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Série sobre o Nordeste estreia hoje

publicado: 28/04/2026 09h53, última modificação: 28/04/2026 09h53
Codirigidos pelo paraibano Arthur Lins, episódios no Canal Brasil retomam documentários dos anos 1960
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O paraibano Arthur Lins revisitou os temas nordestinos retratados por Thomaz Farkas há 60 anos | Fotos: Divulgação

por Esmejoano Lincol*

Nos anos 1960, Thomaz Farkas, fotógrafo húngaro naturalizado brasileiro, percorreu o Nordeste do país ao lado de um grupo de artistas visuais, com o intuito de registrar paisagens nunca vistas pelos residentes das grandes capitais. Essa jornada foi remontada, no presente, por dois diretores nascidos na região — o cearense André Moura Lopes e o paraibano Arthur Lins —, resultando na minissérie O Nordeste sob a Caravana Farkas, estreia de hoje do Canal Brasil. O projeto, com quatro episódios, será exibido em formato de maratona a partir das 20h; estão agendadas reprises para a quinta-feira (30) e o sábado (2), às 14h30 e às 11h30, respectivamente.

Cada segmento, com temática diferente, faz pontes com os filmes que, décadas antes, lançaram um primeiro olhar sobre práticas cotidianas da região. “De volta à Jaramataia”, focado na cidade alagoana homônima, captura histórias dos trabalhadores da terra e seu êxodo; “Isso é que é Mourão Voltado”, filmado no interior da Paraíba e de Pernambuco, rastreia o ofício dos repentistas; “Reminiscências do cangaço” perfaz estudo sobre o legado dos bandoleiros locais; e “A arte do barro” resgata os famosos ceramistas de Caruaru.

Lopes lembra que conheceu o trabalho de Farkas por meio do professor Alexandre Veras, sem saber, a princípio, que títulos como Viramundo (Geraldo Sarno, 1964) e Memória do cangaço (Paulo Gil Soares, 1965) foram produzidos como resultados da caravana. Aprofundando sua pesquisa, ele acabou por utilizar esse material como fonte de pesquisa permanente.

“E ali eu fui entender que todo aquele emaranhado de filmes vinha de uma mesma fonte, que agregava jovens diretores, como Soares, Sarno e Sérgio Muniz”, afirma.

A ideia floresceu quando de seu reencontro com Arthur Lins, durante um evento acadêmico no Ceará, e de sua aproximação com Guilherme Farkas, neto de Thomaz e detentor dos direitos dos filmes. Configurar a empreitada como uma minissérie, crava Lopes, ajudou os realizadores a encapsular temáticas complexas que poderiam resultar, inclusive, numa segunda temporada.

“A equipe é formada, basicamente, por paraibanos. As exceções, acho, éramos eu, que vinha de Fortaleza, e o Breno César, fotógrafo de Pernambuco”, explica.

Os realizadores contaram com um orçamento limitado diante da magnitude do projeto — cerca de R$ 400 mil. Mas essa não foi a única dificuldade encontrada pelos realizadores.

“A maior delas foi mesmo viajar com esse road movie. Como a gente teve uma pesquisa muito bem centrada, no sentido de a gente já ir direto ao ponto, criar roteiros fixos, isso facilitou o trabalho de filmar, nesse caso, porque a gente já sabia o que iria ter no set. A gente não revisitou, necessariamente, as mesmas paisagens do Farkas; revisitamos os temas”, revela.  

O Nordeste sob a Caravana Farkas foi projetada como longa-metragem no ano passado, no Festival de Brasília e no Fest Aruanda, em João Pessoa. Analisando esse corte inédito, dentre as diferenças encontradas por André e Arthur em relação às imagens captadas por Farkas, a que mais chamou a sua atenção foi a situação atual em Jaramataia.

“E aí nós vimos contraste, do que eram essas fazendas, meio que pré-feudais, e de hoje, cenário mais decadente. Só há uma família lá: os últimos moradores da antiga estrutura”, informa. 

André Moura Lopes aponta que, ao ser redescoberta pelas novas gerações a ousadia de Farkas, pesquisadores e gerações contemporâneas podem atestar a importância do projeto da consolidação do documentário no Brasil, a partir de movimentos internacionais, como o cinema verité, na França.

“Mais aí ele vai dialogar até mesmo com o Cinema Novo, do Brasil, e com o que é a nossa cultura. A caravana não vai apenas moldar estética e narrativamente o gênero no país, mas revisitá-lo e impulsioná-lo. Daí a relevância da minissérie”, conclui. 

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de abril de 2026.