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O fascismo ali fora

publicado: 28/05/2026 09h37, última modificação: 28/05/2026 09h37
Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall conversam com A União sobre Um dia muito especial, peça que apresentam no sábado e no domingo em João Pessoa
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O encontro entre dois personagens fala sobre diferenças e a vida no autoritarismo | Foto: Priscila Prade/Divulgação

por Daniel Abath*

Roma, 6 de maio de 1938, 6h da manhã. O marido e os seis filhos da dona de casa Antonietta acordam em polvorosa, pois, afinal, é o grande dia do encontro-desfile entre os tiranos Benito Mussolini e Adolf Hitler. Todos se arrumam e deixam apressados o apartamento, reunindo-se nas ruas com a massa fervorosa de adeptos do regime fascista, à exceção da mulher, que, mesmo apoiando por tabela a ideologia, recolhe-se à solidão dos afazeres do lar. Distante do desfile, o acontecimento banal de um papagaio que foge do apartamento de Antonietta para um imóvel vizinho é o bastante para aproximar Antonietta de Gabriele, um radialista gay desempregado, oposicionista ao sistema.

Sophia Loren e Marcello Mastroianni interpretaram os personagens no filme clássico de Ettore Scola, em 1977 | Foto: Divulgação

Adaptada de um clássico do cinema italiano, a história é recontada nos palcos por Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall, com participação de Carolina Stofella, em Um dia muito especial (90 min, classificação 10 anos), em cartaz na capital sábado (dia 30, às 20h) e domingo (31, às 18h), no Teatro Paulo Pontes do Espaço Cultural, em Tambauzinho. Os bilhetes estão à venda na plataforma Ingresso Digital, com preços que variam de R$ 25 (meia entrada - plateia popular) a R$ 200 (inteira - plateia).

Dirigida por Alexandre Reinecke, esta é a segunda montagem do texto no Brasil – a primeira ocorreu em 1986, dirigida por José Possi Neto e contando à época com os astros Tarcísio Meira e Glória Menezes no elenco principal. Ambas se baseiam no longa-metragem homônimo (no original, Una giornata particolare, de 1977), obra-prima de Ettore Scola, vivido nas telas pelas estrelas italianas Sophia Loren (Antonietta) e Marcello Mastroianni (Gabriele), tendo sido indicado ao Oscar de 1978 nas categorias de melhor ator e melhor filme em língua estrangeira.

A primeira temporada da peça, que preserva o núcleo dramático do filme, ocorreu em outubro do ano passado. Juntos nos palcos pela primeira vez, Gianecchini e Casadevall conversaram com A União sobre o espetáculo e a experiência de contato com a história.

“Basicamente, a gente conta a mesma história do filme, é o mesmo personagem”, diz o ator. “É uma linguagem diferente do cinema, então claro que tem que ter uma adaptação. Os personagens no teatro não têm os recursos do close-up, não têm as imagens todas que contam e que ajudam a contar a história. A gente tem o nosso corpo e a nossa voz, que tem que ocupar aquele espaço e chegar até a última pessoa da plateia. Então… é tudo muito mais expressivo, com cores mais fortes”, comenta ao mencionar a presença de referências italianas na peça, tais como músicas e a maneira de falar (“para fora”) dos personagens.

Encontro de mundos

Descendente de italianos, Gianecchini – que até conseguiu a cidadania do país – conta que o processo de construção de seu Gabriele se deu de maneira partilhada, em meio a conversas entre diretor e elenco. “A gente fez bastante trabalho de mesa para entendimento de todas as camadas. Tínhamos a referência maravilhosa do filme, de como aquela história já repercutia. E a gente queria entender como teatralizar uma coisa que foi sucesso no cinema, trazer para o teatro”, pontua o ator.

“Ao invés de criar com a mente e impor ao corpo, geralmente meus processos criativos começam pela corporalidade”, diz Casadevall, “e é ela quem vai me contando a história e ajudando a construir a psique da personagem. E assim foi surgindo Antonietta, um corpo exausto, reprimido, porém sonhador e dançante”. 

Maria Casadevall é a dona de casa que conhece o vizinho homossexual no dia em que está acontecendo o desfile de Hitler e Mussolini em Roma

E é mesmo assim que a Antonietta do cinema se vê enredada pelo encontro imprevisto com o homem que até então lhe passara despercebido, por mais de dois meses, pelos corredores do condomínio onde mora. Trêmula e esvoaçante – tal como as bandeiras tricolores ou as suásticas nazistas dependuradas àquele dia no pátio – diante do novo: um homem diametralmente oposto do seu; nem marido, nem pai, nem soldado, com timbre de voz mais suave a quem o romano orgulho não convinha.

“Minha Antonietta é feita da mesma matéria-prima que a Antonietta da Sophia Loren, mas é outra mulher. É um corpo amplo, que conta sua história sobre um palco – há vigor na sua exaustão. É seu corpo rígido que nos conta sobre o deserto de afetos ao qual ela está submetida”, afirma a atriz sobre o trabalho corporal empreendido nos tablados.

Mas essa abertura entre os mundos não acontece assim tão rápido. É preciso testar as possibilidades, pé ante pé, conduzindo a dança aos pouquinhos, como se deu na sala de ensaios, em franca aproximação com o texto das vidas envolvidas e suas subjetividades. E eis que emerge a troca genuína, deveras necessária ao trabalho. “Para a gente entender e nos entender nesse processo e para chegar nas camadas que precisa do personagem”, reitera Gianecchini.

Um dia atual

Frente ao panorama contemporâneo de guerras, genocídios, (re)ascensão de movimentos totalitários, expansão da extrema-direita e individualismo desinformado pelas múltiplas bolhas sociais ao redor do globo, a unidade espaço-temporal de um dia vivido entre cômodos e seu acontecimento-chave são, para ambos os artistas, representativos da atualidade do espetáculo e caminho plausível para a soma das diferenças.

“A verdadeira escuta do outro, e isso não é sobre aceitar e concordar com todas as opiniões diferentes da sua, mas sobre se comprometer com o respeito acima de tudo e a partir daí buscar reconhecer a humanidade daquela pessoa, que está muito além de qualquer opinião ou conceito que o intelecto possa produzir”, ressalta Maria.

Fotos: Priscila Prade/Divulgação

“Eu enxergo que essa peça é mais pertinente do que nunca. Contar essa história, tratar desses temas, abordar tudo que a peça aborda nos tempos atuais é o que a gente mais precisa”, corrobora Reynaldo. “A gente está falando de exercitar escuta, de empatia, num mundo polarizado onde ninguém mais se escuta. [...] Então, eu acho que essa é uma grande temática da peça, fora a gente discutir ainda a condição da mulher que é invisibilizada; a condição do homem gay, que ainda precisa ter que conquistar o espaço para simplesmente ser na sua potência, sem ter que pedir desculpa”.

Enquanto a grande parada militar sucede ao longe, sabida apenas pelas locuções da rádio repressora, o microcosmo catártico de Antonietta e Gabriele encontra revérberos movimentos de reflexão para a vida entre os atores. Por exemplo, “O que em mim ainda estou silenciando por ter medo ou vergonha de manifestar?”, uma questão levantada por Casadevall, ou a assunção consciente do olhar “generoso” do radialista perseguido, evocativa de transformação em Gianecchini: “Eu tenho feito isso pra minha vida. A questão também dele ter tanta dor por ser cobrado [por] essa performance do que é masculino, de não ser sensível, de não ser vulnerável. Isso também é uma luta minha, uma questão minha”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de maio de 2026.