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Passando a carreira em revista

publicado: 09/04/2026 09h10, última modificação: 09/04/2026 09h10
O cineasta Diego Lima exibe três curtas e dois projetos ainda em pós-produção em uma mostra em Mangabeira, hoje
Nyka Barros e Alice Maria em Crua (2019) no Pavilhão do Chá, fotografia still de Milena Medeiros.jpeg

Curtas que serão exibidos hoje: Nyka Barros e Alice Maria em Crua | Foto: Milena Medeiros/Divulgação

por Esmejoano Lincol*

Era uma vez, um garoto paraibano, seus primeiros contatos com a sétima arte e os últimos suspiros de importantes espaços de projeção de João Pessoa. As lembranças mais antigas de Diego Lima em relação ao cinema rumam para o ano de 1998 e para longas-metragens como Mulan (animação da Disney) e Simão, o fantasma trapalhão (com Renato Aragão), vistos da plateia, no hoje extinto Cine Municipal. Quase três décadas depois e atuando, agora, como realizador e produtor independente, Lima faz uma retrospectiva de sua própria filmografia por meio da Mostra Panorama, promovida pelo Cineclube Curta Aqui, hoje, às 19h30, no Embarque 83 (Mangabeira, JP). A entrada é franca.

Serão exibidos três curtas: Atrito (2017), eleito o melhor em seu segmento no Fest Aruanda, na Paraíba, e na Première Brasil Novos Rumos, do Festival do Rio; Crua (2019), visto no Los Angeles Film Festival; e Ígnea (2021), produzido com material restante do título anterior. Além desses, Lima apresenta dois títulos inéditos, em fase de pós-produção. 

Suzy Lopes em Atrito | oto: Carine Fiúza/Divulgação

“A mostra foi pensada nesse formato para ouvir o público e fazer um design de audiência para entender percursos. Um desses, gravei em 2021, Calisto, filme experimental sobre direito à moradia. O outro é A escrita de Deus, em realidade virtual que codirigi com Carlos Dowling, sobre a colonização da América Central e Latina, através do conto de J. Borges”, informa.

O cineasta sustenta que seus filmes investigam formas diversas de violência simbólica. Um desses exemplos pode ser visto em Atrito, que deu a Suzy Lopes o prêmio de Melhor Atriz no Fest Aruanda 2017: a artista interpreta uma mãe solo, cooptada pela religião e que nutre sentimentos conflitantes pelo filho.

Diego Lima conquistou prêmios no Fest Aruanda e comanda produtora que gere projetos de cineastas oriundos de minorias | Foto: Arquivo pessoal

“A minha pesquisa no cinema gira muito mais em torno da maternância, da sexualidade e da velhice. Então como um homem pode compreender sem sentir as prisões da mente da personagem? Eu preciso de um cinema político em que a gente tire certezas e comece a se colocar em lugares que parecem inalcançáveis para nós. Se isso for ser polêmico, ok”, pontua.

Além da trajetória como realizador e roteirista, Lima também remonta a criação da sua produtora, a Desterro Filmes, que gere projetos de cineastas inexperientes ou pertencentes a minorias. Por meio dessa iniciativa, foram realizados Inominados (2021) e Pedra polida (2022), respectivamente as estreias de Daniel Porpino e de Danny Barbosa.

“O primeiro filme da Jorja Moura, mulher trans, foi realizado conosco: Dance (2020), selecionado para o Curta Cinema, no Rio de Janeiro. A Desterro nasceu dessa necessidade de botar fé, partilhar as histórias e transformar a realidade. Não tem sido fácil manter uma empresa, principalmente sem recurso e trabalho fixo, mas estou aí pra dizer que eu existo ainda”, assinala.

Em 15 anos de carreira, Diego acompanhou de perto o impacto econômico e cultural das novas janelas de projeção para filmes e séries — fato que criou esse cenário hostil para pequenos empresários e diretores independentes e incidiu, ainda, no público espectador e no valor dos bilhetes. Em 1998, o preço dos ingressos era próximo dos R$ 2, lembra. 

Norma Góes em Ígnea | Foto: Milena Medeiros/Divulgação

“Percebemos que o ato de ir ao cinema se torna cada vez mais escasso com o avanço dos streamings. A experiência, porém, nunca vai ser mágica como propor sentir um filme por 1h30, como antigamente, vendo da tela do computador ou em casa. No cinema não há distrações. Por isso, sempre defendo o cinema como essa potência transformadora de estar no local”, crava.

Diego Lima entrou na faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) na segunda metade dos anos 2000. A habilitação escolhida, Relações Públicas, não garantiu contato imediato com o audiovisual, mas despertou sua verve artística e política, a partir de sua aproximação com as disciplinas de outras graduações afins, na instituição.

“Entrei em uma época em que rolaram muitos protestos para a manutenção das estruturas. Mas eu estava isolado dos cursos de Rádio e TV e Jornalismo. Tive que me inscrever em outras disciplinas, inclusive como aluno especial do mestrado [em Comunicação]. Bertrand Lira dava aulas sobre documentário e ética. De certa forma, a universidade me impulsionou”, assinala.

Em meio a exibições em sala de aula, ele desembarcou no Viação Paraíba, projeto de formação de realizadores, gerido pela Coordenação de Extensão Cultural (Coex/UFPB) — primeiro como aluno, depois como monitor. “Fui fruto dessa política cultural estabelecida pela pró-reitoria da UFPB, sob a tutela de Orlando Júnior, Torquato Joel e Virgínia Gualberto. O Viação me ensinou o que é ser cidadão, ser político, tudo através da cultura. Acho necessário que ações e conhecimentos científicos produzidos na universidade estejam em lugares periféricos, em programas como esse”, analisa.

Paralelo ao Viação, ele também passou pelo Laboratório Paraibano para Jovens Roteiristas (Jabre), outra das atividades vinculadas ao Coex, sob a batuta de Torquato. Por lá, desenvolveu o texto de Crua, que acabou sendo filmado depois de Atrito — este a sua estreia como diretor, utilizando como um dos cenários principais a sua própria residência, na capital.

“Minha mãe, Josicleide, tem TOC [transtorno obsessivo-compulsivo] com limpeza e ficou agoniada, porque, no apartamento tudo era set, só podíamos dormir com um colchão no chão da sala, juntos, para não atrapalhar toda a montagem da arte e dos equipamentos. Mas até hoje eu agradeço a ela por isso. E pela equipe também, que tomou esse desafio e realizou o filme comigo”, destaca.

Cena de A escrita de Deus | Imagem: Divulgação/Desterro

Com o destaque alcançado em suas empreitadas (Norma, por exemplo, foi selecionado para integrar, em 2022, o ambiente mercado BrLab, da Mostra de Cinema de Gostoso, no Rio Grande do Norte), ele associou-se a projetos maiores, inclusive fora do estado, como assistente de direção e continuísta. Um deles, a série Notícias Populares, dirigida por Marcelo Caetano para o Canal Brasil.

“Lidava muito com a administração, gestão e execução do elenco secundário, terciário... Foi uma grande mudança de perspectiva. Me mudei para São Paulo, tive que entender outra forma de fazer as coisas, pois o Sudeste é ‘o’ mercado. Foi o primeiro trabalho que me pagou no piso, corretamente, com todas as garantias”, rememora.

Diego afirma que precisamos superar dois dos maiores obstáculos para a cena local: o apagamento dos filmes e dos realizadores pós- -festivais e o reconhecimento do público e da mídia, cruciais para a cadeia produtiva. “Existem pessoas que foram para mostras mundiais, como eu, com meu segundo filme, mas que continuam invisíveis. Cadê nossos filmes sendo distribuídos nas escolas? Cadê o canal de televisão comprando os direitos dos nossos filmes para eles serem transmitidos? A gente ganha prêmio, mérito, mas serve de que se, aqui, ninguém assistiu?”, resume. 

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 09 de abril de 2026.