Durante cinco anos e meio, o escritor Bruno Ribeiro se agarrou a um sonho que mais parecia uma febre, tamanho o preço insistente cobrado pelo ato da escrita. Uma história feita de luta, voltada para uma família negra que arde na urgência de viver e na tentativa de sonhar em meio ao horror opressivo das estruturas sociais brasileiras. Eis o quinto romance de Bruno, O dono e o mal (Editora Alfaguara, 366 páginas), que terá duplo lançamento durante a próxima semana: na quinta-feira (21), às 18h, no Museu de Arte Popular da Paraíba (MAPP), em Campina Grande, com bate papo entre Bruno e a escritora Thays Albuquerque; e na capital, sexta-feira (22), às 19h, na Livraria A União no Espaço Cultural José Lins do Rego, em Tambauzinho.
A obra vem a lume pelo selo Alfaguara, vinculado à editora Companhia das Letras, e narra a saga da família Farias de Assumpção (composta por Graciliano, Genival, Valéria, Batista e Soledade). Tudo começa com Batista, homem preto e pobre que, sonhando com uma vida melhor, migra da Paraíba para o Amazonas em busca de trabalho. Enquanto derruba árvores para a construção da Transamazônica, se encanta de amores pela prostituta Iolanda, um amor logo implodido pelas circunstâncias do local.
Intentando um recomeço, Batista conhece Soledade da Silva Farias, com quem se casa. Mas a mulher também traz na bagagem uma história de opressão e de dor, o que contribui para que o sonho de uma vida digna se transforme em mero vislumbre – os três filhos do casal seguirão por veios tortos e trarão o pesadelo para o seio familiar.
À epígrafe do capítulo “O traidor”, somos apresentados ao vilão da história: “O homem insondável e exausto fala em uma língua que vai do inglês ao francês ao alemão ao swahili ao português a um dialeto criado por ele. O homem é chamado de O Inglês”. Chegando sem pedir licença, a figura grotesca é uma espécie de entidade que aterroriza os Farias de Assumpção, como uma representação do movimento colonizatório.
Processo criativo
Bruno conta que quando começou a escrever O dono e o mal não o imaginou como um livro grande. “Em um primeiro momento não seria uma saga familiar. Seria a história de dois homens, um pai e um filho, homens negros, muito violentos – que se tornaram violentos por causa do país em que vivem e da desigualdade e do racismo, mas que não conseguiam resolver essas questões internamente e por conta disso externalizavam através da violência”, ele explica.
Acabou que Ribeiro sentiu que precisava aumentar essa família. A mãe, então, se tornou uma personagem. Depois percebeu que o filho não poderia ser o único rebento do casal naquele lugar: vieram mais dois personagens. E foi assim que a história acabou se tornando uma saga de família, o que impeliu à obra a abertura de clareiras imprevistas pela trama da tessitura.
Quando percebeu esse crescimento, Bruno lembra que já havia fechado contrato com o selo editorial, em 2021, mas as coisas ainda estavam na mesma. “O romance, por mais que seja sentar e escrever [com] a página em branco, não é tão simples”, afirma. “Você precisa de tempo e pra ter tempo você precisa de dinheiro, então tem que estar trabalhando, fazendo outras coisas”, pontua, mesmo a despeito de seu métier no campo literário – para além da literatura, Bruno também atua como professor, tradutor e roteirista.
Não à toa, foram cinco anos e meio de produção de um livro que, concomitante à sobrevivência, mostrou-se, a cada página e em suas palavras, “dificílimo”. No entanto, o desafio foi encarado com satisfação, já que Bruno detinha vontade de tomar o lugar de autor negro que escreve um livro sobre uma família, além de ser um livro de horror, marca indelével dos escritos de Ribeiro desde o debute com o transgressivo livro de contos Arranhando paredes (Editora Bartlebee, 2014).
Violência original
No cerne de O dono e o mal está o elemento primevo da violência. “Eu queria escrever sobre homens negros violentos. Sobre a origem desse ódio, que muitas vezes nos atravessa, que vem por causa dessa sociedade tão racista, tão violenta, e mostrar que, obviamente, tem todo um peso em cima de nós, mas não podemos deixar que esse peso seja a nossa identidade ou que o ódio seja a nossa identidade”, ele ressalta.
“Eu queria assumir esse lugar, de escrever um livro de horror, grande; que fosse uma saga familiar e que bebesse não só do horror. Uma história difícil de ser executada. Acho que é bom assumir esses lugares, eu enquanto um autor negro, também, de dizer que é possível fazer esse tipo de livro, apesar das dificuldades. Assumi esse desafio pensando muito nisso também, que nós temos de estar em vários lugares, enquanto autorias negras”.
Em relação ao conjunto de sua produção, o autor considera O dono e o mal fiel a seu projeto literário, quer seja o de problematizar as estruturas sociais do Brasil. De acordo com o autor, o nível de absurdo vivido cotidianamente por homens negros, mulheres negras e tantos outros párias sociais é tão grande que somente o realismo não dá conta de explicá-lo.
Por isso o algo a mais do escritor; a lupa do horror e do fantástico para entender as atrocidades sofridas por aqueles segmentos. “O horror que eu escrevo está a serviço de mostrar essas desigualdades e essas dores que nós vivenciamos diariamente. Acredito que está em O dono e o mal e em todos os livros que escrevi”, afirma ao citar sua inclinação à estética do afro-surrealismo, fonte da qual também bebeu para a escritura da obra recém-publicada.
A dualidade do título vem nos moldes dos grandes romances temáticos do século 19, à guisa de Guerra e paz (1867), Orgulho e preconceito (1813) e Crime e castigo (1866). “Obviamente que O dono e o mal é muito estranho – poderia ser ‘o bem e o mal’. Mas eu queria falar com o dono enquanto uma instituição quase”, explica, mencionando tensão implícita aos limites da régua moral entre os personagens.
Nascido em Pouso Alegre (MG) e radicado em Campina Grande, Bruno Ribeiro é mestre em escrita criativa pela Universidade Nacional de Três de Fevereiro, na Argentina. Além de Arranhando paredes, publicou Febre de Enxofre (Editora Penalux, 2016), Glitter (Moinhos, 2018), Zumbis (Enclave, 2019), Bartolomeu (Independente, 2019), Como usar um pesadelo (Caos & Letras, 2020) e Porco de raça (DarkSide Books, 2021).
Lembrando o esmero do trabalho de seu editor, Marcelo Ferroni, e confessando o sofrido processo de escrita de seu oitavo livro – não no sentido romântico, mas pragmático, diante dos vários trabalhos paralelos que toca –, Bruno se diz muito orgulhoso do resultado de sua labuta pactual com a palavra. “Acho que todo escritor faz esse pacto fáustico com o livro. E quando você faz esse pacto com o próprio livro é um pedaço seu que está arrancando pra entregar pra esse livro. Esse pedaço nada mais é do que o tempo da sua vida”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de maio de 2026.
