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O homem que filmou o tetra

publicado: 13/06/2026 08h43, última modificação: 15/06/2026 08h48
Morando até o fim do ano em João Pessoa, Murilo Salles conta como dirigiu o melhor documentário oficial da Fifa sobre uma Copa do Mundo: a de 1994
Todos os Coracoes do Mundo - 03.jpg

Antes da derradeira disputa, o italiano Roberto Baggio observa o seu rival brasileiro, Romário: cena do filme está nos telejornais e no novo documentário da Netflix | Foto: Reprodução/Fifa+

por Renato Félix*

As seleções de Brasil e Itália estão lado a lado, em fila, no túnel de acesso ao gramado do Rose Bowl, minutos antes da grande final da Copa de 1994. Uma câmera — que não podia estar ali — flagra, em close, Romário ouvindo alguma instrução e, ao fundo, o atacante italiano Robert Baggio, de olho fixo no adversário. Talvez você tenha visto esse take em telejornais recentemente, ilustrando alguma matéria que lembrava a primeira Copa do Mundo nos EUA, ou no novo documentário da Netflix. Saiba, então, que ele e é, originalmente, uma cena de Todos os corações do mundo (Two billion hearts), documentário oficial da Fifa sobre o torneio, que teve a direção de Murilo Salles, comandando uma verdadeira seleção brasileira de cineastas — uma equipe que realizou o melhor filme oficial sobre uma Copa.

Murilo Salles (acima) comandou seleção brasileira de cineastas | Foto: Roberto Guedes

Todos os corações do mundo passou nos cinemas brasileiros em janeiro de 1996, depois foi lançado em VHS. Salles, que está morando em Cabedelo até o fim do ano, onde escreve o roteiro de seu próximo filme, conta que o vídeo foi a grande mídia do filme no mundo e fez imenso sucesso nas telas nacionais.

“Ele é o segundo documentário de maior bilheteria da história do cinema brasileiro”, afirma. “Porém, ele não foi lançado em cinema no resto do mundo. Aí foi televisão e VHS. Os produtores recuperaram o dinheiro foi no VHS, que saiu no mundo inteiro”. O filme teve um orçamento de US$ 8 milhões, segundo as notícias da época.

O escrete do filme tem nomes que tiveram carreiras significativas posteriormente no cinema nacional. Vicente Amorim, assistente de direção, depois dirigiu filmes e a minissérie Senna (2024). Como diretores das unidades de 16mm que foram espalhadas pelas sedes da Copa, Andrucha Waddington (Eu, tu, eles, 2000), Roberto Berliner (A pessoa é para o que nasce, 2003).

Cesar Charlone, uruguaio de carreira brasileira na direção de fotografia (como em Cidade de Deus, 2002), ganhou o crédito de concepção de fotografia, além de ser também um dos vários diretores de fotografia do filme, como Breno Silveira (diretor de Gonzaga: de pai pra filho, 2013) e o paraibano Walter Carvalho (que depois assinou a fotografia de Central do Brasil, 1998, e dirigiu filmes). Rosane Svartman, primeira assistente de direção, supervisora de pós-produção e um dos montadores adicionais, é hoje autora de novelas como Dona de mim (2025) e filmes como (Des)Controle (2025).

Murilo Salles, por sua vez, já tinha assinado a fotografia de filmes como Dona Flor e seus dois maridos (1976) e Eu te amo (1981) e dirigido obras como Nunca fomos tão felizes (1984) e Faca de dois gumes (1989). Depois dirigiria Como nascem os anjos (1996), entre outros.

“Eu fazia publicidade, conhecia basicamente o mercado inteiro, todo mundo, recorda Salles. “E eu chamei todo mundo! Foram 100 pessoas que se dividiram em unidades. ‘Você vai para, sei lá, Los Angeles, você vai para Nova York...’”. Salles coordenou tudo por rádio, principalmente de Nova York. 

A torcida é destaque ao longo do filme | Fotos: Reprodução/Fifa+

O convite e a aprovação de seu nome pela Fifa vieram dois meses antes da Copa. A equipe filmou as 52 partidas, torcedores nas ruas dos Estados Unidos e nos países de origem de algumas seleções: incluindo um segmento sobre a origem dos dois protagonistas da Copa: Romário e Baggio.

A grande cena entre os dois no túnel foi conseguida através de uma malandragem bem brasileira. “Aquilo ali era proibidíssimo”, diz o cineasta. Mas Salles teve essa ideia. “Eu disse: ‘Cara, como é que deve ser numa final, o time do Brasil e o time da Itália, 20 minutos ali um do lado do outro? É uma tensão filha da puta, cara”, recorda. “Eu disse: ‘Vai rolar alguma coisa’”.

Tentou uma autorização formal para filmar no túnel, mas não conseguiu. Então, pouco antes de começar o jogo, César Charlone, que havia filmado no Rose Bowl a Copa inteira e já conhecia o pessoal da segurança, foi incumbido de dar um jeitinho.

“Ele disse: ‘Eu sou superamigo do cara da segurança, já tomei cerveja com ele. Mas o problema é câmera, a gente não tem câmera’”, conta Salles, que, então, mandou tirar correndo uma das câmeras que estavam instaladas nos dois gols. “Isso era 15 minutos antes do jogo começar, você não está entendendo. 15 minutos”.

A edição, que precisou domar as várias horas de imagem, ficou a cargo de José Rubens Hirsch. “O melhor montador que já vi’, afirma Salles. Ele teve a ideia de montar a final sem narração, só com imagens e música, muitas cenas dos jogadores correndo e olhando, muita tensão. “Ele falou: ‘Murilo, eu vou tentar aqui uma coisa. Vou vasculhar aqui o material todo, eu tenho uma proposta para te fazer”, lembra o diretor.

Desaparecido

Por incrível que pareça, o filme original está desaparecido. Salles afirma que a versão internacional é um pouco mais longa que a que circulou no Brasil. Esta, com narração de Antônio Grassi, sobreviveu apenas entre aqueles que guardaram sua cópia em VHS.

Em DVD, uma cópia sofrível foi lançada em uma coleção de filmes oficiais da Copa pela Editora Abril, com imagem pior que a do VHS, e uma nova narração de Domenico Gatto feita sobre a trilha original que tem a voz de Liev Shreiber.

A única maneira de ver o filme atualmente é no Fifa+ ou no site da Fifa. Uma cópia que parece uma colagem de origens diferentes: uma boa parte dela não tem as palavras na tela, que dialogam com as imagens e a narração, num trabalho gráfico de Jair de Souza. Não te inclusive, os créditos de abertura e os créditos finais, com a equipe brasileira. “Quem tem uma cópia do filme original é a TV Globo”, conta Salles. “Trancada a sete chaves, não sei por quê”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 13 de junho de 2026.