Iniciado na Itália do século 16 e logo difundido aos países católicos da América, o estilo barroco traria a opulência e a exuberância de formas para a arquitetura, a pintura e os monumentos religiosos. No caso brasileiro, em especial o paraibano, a influência monumental do Barroco sobre o conjunto arquitetônico franciscano tem sido, ao longo de 30 anos, objeto de estudo da professora Carla Mary Oliveira, agora tornado livro em O Barroco Franciscano na Paraíba colonial: Convento de Santo Antônio. O lançamento da obra é hoje, às 18h, no Bistrô 17, localizado no Centro da capital, com pocket show de jazz do Ipês Trio.
Prefaciada por André Cabral Honor, a publicação de 354 páginas é coassinada pela Editora do Centro de Comunicação, Turismo e Artes da Universidade Federal da Paraíba (CCTA-UFPB) e pela Universidad Pablo de Olavide (UPO), de Sevilha, na Espanha, por meio das Publicaciones Enredars.
A pesquisa volta-se para o Convento de Santo Antônio da Paraíba, que é atualmente conhecido como “Centro Cultural São Francisco”. Professora titular do Departamento de História da UFPB, Carla Mary resolveu estudar o convento desde a época em que ainda cursava a graduação, nos anos 1990. “Minha relação com os franciscanos vem desde antes disso, ainda lá do Rio, quando minha avó me levava no convento do Largo da Carioca, para a Festa de Santo Antônio, quando eu ainda era criança”, ela comenta.
Quando veio morar na Paraíba no final dos anos 1980, a autora foi convidada por um amigo para conhecer o convento de Santo Antônio justo durante o fim da restauração promovida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no ano de 1988, chegando até a frequentar as oficinas de restauro das pinturas. Como menciona André Cabral ao prefácio, não surpreende, tendo em vista a revelação da autora à revista Temporalidades de que uma de suas leituras da infância era A história da arte, de Ernst Gombrich, um dos mais famosos livros sobre o assunto.
“Eu nunca tinha detalhado a parte arquitetônica, nunca tinha estudado detalhadamente a parte de escultura em pedra de cantaria. Então essas partes no livro são totalmente novas”, explica. Um pós-doutorado realizado em 2024 na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com pesquisa no arquivo provincial dos franciscanos em Recife, permitiu o aprofundamento final. “Você tem muita documentação que ninguém antes trabalhou”, afirma.
Um dos eixos centrais da investigação é a aparente contradição entre a decadência econômica da capitania da Paraíba no século 18 e a exuberância decorativa do convento justamente nesse período. “A gente tem vários documentos coloniais que mostram essa penúria econômica. No entanto, é justamente no século 18 que o convento vai ter essa suntuosidade”, observa. A resposta está no projeto franciscano de formação religiosa: o espaço funcionava como centro de ensino de teologia, filosofia e retórica — função que a historiografia havia negligenciado. “Normalmente, a gente fala muito dos jesuítas, que trabalhavam com ensino, mas os franciscanos também trabalhavam, só que num outro modelo”, pontua a pesquisadora.
Para Carla Mary, que nasceu no Rio de Janeiro e vive na Paraíba há quase 40 anos, o livro muito representa, e não apenas para a própria historiografia local. “Sabe aquele negócio de marco? Assim, de dar um fecho em alguma coisa na carreira? É desse jeito”, conclui.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de julho de 2026.
