Romualdo Dias de Carvalho, ou simplesmente Romdias, possui natural predileção pela natureza rústica das paisagens sertanejas. Também pudera, já que, nascido em Barra de Santa Rosa (PB), o artista plástico cresceu rodeado por flora, fauna e espaços físicos e imaginários da cultura popular nordestina, bebendo da fonte do misticismo armorial. Por isso mesmo, sua primeira exposição individual chama-se Romdias e sua ilumiara: natureza indomável do sertão profundo, com vernissage amanhã, às 17h, na Galeria Gamela, em Jaguaribe (JP), e fica aberta à visitação até 17 de julho.
Com curadoria assinada por Emí Garcia, a mostra contempla recorte expográfico composto por 26 obras, distribuídas entre esculturas e pinturas. No entanto, a história de Romdias com a Galeria Gamela não é de hoje, já que a primeira participação do artista em coletiva da casa remonta aos idos de 2005.
Trazendo equilíbrio numérico entre as duas linguagens, o primeiro ambiente da expografia é dedicado às mais de 10 esculturas do artista, exemplares de maior impacto à produção, segundo Emí. “As pinturas são muito boas, mas as esculturas são extraordinárias”, diz ele. “A gente está trabalhando ainda na organização, mas vai ser assim: as esculturas na primeira sala principal e as pinturas, conforme a temática e aspecto de cores, nas outras saletas”.
De grafismo mais contemporâneo e abstrato, às pinturas predomina a técnica de acrílica sobre tela, em obras como Gruta das aroeiras (2024) e Noite na Mata Atlântica (2026). Esta última oscila tons de verde, bege, marrom escuro e branco em padrões que sugerem, ao mesmo tempo, a chuva no escorrer das tintas, bem como ramificações de folhas nas copas da vegetação da mata originária.
“Ele usa uma técnica de pingar”, explica o curador, aludindo ao gotejamento que ficou famoso pelas mãos do pintor norte-americano Jackson Pollock (1912–1956) na década de 1940. “Deixa escorrer a tinta sobre a tela de forma que conforme o vento, conforme a gravidade, conforme o balanço da obra que ele fizer, vai tomando caminhos bem diferentes do normal”.
Emí ressalta que Romdias trilhou trajetória nos últimos 30 anos voltando-se para formatos e materiais diversos do convencional. Por exemplo, em A espada e o touro (2002), escultura de 100 x 40 cm, Rom assume partes de uma ferrovia abandonada, misto de ferro e alumínio, e a transforma em estatuária que referencia o embate natureza versus cultura. “Por isso mesmo o subtítulo ‘A natureza indomável do sertão profundo’, porque ele faz sempre em suas esculturas, e em suas pinturas, uma alusão a essa indomabilidade da natureza”, comenta o curador.
“Romdias pega esses materiais, que por muitos seriam vistos como um material descartável, um material inútil, e transforma, dá uma nova vida, reconfigura. Transforma em algo completamente inusitado. Ele tem essa característica de observar, de ter um olhar para o mundo diferente de um artista convencional que utilizaria uma plataforma, uma pintura sobre tela, uma escultura de argila, enfim, uma coisa mais domável”.
Outro exemplo do inabitual é O cacto (2015), escultura mista de liga metálica e madeira, oriunda de um botijão industrial de gás saído de uma oficina mecânica — o escultor estava nos arredores da oficina quando, de súbito, o “bujão” explodiu. A partir do violento evento, um carro pegou fogo. E antes que o proprietário da loja decidisse por descartar o objeto metálico, o artista encostou com seu olhar sensível, reivindicando aquilo que para muitos seria tão somente um pedaço de ferro retorcido.
“Imagina o caos ali e ele dizendo: ‘Não, eu vou levar isso. Aqui tem um cacto’. Ele pegou essa escultura, colocou em uma base, pintou, reconfigurou, e aí se tornou O cacto”, atesta Emí.
A figueira mesmo morta ainda viva (2026), também ilustra a atenção constante do artista para com a natureza diante do ambiente cotidiano. A escultura em liga metálica e madeira apresenta galhos de uma árvore pertencente ao jardim de uma antiga casa onde Rom morava, transmutada em arte de reaproveitamento afetivo, recoberto por resina.
Indomáveis referências
Boa parte dos elementos constitutivos do estilo de Romdias advém de sua infância no interior. Distante de um corpo dócil urbano acostumado à esterilidade hostil do asfalto, morava em um sítio, sendo criado, nas palavras de Garcia, “por si próprio” — tanto que quase chegou a se afogar em um riacho. Sua visão de um sertão sem porteiras, livre, completamente indomável é, portanto, reafirmada em sua arte.
Idealizado por Ariano Suassuna (1927–2014) durante os anos 1970, o Movimento Armorial, que preconiza a fundição do imaginário e da estética medievalista europeia com elementos adaptados ao contexto da cultura popular nordestina, bem sintetiza as escolhas estéticas do artista plástico. E não só a escultura, mas também sua pintura é permeada por referências ao cangaço, à natureza do semiárido nordestino e a locais marcantes da nossa geografia, como o Lajedo de Pai Mateus, em Cabaceiras, tal qual ocorre na literatura mística de Ariano com as ilumiaras, espaços sagrados à preservação da memória do povo.
“Com as características tradicionais do Nordeste, aquela resiliência do guerreiro. O guerreiro não apenas ali com a espada, mas o guerreiro como também é o homem nordestino, com a sua força, com a sua capacidade de resistir, mesmo em ambiente completamente inóspito”, pontua Emí. “Por isso eu trago essa questão de ser um novo olhar sobre o Armorial. Um armorial contemporâneo já que meio que o Armorial virou como se fosse apenas uma visão do passado. Mas eu queria trazer uma continuidade”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 16 de junho de 2026.

