Notícias

artes visuais

O Sertão de Romdias

publicado: 16/06/2026 09h16, última modificação: 16/06/2026 09h16
Artista inaugura exposição amanhã, na Galeria Gamela, com esculturas que bebem do Movimento Armorial
_MG_2305.jpg

As obras de Romdias fazem alusão à indomabilidade da natureza e ficam disponíveis à visitação até julho | Fotos: Arquivo pessoal

por Daniel Abath*

Romualdo Dias de Carvalho, ou simplesmente Romdias, possui natural predileção pela natureza rústica das paisagens sertanejas. Também pudera, já que, nascido em Barra de Santa Rosa (PB), o artista plástico cresceu rodeado por flora, fauna e espaços físicos e imaginários da cultura popular nordestina, bebendo da fonte do misticismo armorial. Por isso mesmo, sua primeira exposição individual chama-se Romdias e sua ilumiara: natureza indomável do sertão profundo, com vernissage amanhã, às 17h, na Galeria Gamela, em Jaguaribe (JP), e fica aberta à visitação até 17 de julho.

Com curadoria assinada por Emí Garcia, a mostra contempla recorte expográfico composto por 26 obras, distribuídas entre esculturas e pinturas. No entanto, a história de Romdias com a Galeria Gamela não é de hoje, já que a primeira participação do artista em coletiva da casa remonta aos idos de 2005. 

Fotos: Arquivo pessoal

Trazendo equilíbrio numérico entre as duas linguagens, o primeiro ambiente da expografia é dedicado às mais de 10 esculturas do artista, exemplares de maior impacto à produção, segundo Emí. “As pinturas são muito boas, mas as esculturas são extraordinárias”, diz ele. “A gente está trabalhando ainda na organização, mas vai ser assim: as esculturas na primeira sala principal e as pinturas, conforme a temática e aspecto de cores, nas outras saletas”.

De grafismo mais contemporâneo e abstrato, às pinturas predomina a técnica de acrílica sobre tela, em obras como Gruta das aroeiras (2024) e Noite na Mata Atlântica (2026). Esta última oscila tons de verde, bege, marrom escuro e branco em padrões que sugerem, ao mesmo tempo, a chuva no escorrer das tintas, bem como ramificações de folhas nas copas da vegetação da mata originária.

“Ele usa uma técnica de pingar”, explica o curador, aludindo ao gotejamento que ficou famoso pelas mãos do pintor norte-americano Jackson Pollock (1912–1956) na década de 1940. “Deixa escorrer a tinta sobre a tela de forma que conforme o vento, conforme a gravidade, conforme o balanço da obra que ele fizer, vai tomando caminhos bem diferentes do normal”.

Emí ressalta que Romdias trilhou trajetória nos últimos 30 anos voltando-se para formatos e materiais diversos do convencional. Por exemplo, em A espada e o touro (2002), escultura de 100 x 40 cm, Rom assume partes de uma ferrovia abandonada, misto de ferro e alumínio, e a transforma em estatuária que referencia o embate natureza versus cultura. “Por isso mesmo o subtítulo ‘A natureza indomável do sertão profundo’, porque ele faz sempre em suas esculturas, e em suas pinturas, uma alusão a essa indomabilidade da natureza”, comenta o curador.

“Romdias pega esses materiais, que por muitos seriam vistos como um material descartável, um material inútil, e transforma, dá uma nova vida, reconfigura. Transforma em algo completamente inusitado. Ele tem essa característica de observar, de ter um olhar para o mundo diferente de um artista convencional que utilizaria uma plataforma, uma pintura sobre tela, uma escultura de argila, enfim, uma coisa mais domável”.

Outro exemplo do inabitual é O cacto (2015), escultura mista de liga metálica e madeira, oriunda de um botijão industrial de gás saído de uma oficina mecânica — o escultor estava nos arredores da oficina quando, de súbito, o “bujão” explodiu. A partir do violento evento, um carro pegou fogo. E antes que o proprietário da loja decidisse por descartar o objeto metálico, o artista encostou com seu olhar sensível, reivindicando aquilo que para muitos seria tão somente um pedaço de ferro retorcido.

“Imagina o caos ali e ele dizendo: ‘Não, eu vou levar isso. Aqui tem um cacto’. Ele pegou essa escultura, colocou em uma base, pintou, reconfigurou, e aí se tornou O cacto”, atesta Emí.

A figueira mesmo morta ainda viva (2026), também ilustra a atenção constante do artista para com a natureza diante do ambiente cotidiano. A escultura em liga metálica e madeira apresenta galhos de uma árvore pertencente ao jardim de uma antiga casa onde Rom morava, transmutada em arte de reaproveitamento afetivo, recoberto por resina.

Indomáveis referências

Fotos: Arquivo pessoal

Boa parte dos elementos constitutivos do estilo de Romdias advém de sua infância no interior. Distante de um corpo dócil urbano acostumado à esterilidade hostil do asfalto, morava em um sítio, sendo criado, nas palavras de Garcia, “por si próprio” — tanto que quase chegou a se afogar em um riacho. Sua visão de um sertão sem porteiras, livre, completamente indomável é, portanto, reafirmada em sua arte.

Idealizado por Ariano Suassuna (1927–2014) durante os anos 1970, o Movimento Armorial, que preconiza a fundição do imaginário e da estética medievalista europeia com elementos adaptados ao contexto da cultura popular nordestina, bem sintetiza as escolhas estéticas do artista plástico. E não só a escultura, mas também sua pintura é permeada por referências ao cangaço, à natureza do semiárido nordestino e a locais marcantes da nossa geografia, como o Lajedo de Pai Mateus, em Cabaceiras, tal qual ocorre na literatura mística de Ariano com as ilumiaras, espaços sagrados à preservação da memória do povo.

“Com as características tradicionais do Nordeste, aquela resiliência do guerreiro. O guerreiro não apenas ali com a espada, mas o guerreiro como também é o homem nordestino, com a sua força, com a sua capacidade de resistir, mesmo em ambiente completamente inóspito”, pontua Emí. “Por isso eu trago essa questão de ser um novo olhar sobre o Armorial. Um armorial contemporâneo já que meio que o Armorial virou como se fosse apenas uma visão do passado. Mas eu queria trazer uma continuidade”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 16 de junho de 2026.