teatro musical esse é o meu primeiro papel, um desafio gostoso que tem me feito muito feliz”.

O ator não teve contato direto com Djavan durante sua preparação para a estreia. “Mas o escutei obsessivamente durante todo esse processo para entender os silêncios, os ritmos internos, o jeito como ele organiza pensamento e emoção dentro da música do seu jeito de falar e a sua timidez”, afirma.

Para Raphael, a permanência de Djavan nos ouvidos de tantas gerações se dá pelo fato de ele não estar atrelado a um estilo musical, mas de, em vez disso, articular muitos deles, como o jazz, o samba e o ritmos do continente africano, mistura que alicerça sua identidade. “O ‘segredo’, na minha opinião, é que ele nunca tentou caber em tendências. Quando um artista cria um universo verdadeiro, ele se torna permanente. Além disso, existe uma dimensão poética nas canções dele que continua oferecendo novas leituras, conforme a gente amadurece. A música dele acompanha a vida das pessoas”, conclui. 

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 21 de maio de 2026.