Temos, de fato, uma conta astronômica quando convertemos 50 anos-luz em quilômetros — cerca de 473 trilhões, neste outro sistema métrico. Ao titular como 50 anos luz, a turnê que celebra cinco décadas de carreira, Guilherme Arantes não remete apenas à extensão da caminhada, mas à sua transcendência enquanto artista, deixando, pelo caminho, dezenas de sucessos autorais e uma contribuição imensurável para a MPB. Faixas inéditas e fragmentos de seu cancioneiro conhecido poderão ser vistos, ao vivo, na passagem meteórica dele pela Paraíba: o show acontece hoje, a partir das 21h, no Teatro Pedra do Reino, situado no Centro de Convenções da capital (Pólo Turístico Cabo Branco). Os ingressos estão à venda pelo site Ticketmaster e custam de R$ 100 (meia para o balcão) a R$ 360 (inteira para a plateia A).
Boa parte dos êxitos como autor e intérprete estão garantidos no repertório: “Êxtase”, “Pedacinhos”, “Planeta água” e “Deixa chover”, todas situadas nos primeiros 10 anos de sua trajetória. A novidade fica com as adições de seu mais recente álbum, Interdimensional (Coaxo do Sapo/Virgin, 2026) e dos “lados B”, faixas mais conhecidas dos fãs do que do público geral, mas com méritos iguais aos dos hits. “‘Raça de herois’ [de 1989], ‘Sob o efeito de um olhar’ [de 1991] e muitas outras opcionais, exigidas a partir da interação com o público. Cada show tem um lado imprevisível também”, resume Arantes para A União.
O paulistano soma esses 50 anos de carreira solo, iniciadas após a sua saída do Moto Perpétuo, banda efêmera formada em 1973. Ao lado de Guilherme nessa empreitada, estavam Cláudio Lucci, Diógenes Burani, Egídio Conde e Gerson Tatini. A verve progressiva dos jovens chamou a atenção de Moracy do Val, produtor do Secos & Molhados.
O padrinho garantiu-lhes um contrato com a Continental para o lançamento de um álbum — o único do grupo, que teve fim logo depois. “Não pensei em montar outra banda. Percebi que a minha vocação era para ser um ‘cantautor’ individual mesmo”, rememora.
Peregrinando por gravadoras de São Paulo e do Rio de Janeiro em 1975 e 1976 e munido de composições inéditas, Guilherme, com apenas 23 anos, foi acolhido pela Som Livre, braço do grupo Globo que tinha como contratados Rita Lee, Alceu Valença e Moraes Moreira. Os produtores João Araújo, Otávio Augusto e Guto Graça Mello foram conquistados pela balada “Meu mundo e nada mais”, fruto de suas incertezas e traumas adolescentes. A leve mudança nos primeiros versos — “Me atirei no mundo / vi tudo mudar” — a tornou adequada para ser tema do casal Nice e Rodrigo, da novela Anjo mau (1976). Um sucesso instantâneo.
A lua de mel com a Som Livre durou pouco. O atraso no lançamento de seu segundo disco, aliado à sua ida para a Warner, prejudicou a promoção de Ronda noturna junto àquele selo, e A cara e a coragem, projeto na sua nova casa. Mas a crise, posteriormente superada, não intimidou o jovem artista.
“O medo do fracasso, desde o início e até hoje, me parece uma bobagem, porque o objetivo nunca foi o sucesso, e sim, muito mais, o prazer da liberdade de sonhar. Esse medo viria se realmente fosse o sucesso o único objetivo... Como não é, mas, sim, um sonho lúdico e sem obrigação de dar certo, tudo muda de perspectiva”, analisa.
De 1976 a 2006, ele trocou de gravadoras algumas vezes, fosse por divergências artísticas, fosse por vínculos melhores. Mediante a criação de seu próprio selo, o Coaxo do Sapo, ele garantiu maior autonomia na concepção e na divulgação de álbuns mais recentes, como Flores e cores (2017). Ser independente tem prós e contras, segundo Guilherme.
“No meu caso, que é de um artista já colocado e delimitado no mercado, é mais natural a autoprodução, embora haja uma perda promocional de não estar numa ‘barca’ de um selo ‘major’. Tudo tem ganhos e perdas, mas para mim hoje a autoprodução é mais confortável”.
“Xixi nas estrelas”
A discografia de Guilherme Arantes tem início com o LP autointitulado “Moto perpétuo”, seguido de sua estreia solo: neste outro disco, também tornou-se compacto “Cuide-se bem” (regravada mais tarde por Vanessa da Mata). Nomes importantes contribuíram nos bastidores desse projeto, na Som Livre: as flautas de Altamiro Carrilho e Copinha e os vocais do Trio Esperança e dos Golden Boys são ouvidas em canções como “Lamento lhe encontrar triste” e “Não fique estática”. “[A preço de hoje] mudaria vários andamentos exageradamente apressados, faria no geral um álbum bem mais cômodo e relaxado”.
No início dos anos 1980, aproximando-se de uma sonoridade mais pop, Guilherme compôs “Lindo balão azul”, uma das principais faixas do especial Pirlimpimpim, exibido pela TV Globo como homenagem ao centenário de Monteiro Lobato. Na sequência, Pirlimpimpim 2, de 1984, ele assumiu a trilha sonora por completo, ao lado de Paulo Leminski e Julio Barroso, e interpretou um dos personagens do especial — São Jorge, fornecendo, ainda, voz para “Xixi nas estrelas”. “Esse período de ouro dos musicais infantis foi a descoberta desse filão pela indústria... Mas não seria possível reeditar, agora, as condições daquela época”, crava.
O primeiro álbum de Guilherme na CBS foi Despertar, de 1985. Nesse LP está “Cheia de charme” (outro de seus grandes êxitos), “Olhos vermelhos” e a regravação de “Brincar de viver”, composta para Maria Bethânia. Em entrevistas anteriores, o artista disse que a gravadora tentou vendê-lo como “cantante latino”, pelo ensaio de fotos com o torso à mostra, mas ressaltou que sua essência foi mantida “com habilidade e muita paciência”.
“Fomos encontrando o caminho mais natural e duradouro, tanto é que o repertório todo ficou e se tornou clássico”, remonta.
Guilherme assinou com a EMI em 1991 e lançou a canção “Sob o efeito de um olhar”, tema da telenovela Vamp. No ano seguinte, seu único álbum nesse selo chegou a público: Crescente. Conta com “Orquídea” e “Taça de veneno” — esta com o auxílio luxuoso de Frejat e Luiz Sérgio Carlini nas guitarras. Há, também, duas faixas em inglês — “Ready for love” (composta com Nelson Motta) e “Light and sound”. Um ano depois, retornou à CBS (cujo catálogo havia sido adquirido pela Sony Music) para a produção de Castelos: deste pinçamos “O espírito secreto de uma vida”, versão de Stevie Wonder com a participação de Gilberto Gil.
O novo disco, Interdimensional, chega com uma aura mais leve em relação a trabalhos anteriores, além das alusões ao nome da turnê 50 anos luz, na faixa homônima, instrumental, e na música “Intergaláctica missão”, cujo videoclipe foi dirigido por Guilherme Arantes. No atual estágio do mercado da música, cooptado pela internet e fragmentado em singles, o artista ainda enxerga futuro nos álbuns — “supernovas” em meio a caóticas constelações.
“Me sinto incrivelmente desafiado a desafiar algoritmos, regras. E me sinto gratificado por ter um conteúdo robusto com muita individuação — o que é um privilégio imenso”, resume.
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*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de abril de 2026.