O quadrinista paraibano Paulo Moreira e o seu trabalho Boca de siri (Pitaya) foram os grandes vencedores do Troféu Angelo Agostini 2026, um das maiores láureas do segmento no país. Das seis categorias a que estava inicialmente indicado, ele angariou três, incluindo a principal – melhor quadrinho, melhor desenhista/roteirista e melhor capista. Outro projeto paraibano também foi nomeado nesta edição: a 9º edição do Top! Top!, tradicional evento de cultura pop capitaneado, em João Pessoa, pelo empresário Manassés Filho, concorreu ao Prêmio Jayme Cortez, segmento que reconhece iniciativas que auxiliam na difusão do gênero.
Boca de siri, lançado em outubro de 2025, mistura realismo mágico com um tema urgente do nosso cotidiano – a preservação do meio ambiente. Ygo, Vitória e Duda, trio de crianças pessoenses que explora a capital do alto de suas bicicletas, descobrem que um caranguejo gigante passará, como de costume, pela orla da cidade, mas desta vez com uma missão. Ele vem para protestar contra a obra de alargamento da faixa de areia da praia, ação que pode afetar diretamente o seu ecossistema. As autoridades locais almejam usar contra o animal uma perigosa “arma secreta” ao passo que os meninos tentam dar apoio ao goiamum.
Assim como nas HQ passadas e nas tirinhas que publica frequentemente em suas redes sociais, Paulo recorre a expressões locais e memórias pessoais para compor suas tramas. Apesar disso, o autor de Boca de siri diz que os conflitos abordados são universais. “As pessoas estão indo atrás sem saber como é, e eu sempre fico num suspense pra saber se vão curtir ou não. Mas até agora tão gostando. E eu acho que mais do que Bom dia, socorro, Boca fala muito mais da cidade de João Pessoa, é bem mais localizado com mais referências que só quem é daqui, das áreas, consegue pegar. Mas, mesmo assim, tem uma boa recepção”, diz.
O Troféu Angelo Agostini, criado em 1985, é promovido pela Associação dos Quadrinistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP). Ao lado do HQ Mix, consolidou-se como um prêmio importante para o segmento. Em anos anteriores, outros paraibanos foram indicados – um deles, Shiko, que venceu em 2014 por Piteco – Ingá (Panini) e O azul indiferente do céu (Marca de Fantasia). O nome da láurea referencia o pioneiro homônimo, que, no século 19, foi editor da Revista Illustrada e da série As aventuras de Nhô Quim ou impressões de uma viagem à Corte, o primeiro título do gênero a circular no país.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 02 de maio de 2026.