A bordo do navio de regresso da Segunda Guerra Mundial, o segundo-tenente Celso Furtado (1920-2004), que viria a se tornar um dos mais influentes economistas do Brasil, escreveu cerca de 10 contos. Pisando novamente em solo brasileiro em 1945, editou os textos em 1946 no pequeno volume De Nápoles a Paris: contos da vida expedicionária (Editora Z. Valverde), livro que caiu em um quase esquecimento, nunca mais reimpresso. Até que a escritora e tradutora Rosa Freire d’Aguiar resolveu republicá-lo como O tenente: cadernos de um expedicionário na Segunda Guerra Mundial (Companhia das Letras, 2025), lançado amanhã na Academia Paraibana de Letras (APL). Em sessão solene e recepcionada pelo acadêmico Francisco de Sales Gaudêncio, Rosa receberá comenda e medalha de sócia honorária da instituição.
Desapegada de vaidades quanto a títulos e diplomas, a escritora diz ter ficado “agradavelmente surpresa” com o convite. “Jamais passou pela minha cabeça ser sócia honorária da Academia Paraibana de Letras. É uma honra muito grande pra mim”, diz ela, ligando o fato às contribuições que Celso Furtado, com quem foi casada desde 1979, legou ao estado paraibano. Rosa foi quem doou, inclusive, o antigo fardão do oitavo ocupante da cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras (ABL) para ser exposto à vitrine da casa das letras paraibanas. Furtado não chegou a ser membro da APL, mas nascido no alto sertão de Pombal, entregou para o mundo importantes estudos acadêmicos, sobretudo voltados à análise econômica, à guisa de Formação econômica do Brasil (1959) e O mito do desenvolvimento econômico (1974). Mas não apenas.

- Rosa Freire d’Aguiar, premiada como cronista, ano passado, com o Jabuti, organizou o volume com as memórias de guerra de Celso Furtado | Foto: Divulgação
Desde que Celso partiu, Rosa Freire passou a trabalhar incansavelmente com os arquivos do marido, que eram muitos. Organizou, entre outros, os seis volumes dos Arquivos Celso Furtado (coleção publicada pela Editora Contraponto), tratando de momentos específicos da vida do intelectual, a exemplo da saga da Sudene, contextualizada com arquivos e textos contemporâneos, ou da ousada elaboração do Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social, quando da passagem do economista pelo Ministério do Planejamento.
“Cansei, digamos, e fui fazer outro tipo de coisa”, confessa. Foi então que compilou Diários intermitentes (2019) e Correspondência intelectual: 1949-2004 (2021), ambos pela Companhia das Letras. “Então estou sempre trabalhando com o material de arquivo dele. E no ano passado, aproveitando os 80 anos do final da Segunda Guerra, eu resolvi fazer esse livro em torno da participação de Celso na Segunda Guerra Mundial”.
Tenente Furtado
Na foto de capa, tirada logo após o término da Guerra, o tenente aspirante à oficial posa fardado, sentado sobre o parapeito do rio Sena. “Os pracinhas começam a voltar pouco a pouco. Demora até voltar todo mundo, e Celso foi da última leva que veio – a guerra acaba em maio e ele só voltou em setembro de 1945”, detalha a organizadora.
“O livro tem esse miolo, que são os contos que o próprio Celso escreveu na guerra (ou sobre a guerra, assim que ele chegou). Tem trechos de cartas dele, sobretudo para a família e amigos mais chegados, e cartas desses amigos e da família enviadas para ele – a correspondência vai e volta. Depois tem umas partes de diários dele durante a guerra, que não haviam sido publicadas”, descreve.
Em uma das passagens, Celso registra viagem à João Pessoa, pouco depois de sua chegada, ocasião em que reviu os amigos da infância e adolescência, e aproveitou para realizar uma palestra sobre a experiência conflituosa na Itália. A maioria desses “compadres” correspondentes àquele período era composta por paraibanos, alguns deles migrados para o Rio de Janeiro.
A propósito, d’Aguiar é herdeira, por testamento, dos arquivos de Celso. Curiosamente, segundo ela, quando o intelectual volta da guerra, passa a viajar muito para o exterior. No final de 1946, retorna à Europa, onde escreverá sua tese em estada de dois anos em Paris. Volta ao Brasil em 1948, permanece por alguns meses, e segue no início de 1949 para a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) no Chile, lá ficando por 10 anos. Depois regressa novamente ao Brasil e em 1964 inicia um exílio que perdurará por 20 anos.
“Na verdade, ele passou muito tempo fora depois do final da guerra. Enquanto isso, a papelada toda da guerra ele deixou na casa dos pais dele no Rio. [...] Quando a gente vem morar no Rio, então a família me entrega essa papelada toda”, explica a organizadora, que até então não havia se debruçado às minúcias dos papéis avulsos.
Celso migrou da Paraíba para o Rio em fins de 1939, ano em que entrou para a faculdade de Direito. A formatura caiu em dezembro de 1944, momento em que o egresso já sabia estar convocado para embarcar rumo à Itália. “Ele tinha acabado de se formar, coisa de um mês e pouco”, diz Rosa. “Curiosamente, ele volta convencido de que não quer seguir a carreira de advogado. Não quer continuar com o Direito, não quer a magistratura. E aí ele diz que quer conhecer melhor o Brasil, estudar vários problemas sociais do Brasil, mesmo sem falar especificamente de ‘economia’, mas fala do conhecimento do país”, lembra a escritora acerca das primeiras inquietações do ex-tenente em relação às mazelas sociais de seu lugar e que, em uma dessas aproximações, tergiversa a respeito do fascismo italiano.
Tendo passado por importantes publicações nacionais como as revistas Manchete, Isto É e Fatos&Fotos, a jornalista Rosa Freire d’Aguiar trabalhou por muitos anos como correspondente internacional. Depois se voltou para o mercado editorial, e de 1991 para cá traduziu e organizou mais de uma centena de livros de autores consagrados, a exemplo de Italo Calvino, Claude Lévi-Strauss e Pierre Bourdieu. Com Sempre Paris: crônica de uma cidade, seus escritores e artistas (Companhia das Letras, 2023) – que narra o cotidiano da escritora na época em que viveu na Cidade Luz como correspondente –, venceu o prêmio Jabuti de 2024 nas categorias “Melhor Livro do Ano” e “Melhor Livro de Crônicas”.
“De uns 4 anos pra cá, acho que houve uma espécie de novo interesse pela obra do Celso. Sei disso porque botei o nome do Celso lá no ‘alertas Google’ e recebo muita coisa das coisas que saem publicadas sobre ele. É amplamente citado em artigos, mas ele escreveu o Formação econômica do Brasil, que é um livro clássico, que tem que ser lido”. Os contos de Celso Furtado foram recentemente publicados pela revista científica francesa Les Cahiers de La Maison de l’Amérique Latine. Já Rosa d’Aguiar continua em processo de tradução do antropólogo francês Bruce Albert, especificamente sobre o povo indígena Yanomami.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 06 de maio de 2026.
