Um grande feito para a cinematografia paraibana: o curta A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero, dirigido pelo paraibano Rodolpho de Barros e adaptado de conto homônimo do escritor Bruno Ribeiro, foi eleito o melhor curta-metragem brasileiro de 2025 pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). O anúncio foi feito em live transmitida na última quinta-feira (5): o 15o Prêmio Abraccine elegeu também O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, como o melhor longa-metragem brasileiro e Uma Batalha após a Outra, de Paul Thomas Anderson, melhor longa estrangeiro.
O curta paraibano teve sua estreia no Festival do Rio e percorreu importantes mostras cinematográficas, até ser o grande vencedor do 20o Fest Aruanda, levando oito prêmios — incluindo Melhor Curta dos Júris Oficial, Popular e da Crítica.
Duas pessoas, cada qual com seus problemas, encontram-se em um restaurante no meio do nada. De um lado, o cliente (interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos) observa o mórbido agonizar de uma mosca em seu prato, ao passo que a garçonete (na pele de Ingrid Trigueiro), já morta em vida pela acomodação de seu papel na teia impiedosa do sistema, deixa-se levar pela narração filosofal, kafkiana, do homem tomado pela solidão.
A história já havia sido premiada em 2015, no concurso de contos Brasil em Prosa, promovido pelo jornal O Globo e pela Amazon. “Assim que eu recebi essa premiação, lembro que foi algo que realmente me deixou muito feliz e foi um passo muito importante para a minha carreira literária”, diz Bruno Ribeiro, autor do conto.
Lembrando do recado dado pelo escritor José Castello, um dos jurados, de que não fizessem concessões ao longo da carreira, Ribeiro olha hoje para o texto provocador e estranho de A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero — publicado em seu livro Como Usar um Pesadelo (Caos & Letras, 2020) — com a certeza de que acreditar no que vem fazendo alçou seu projeto literário a patamares inimagináveis.
“Como o Rodolpho mesmo fala, ele pegou o texto e jogou na tela. É o texto integral que está no curta-metragem, e transformar esse texto, que é diálogo, é teatral, nas imagens que ele conseguiu construir foi um mérito imenso”, destaca o escritor, que chegou a morar com o diretor do curta em Buenos Aires.
A atmosfera noir do filme, com jazz de fundo e imagens em preto e branco, já vem roteirizada no conto de Bruno, que assume a pintura Nighthawks (1942), do pintor norte-americano Edward Hopper (1882–1967), como principal referência para a premissa — no quadro, um café americano de enormes janelas abriga um homem sentado a um vasto balcão, servido por um garçom e entregue à melancolia da solidão.
“Nós sempre tivemos uma mão de obra artística incrível na Paraíba — no cinema, na literatura, nas artes plásticas, na música. Acho que a grande questão pra fazer com que essa arte alcance mais pessoas é algo muito pragmático: nós precisamos de verba, de suporte. Fazer arte pra ninguém é muito difícil”, considera Bruno, ressaltando o momento muito bom, vivido tanto em âmbito regional quanto nacional, em termos de editais, verbas e festivais.
Apesar de não pensar nos prêmios quando da criação de sua arte, o escritor reconhece, outrossim, os benefícios da premiação nos termos do debate crítico e de alcance de público, o que para ele comprova a inexistência de um eixo hegemônico de produção audiovisual. No momento, inclusive, Rodolpho de Barros está na última semana de gravação de seu longa-metragem, o thriller político Grande Dia, com roteiro escrito a quatro mãos pelo próprio diretor em parceria com Ribeiro e envolvendo ainda os cineastas Ian Abé e Marcel Vieira.
Como arte coletiva, Bruno lembra ainda que Rodolpho sempre pontuou de maneira enfática a equipe talentosa, da direção de arte ao figurino, fotografia e produção, todos trabalhando com máximo desempenho.
“Acho que isso é uma maneira que justifica também as premiações que o filme vem recebendo. O cinema é uma arte muito coletiva e é muito bonito ver como todos os departamentos do filme estavam muito afinados. Isso é visível na própria qualidade do filme”, diz ele.
Longas
Os dois longas premiados pela Abraccine disputam a estatueta do Oscar de melhor filme deste ano. O Agente Secreto já soma 118 indicações e 65 vitórias em prêmios pelo mundo – uma delas foi no Globo de Ouro (melhor filme em língua não inglesa e melhor ator de drama para Wagner Moura).
No Oscar, está indicado em 4 categorias: Filme, Filme internacional, ator (Wagner Moura) e produção de elenco. Também concorre ao Bafta, da Academia Britânica: filme de língua não inglesa e roteiro. Em Cannes, no ano passado, levou os prêmios de melhor direção e ator.
Vale lembrar que oito atores paraibanos estão no elenco do filme: Suzy Lopes, Buda Lira, Celly Farias, Fafá Dantas, Joálisson Cunha, Márcio de Paula, Flávio Melo e Beto Quirino.
Já a sátira política Uma Batalha após a Outra, segundo o Internet Movie Database, ostenta, até o momento, 220 vitórias e 445 indicações. Entre outros, o filme arrebatou quatro Globos de Ouro (filme de comédia ou musical, direção, roteiro e atriz coadjuvante para Teyana Taylor). Concorre ao Oscar em 13 categorias e é considerado, no momento, o favorito ao prêmio de melhor filme.
Abraccine
De acordo com o presidente da Abraccine, Orlando Margarido, a votação ocorre inicialmente com a definição de uma lista de 10 filmes finalistas, entre todos os filmes lançados nos cinemas e no streaming brasileiros. Em um segundo momento, os associados — atualmente em torno de 180 críticos aptos à votação — elegem os vencedores.
“A gente procura viabilizar o visionamento dos filmes em todas as categorias através de links”, detalha Orlando. “Especialmente os curtas: eles não circulam, então a dificuldade é ainda maior. E aí nesse período entre dezembro e janeiro os associados podem assistir, comparar e fazer a sua escolha. No caso do curta paraibano, que foi premiado no Aruanda, foi a votação mais expressiva entre as três categorias”.
Para Margarido, há um bom casamento entre forma e conteúdo em A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero.
“O que primeiro chama atenção é a forma — tem uma estrutura de proximidade maior com as personagens, a câmera muito próxima dos rostos. A estética é o primeiro impacto; depois é a proposta de drama, uma história realmente mais para o inusitado. Como acompanho muito o trabalho da Paraíba há muitos anos, também bate com esse fato”, analisa, lembrando que a premiação do curta paraibano também ocorre em um momento simbólico para a Abraccine, que completa 15 anos de atuação — mesmo tempo de existência do prêmio.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de fevereiro de 2026.

