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Narrativas de fôlego

publicado: 13/10/2026 09h22, última modificação: 13/10/2026 09h22
Conheça os seis autores que publicarão romances pela Editora A União por meio do edital da Política Nacional Aldir Blanc
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Os seis romancistas da lista: Maria Eliete da Costa | Fotos: Divulgação
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Os seis romancistas da lista: Erika Trindade
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Os seis romancistas da lista: Lucimário Augusto da Silva
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Os seis romancistas da lista: Caio Beltrão
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Os seis romancistas da lista: Paulo Henrique da Silva
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Os seis romancistas da lista: Tarcísio Pereira
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por Renata Escarião (Especial para A União)*

Seis escritores paraibanos foram selecionados no edital da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba (Secult-PB) para a publicação de obras no gênero romance, em parceria com a Editora A União. Os livros selecionados apresentam diferentes trajetórias, narrativas, estilos e perspectivas, reunindo histórias que ajudam a retratar a diversidade da produção contemporânea paraibana.

Com a proposta de revelar e reconhecer novos talentos, além de estimular a criação e a circulação de obras de escritores da Paraíba, a iniciativa, fundamentada na Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), amplia as oportunidades para autores do estado e contribui para a valorização da produção literária paraibana.

Entre os selecionados estão escritores que apostam em histórias marcadas por experiências pessoais, questões sociais, históricas e diferentes perspectivas sobre o cotidiano. Mais do que o reconhecimento aos autores, a seleção representa a oportunidade de transformar projetos literários em livros e aproximar novas narrativas dos leitores.

Foi isso que a premiação significou para Erika Trindade, autora estreante com o romance ‘Malaika’. Ela começou a escrever a história em 2021 e abandonou porque não queria dar mais visibilidade ao sofrimento negro. Mesmo diante do desafio de escrever no celular, por não ter computador, quando retomou o projeto sob outra perspectiva, se deu conta da potência do que havia produzido, e encontrou no edital a oportunidade perfeita para fazer suas palavras chegarem aos leitores.

 “Eu não queria ser mais uma pessoa que dá voz ao sofrimento, mas repensei e conclui que existia um potencial muito grande na história. Eu acreditei que poderia ser uma história muito profunda, que poderia proporcionar também o seu lado positivo. Dei muita visibilidade para a ideia do axé, dos orixás, reforçando a força das mulheres dentro do axé. E quis realmente protagonizar mulheres, os corpos femininos. Fiquei com receio de falar sobre minha visão religiosa, a minha vivência também enquanto mulher negra LGBT. Mas quando terminei o ‘Malaika’, eu pensei: caramba, que história importante!

E precisava encontrar um meio para que ela chegasse ao público”, conta Erika.

A narrativa traz Malaika como personagem principal, fruto do amor entre uma mulher preta e um potiguara. Também é sobre a emancipação dos negros e indígenas no Nordeste, “sobre o amor entre duas mulheres, o amor das Yabás, sobre ser e cruzar nossa existência, sobre quem nunca mais irá tolerar a maldição supremacista”, explica a autora.

‘O Cristo de quatro pregos’ também é o primeiro livro de Caio Beltrão. Ele apresenta uma história na qual a imagem de um Cristo, que há séculos permanece imóvel sobre a cruz de uma igreja no interior da Paraíba, abre os olhos em uma manhã qualquer. Pela primeira vez, ele sente o peso do próprio corpo, a violência dos três pregos que o atravessam e a dor de existir. Então os arranca, abandona a cruz e sai. Não para salvar o mundo, mas para conhecê-lo. Durante pouco mais de um dia, a personagem atravessa ruas, quilombo, feiras, praças, casas, comunidades, crenças e corpos, descobrindo uma humanidade muito diferente daquela que durante séculos rezou diante de sua imagem.

O autor comenta que o livro não segue exatamente uma forma convencional. “Ele é simbólico, metafórico, em alguns momentos excessivo, visceral, quase delirante. Há passagens que se aproximam de uma oração e outras que quase poderiam ser lidas como blasfêmia. Há ternura e brutalidade coexistindo o tempo inteiro”.

Caio diz que o romance deriva de uma crônica que escreveu em 2013 e que permaneceu com ele por mais de uma década. Ficou guardada, reapareceu, mudou, cresceu. “Talvez porque a história ainda não estivesse pronta. Talvez porque eu também não estivesse. Agora ela sai da gaveta. E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas e mais assustadoras desse primeiro livro: permitir que uma escrita que durante tantos anos existiu apenas entre mim e o silêncio aceite, finalmente, o risco de encontrar outras pessoas”.

 Para Maria Eliete da Costa, a seleção do seu romance de estreia ‘12 fatos em foco’ foi um sinal para não desistir, já que achava que jamais conseguiria publicar e dar visibilidade a uma temática importante e atual para ela, que é a imparcialidade na mídia. A autora diz que, inspirado em fatos, o livro acompanha, de janeiro a dezembro, coberturas jornalísticas as quais expõem a ausência de imparcialidade por trás das notícias divulgadas.

“É um romance sobre a máquina de contar histórias e as pessoas que ficam moídas dentro dela. Sobre o preço de segurar um microfone. E sobre o momento em que um repórter decide que não vai mais caber no molde das emissoras”, conta a autora, que afirma que o edital não foi só uma oportunidade de publicação, “foi uma oportunidade de existência literária. Sem ele, ‘12 Fatos em Foco’ continuaria sendo apenas um arquivo no meu computador”.

Maria diz que apesar de o livro falar de forma forte sobre temas como imparcialidade na mídia, o maior desafio foi trazer características humanas e de caráter para o personagem, sem perder o foco jornalístico da trama. “Como é um romance, precisei equilibrar a apuração dos fatos com a emoção do Edward, e fazer com que o leitor acreditasse na virada de chave dele”.  

Romances históricos

“Bica dos Milagres”, de Paulo Henrique da Silva, é um romance histórico que resgata uma tragédia ocorrida na Paraíba do século XIX: um caso de feminicídio de uma jovem paraibana, cometido pelo Frei Francisco junto a uma fonte de águas. A obra aborda temas extremamente atuais e urgentes, como a violência contra a mulher, o preconceito, o abuso de poder e as marcas de uma sociedade desigual.

Não é a primeira publicação do autor, que tem no currículo 12 livros publicados, de poemas, contos e literatura infanto-juvenil. No entanto, todos foram lançados de forma independente, o que torna esta sua primeira publicação via premiação, além de estreia no gênero romance. “Saber que minha obra passou pela avaliação de um júri técnico, que atribuiu nota máxima em todas as categorias, é a confirmação de que o livro está bem escrito e de que estou no caminho certo. Senti uma sensação de reconhecimento”.

O autor destaca que um dos desafios enfrentados no processo criativo do romance histórico foi ter exigências para além da inspiração e do talento: “exige pesquisa profunda, visitas aos locais históricos, técnica de escrita, constantes reescritas e planejamento estruturado. Precisei desenvolver sozinho uma rotina rígida de estudos e escrita, conciliar a produção do livro com o meu trabalho como professor e me debruçar sobre revisões minuciosas para garantir tanto o respeito à história quanto a qualidade final da obra. Mas, acredito ter superado esses desafios, a seleção e premiação do livro reforçam isso”, avalia.

Para Lucimário Augusto Da Silva, mesmo já tendo quatro livros publicados, o desafio foi o mesmo ao escrever “O Imperador e o Rio”. “Precisei fazer uma densa e minuciosa pesquisa acerca da vida e da monumental obra do escritor pilarense José Lins do Rego, além da história da sua cidade natal, participação e influência de Pilar na história paraibana. Foi esta pesquisa que me forneceu elementos fundamentais para a concretização da obra”, conta.

No romance, às margens do Rio Paraíba, onde a água guarda aquilo que o tempo insiste em apagar, nasce uma história feita de memória, silêncio, resistência e esperança. O narrador não é um homem, mas o próprio Rio Paraíba. Ancião e testemunha dos séculos, o rio acompanha o nascimento da cidade de Pilar, presencia a presença dos povos Cariris, a chegada dos colonizadores, a expansão dos engenhos, o sofrimento dos africanos escravizados e as marcas deixadas pela violência, pela fé e pelo poder. Sob suas águas, permanecem nomes, vozes, cantos e histórias que a narrativa oficial não conseguiu levar consigo.

Não ser estreante na literatura e nem no gênero não tornaram os desafios menos intensos para Tarcísio Pereira, escritor com 27 livros lançados. No romance “Teodósio” ele traz o bandeirante Teodósio de Oliveira Lêdo no sertão da Paraíba do século XVII, liderando uma expedição que avança sobre territórios indígenas. A narrativa revela a violência que ergueu o interior sertanejo e reflete sobre as origens brutais da colonização, com a devastação de várias aldeias e o sacrifício de povos originários.

“Toda criação artística traz desafios, e na escrita não seria diferente. No caso dessa obra, foi enfrentar uma pesquisa histórica sobre o período de colonização no século 17, especialmente no sertão paraibano. Fazer romance histórico não é fácil. Além dos desafios naturais da escrita, há também um caminho perigoso que requer muita atenção, que é como colocar ações e personagens reais dentro de uma obra de ficção”.

Mesmo com sua significativa experiência no universo literário, Tarcísio comentou que ao longo de 30 anos recebeu 18 premiações, mas isso não impediu a sensação de alegria por ser aprovado no edital como se fosse a primeira vez.

Premiação

Serão publicados 34 livros, sendo duas coletâneas, o que totaliza 42 autores nos gêneros romance, conto, cordel, crônica, poesia, infantojuvenil e ensaio. As coletâneas de cordel terão tiragem de 300 exemplares cada uma, sendo 30 a cota para cada autor, além de bolsa de premiação de R$ 1.000,00. Os 32 livros individuais também terão tiragem de 300 exemplares cada, e cota de 150 exemplares por autor, além de bolsa premiação de R$ 2.000,00.

Os romances selecionados:

  • 12 fatos em foco, de Maria Eliete da Costa (de Monte Alegre, RN)
  • Bica dos milagres, de Paulo Henrique da Silva (de Santa Rita)
  • Malaika, de Erika Trindade (de João Pessoa)
  • O imperador e o rio, de Lucimário Augusto da Silva (de Pilar)
  • Teodósio, de Tarcísio Pereira (de João Pessoa)
  • O cristo de quatro pregos, de Caio Beltrão (de Campina Grande)

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de outubro de 2026.