Notícias

música

O Sertão que virou rock

publicado: 14/05/2026 09h24, última modificação: 14/05/2026 09h24
Paraibano lança, em Portugal, livro e documentário sobre a Conspiração Apocalipse, banda pioneira de Cajazeiras
Capa_foto por Gil Maia.jpeg

A Conspiração Apocalipse foi tema da pesquisa na UFCG que rendeu o livro | Fotos: Gil Maia/Divulgação

por Daniel Abath*

Guitarras, história de vida, paraibanidade. Iniciada nos corredores da universidade pública, uma investigação acadêmica atravessou o Atlântico, conduzindo o Sertão paraibano para o centro de um debate sobre música, identidade e resistência cultural. Transformada em livro e documentário, a pesquisa do historiador e doutorando Didier Junior sobre a banda Conspiração Apocalipse, formada em Cajazeiras, no fim da década de 1980, passou a circular por universidades brasileiras e agora ganha lançamento internacional na cidade do Porto, em Portugal, no próximo sábado (16).

A obra Canções e tensões apocalípticas: a banda Conspiração Apocalipse e a eclosão do rock em Cajazeiras (1989–2005), publicada de forma independente em 2024, nasceu, originalmente, como trabalho de conclusão do curso de História na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Ao longo de 210 páginas, o livro investiga o surgimento da primeira banda de rock do Alto Sertão paraibano, propondo leitura histórica do processo formativo de uma cena musical marcada por elementos de contestação política, identidade regional e produção cultural periférica. 

Didier Junior já produziu outra pesquisa acadêmica, sobre o Tocaia da Paraíba, e agora estuda a banda Cabruêra

Com capa e contracapa assinadas pelo artista visual cajazeirense Francisco Inácio, o processo de diagramação ficou a cargo do próprio Didier. “É um livro-sonho”, diz ele. “Um livro de um sertanejo, filho da classe trabalhadora, que começou a trabalhar muito cedo, desde os 12 anos. Sou muito agradecido pelo que a vida tem me proporcionado, já que esse livro é fruto da universidade pública”.

Após concluir a graduação em História, Didier retornou à UFCG, já como doutorando para lançar a obra no espaço universitário onde tudo começou. “Foi um momento, extremamente, bonito, voltar à universidade como autor e também como diretor”, comenta, referindo-se ao documentário derivado do livro, Filhos do caos (2025, 20 min), produzido, posteriormente, com recursos da Lei Paulo Gustavo. O curta-metragem documental reúne entrevistas, registros históricos e análises sobre o desenvolvimento da cena rock em Cajazeiras, em roteiro coassinado por Didier e a cineasta Veruza Guedes.

Rock do Sertão

O foco do livro recai mesmo sobre a banda Conspiração Apocalipse, criada em 1989 em Cajazeiras. A partir de entrevistas, análises musicais e investigação documental, o pesquisador identifica o grupo como sendo a primeira banda de rock do Alto Sertão paraibano, ao passo em que também reconstrói o cenário musical existente na região nas décadas de 1960 a 1980.

Ao longo da investigação, o autor diferencia as bandas ligadas à Jovem Guarda das formações posteriores, voltadas à produção autoral e ao discurso político associado ao rock. Segundo ele, a Conspiração Apocalipse foi pioneira em produzir composições próprias dentro de uma perspectiva de contestação social.

“A ideia do livro é perceber que a banda foi o primeiro fruto dessa contestação, justamente, após o período da Ditadura Militar”, pontua, apontando a coincidência do ano de formação da banda com o momento de retorno à democracia. “Tem trabalhos de pesquisa que tratam da história do rock na Paraíba, ou da história do punk rock na Paraíba, só que aí a pessoa só foca em João Pessoa. E João Pessoa não é a Paraíba toda. Ter uma banda de rock em Cajazeiras é um exemplo de como o Sertão é diverso. Da potência universal e de contestação que tem o Sertão. São os vários sertões possíveis que a gente tem na nossa Paraíba”.

Canções e tensões apocalípticas é dividido em três capítulos. O primeiro lança olhar histórico sobre a cena musical de Cajazeiras e o surgimento do rock local. Já o segundo analisa musicalmente o primeiro disco da Conspiração Apocalipse, enquanto o terceiro dedica-se aos elementos visuais do álbum, observando capas, contracapas e escolhas gráficas como parte integrante da produção musical.

Pautado pela música

Como toda boa pesquisa acadêmica, as motivações iniciais à investigação surgiram de uma relação pessoal do pesquisador com a música, construída desde a infância. Didier relata que o primeiro contato com a arte musical veio por meio de sua avó, responsável por lhe apresentar os artistas populares em vinis. “Esses discos foram a base para tudo. Desde pequeno comecei ouvindo Luiz Gonzaga”, relembra.

“Minha avó tinha Alzheimer, inclusive. Mas das poucas coisas que ela lembrava era o meu nome e as músicas. Daí você tira o quanto a música era importante para mim e para ela. Depois tive contato com as canções de brega com meu pai — é uma referência para mim, de música. Não tenho músicos na família, na verdade só um tio que tocava bateria numa banda de Jovem Guarda em Cajazeiras”.

Diante de uma família aficionada por música, o interesse pelo rock surgiria naturalmente mais tarde, durante a adolescência. E mesmo sem formação na área, Didier diz que a convivência constante com discos e referências musicais o ajudou a direcionar o interesse pela pesquisa histórica ligada à música.

Morando em Portugal, em intercâmbio acadêmico por meio do doutorado sanduíche vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o autor realizará o lançamento internacional do livro no Instituto Pernambuco — Porto Brasil, espaço cultural localizado na cidade do Porto voltado à recepção de artistas e imigrantes brasileiros.

O evento contará com participação da professora e pesquisadora Paula Guerra, referência internacional nos estudos sobre rock, e mediação do historiador e musicólogo Ivan Lima, criador de conteúdos digitais de música com o projeto O que Cresci Ouvindo. Para Didier, o lançamento representa justo uma ampliação do alcance da pesquisa construída a partir do Sertão paraibano.

Além do livro sobre a Conspiração Apocalipse, o pesquisador já prepara uma nova publicação baseada em sua dissertação de mestrado sobre a banda Tocaia da Paraíba — o trabalho deve ser lançado após o retorno do intercâmbio acadêmico. Quanto à pesquisa atual de doutorado, Didier concentra-se na banda Cabruêra, grupo paraibano que alcançou circulação internacional, perfazendo movimento analítico indutivo acerca de bandas com alcance regional (Conspiração), nacional (Tocaia da Paraíba) e internacional (Cabruêra).

“O rock continua existindo; ele não morreu. Pode não estar no mainstream, pode não estar sendo veiculado, mas não vai deixar de existir. Assim como o jazz também não deixou de existir na década de 1950”, considera. “E acho que chegou a vez da gente exaltar a paraibanidade. É mais do que a hora da gente falar do que é nosso”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de maio de 2026.