Há algo de profundamente incômodo e ao mesmo tempo irresistivelmente cômico na literatura de Lourenço Mutarelli. Nascido em São Paulo, em 1964, o autor construiu, ao longo das últimas três décadas, uma obra que transita com desenvoltura entre os quadrinhos, o teatro, o cinema e o romance — e que tem como marca registrada um olhar oblíquo sobre o fracasso, a decadência e as pequenas e grandes humilhações do existir. Agora, com o lançamento de seu décimo romance, Masuaki e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos (Companhia das Letras), Mutarelli leva essa empreitada a um novo patamar de complexidade e ousadia.
Antes de chegar a esse novo título, Mutarelli já havia demonstrado uma rara capacidade de transitar entre linguagens e tonalidades. Nos anos 1990, publicou quadrinhos como Transubstanciação (1991) e a celebrada trilogia do detetive Diomedes — O dobro de cinco, O rei do ponto e A soma de tudo I e II —, nos quais o gênero policial servia de pretexto para explorar os subterrâneos de uma São Paulo noturna e degradada. Suas peças de teatro, reunidas em O teatro de sombras (2007), revelam um autor interessado na economia minimalista do gesto e na potência do vazio.
Foi, porém, com seus romances que Mutarelli alcançou maior projeção nacional. O cheiro do ralo (2002), adaptado para o cinema em 2007, já trazia aquele tom seco, cortante, entre o cômico e o asqueroso, que se tornaria sua marca. Seguiram-se O natimorto (2004, cinema em 2008), A arte de produzir efeito sem causa (2008, cinema em 2014), O grifo de Abdera (2015) e O livro dos mortos (2022). Cada um desses títulos aprofundava uma obsessão recorrente na obra mutarelliana: a investigação dos abismos interiores de personagens à beira do colapso, narrada com uma precisão cirúrgica que não raro beira o insuportável, mas que nunca perde o senso de humor, ainda que um humor noir, seco, quase desértico.
Masuaki e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos começa com uma cena enganosamente simples. O protagonista chamado Masuaki, como reza o título, está acomodado no sofá, com um volume de Little Nemo no colo, a clássica história em quadrinhos de Winsor McCay, conhecida por seus cenários oníricos e arquiteturas impossíveis. A escolha da leitura não é casual: assim como os sonhos de Nemo, o romance de Mutarelli mergulha num território onde o real e o alucinatório confunde-se sem aviso prévio.
Masuaki conversa com Alice, que está na cozinha. Ele conta uma história de infância: uma festa, um amiguinho que precisa ir embora antes do bolo e a pergunta ingênua que lhe faz — “Você não está triste de ter que ir embora no melhor da festa?” —, seguida pela resposta devastadora do amigo: “Eu nem fui convidado”. Alice ri da cozinha, “como se fosse uma piada”. E nesse breve diálogo, que ocupa menos de meia página, já está contida quase toda a poética de Mutarelli: a lembrança que vem à tona sem aviso, a dor recalcada disfarçada de anedota, o riso que não sabe bem ao certo do que está rindo.
A cena prossegue. Masuaki e Alice comem juntos. Conversam. Preparam-se para dormir cedo, pois no dia seguinte há uma gravação importante: a banda Os Pilintra vai registrar “Vinham dois caras andando numa estrada” num estúdio profissional. Masuaki está calmo, “até mesmo feliz”. É então que seu celular toca. Número desconhecido. Ele não atende.
Publicado pela Companhia das Letras, Masuaki e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos é descrito pela própria editora como uma narrativa que embaralha as fronteiras entre ficção, autobiografia e distopia. E, de fato, é impossível ler o livro sem sentir que algo ali respira a vida do autor, não como confissão, mas como matéria-prima transmutada em arte. O envelhecimento, o amor que persiste apesar de tudo, a solidão que não é barulhenta, mas sim essa coisa silenciosa que se instala nos intervalos entre uma fala e outra, os demônios que cada um carrega consigo, tudo isso comparece nessas páginas, mas nunca de forma direta ou programática. Mutarelli prefere o desvio, a cena oblíqua, o diálogo que parece não levar a lugar nenhum até, de repente, abrir um fosso sob os pés do leitor.
O subtítulo — e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos — é uma chave de acesso ao tom do livro. Há algo de instrução paradoxal, de conselho que não se completa, de equação aberta. Os cachorros latirão sozinhos ou não? É possível estar presente para o latido alheio quando mal se consegue ouvir os próprios pensamentos? E quem, afinal, é Masuaki? Um alter ego do escritor? Um personagem de ficção construído a partir de fragmentos de memória? Um delírio de si mesmo?
O romance não responde. Melhor: ele desvia da resposta como quem evita uma armadilha. Em vez de respostas, oferece aos leitores um universo povoado por lembranças que sangram umas nas outras, alucinações que se vestem de realidade, conversas que são, ao mesmo tempo, afeto e abismo. É um livro melancólico, sim, mas também hilário — justamente porque o riso, em Mutarelli, nunca é puro: ele carrega consigo o soluço, o desespero contido, a percepção de que estamos todos, no fundo, contando piadas sobre festas para as quais não fomos convidados.
Neste momento em que a literatura brasileira contemporânea assiste a uma proliferação de vozes narrativas que buscam, cada uma a seu modo, dar conta da fragmentação da experiência das redes sociais ao burnout emocional, da crise do trabalho à solidão pós-pandêmica, a obra de Mutarelli destaca-se por uma qualidade rara: ela não tenta consolar. Não há saída redentora nem catarse fácil nessas páginas. O que há, em vez disso, é uma inteligência narrativa afiada como bisturi, capaz de dissecar o ridículo e o sublime de uma mesma frase.
Masuaki e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos é um livro para quem não tem medo de se perder. Para quem entende que a literatura, no seu melhor, não é um espelho que devolve uma imagem nítida, mas sim um sonho do qual acordamos sem saber exatamente onde estamos e rindo, ou quase rindo, da estranheza de estar vivos.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de maio de 2026.
