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Túnel do tempo

publicado: 01/07/2026 09h32, última modificação: 01/07/2026 09h34
Mostra da Cinemateca Brasileira exibe 17 filmes de várias épocas a partir de hoje, no Cine Bangüê
Menino e o Mundo - 01.jpg

Variedade marca o cardápio do evento: a animação O menino e o mundo, de 2014 | Imagem: Divulgação/Brasil Espaço Filmes

por Esmejoano Lincol*

Criada em 1949 pelo historiador Paulo Emílio Sales Gomes, a Cinemateca Brasileira é, desde então, o maior órgão de salvaguarda da memória do nosso audiovisual, resistindo a incêndios e a desmontes políticos. A intuição conta com mais de 200 mil rolos de celulóide e um montante considerável corresponde a filmes, tanto do Brasil, quanto do restante da América Latina. Uma parte ínfima, mas preciosa desse arcabouço compõe a mostra itinerante que o Cine Bangüê do Espaço Cultural, em João Pessoa, inaugura hoje: A cinemateca é brasileira, da comédia ao drama, projeta 17 títulos até o dia 12 de julho. As primeiras sessões serão com os longas-metragens Candinho (16h), Última parada 174 (18h20) e A hora e a vez de Augusto Matraga (20h20), em cópias restauradas. Os ingressos custam R$ 5 (meia) e R$ 10 (inteira) e podem ser adquiridos na bilheteria presencial, situada no bairro de Tambauzinho.

Candinho, longa de Abílio Pereira de Almeida, chegou a público em 1954. Estrelado por Mazzaropi, foi livremente inspirado em Cândido, ou o otimismo, livro de Voltaire, do século 18: o personagem título é deixado ainda bebê na propriedade do coronel Quinzinho (Domingos Terras), e vira um empregado da fazenda. Seu namorico com Filoca (Marisa Prado) precipita sua expulsão do local. Ele ruma, então, para cidade grande munido de seu burro Policarpo e do sonho de conhecer sua mãe; o que ele não sabe é que uma herança o espera na metrópole. 

A comédia Candinho, com Mazzaropi, de 1953

Última parada 174, filme de Bruno Barreto lançado em 2008, ficcionaliza a tragédia que marcou o Rio de Janeiro sete anos antes: o seqüestro do coletivo que fazia trajeto no bairro da Gávea, na capital fluminense. No centro do furacão, Sandro Barbosa do Nascimento (Michel Gomes), responsável por manter cativos os passageiros do ônibus. O longa focaliza sua vida pregressa e as razões que o levaram a cair no crime. Última parada foi o escolhido para ser o representante do Brasil no Oscar 2009, mas a indicação não se realizou.

A hora e a vez de Augusto Matraga, de 1965, foi dirigido por Roberto Santos; o longa, escrito em parceria com Gianfrancesco Guarnieri e imerso no Cinema Novo, adapta a novela literária de mesmo nome, concebida por Guimarães Rosa. O fazendeiro Augusto (Leonardo Vilar) sobrevive a uma emboscada de seus inimigos. O escape da morte aproxima o homem da religiosidade, por meio da figura de Joãozinho Bem Bem (Jofre Soares), mas não o afasta do seu passado violento. A marcante trilha sonora é assinada pelo paraibano Geraldo Vandré.

Amanhã, além das reprises de Última parada 174 e de Matraga, o Bangüê programa Saneamento básico – O filme (2007), às 16h. Nesta comédia de Jorge Furtado, os habitantes de uma cidadezinha no interior do país sofrem com o manejo inadequado do esgoto local. Apesar de não ter verba para solver o problema, o casal Marina e Joaquim (Fernanda Torres e Wagner Moura) descobre que a prefeitura tem dinheiro para o custeio de um filme. Ao tentar aproveitar os recursos para a obra de uma fossa, eles concebem um louco projeto audiovisual.

Saneamento Básico, com Fernanda Torres e Wagner Moura, de 2007
Na quinta-feira (3), o cinema traz os repetecos de Candinho e Saneamento básico, mas adiciona à programação Roberto Carlos em ritmo de Aventura, realizado por Roberto Farias em 1967. O “rei” interpreta a si mesmo, perseguido por uma quadrilha. O objetivo da chefe do bando (papel da atriz Rose Passini) é clonar Roberto e explorar seu talento artístico. Além das divertidas sequências metalingüísticas, em que o herói fala diretamente com o espectador, há cenas marcantes e arriscadas, como o passeio de helicóptero por um túnel no Rio de Janeiro.

O menino e o mundo (às 15h) e O lobo atrás da porta (às 19h) são as atrações inéditas da sexta-feira (4). O primeiro é uma animação dirigida por Alê Abreu e lançada em 2013. O garoto Cuca (voz de Vinícius Garcia) parte de seu pequeno lugarejo em busca de autoconhecimento e acaba por tomar ciência do cotidiano ao seu redor. Para desenvolver o filme, a equipe lançou mão de técnicas manuais, como pintura a giz de cera e colagens. Além do sucesso fora do Brasil, foi nomeado ao Oscar de melhor filme de animação em 2016.

Amei um bicheiro (1953), do catálogo da Atlântida, tem sessões marcadas para os dias 5 e 6. Com direção de Paulo Wanderley e Jorge Ileli Carlos, a trama segue Carlos (Cyl Farney), que envolve-se com o jogo do bicho e é preso. Ele volta ao mundo da contravenção para salvar a vida da namorada. São Bernardo (1972) será o cartaz do Bangüê nos dias 8 e 9. É a visão de Leon Hirszman para o épico romance homônimo de Graciliano Ramos: Paulo Honório (Othon Bastos) almeja ascender socialmente e compra uma decadente fazenda em Alagoas.

O horror e suspense também têm vez. O estranho mundo de Zé do Caixão (1968), filme dirigido e estrelado pelo mestre José Mojica Marins perfaz uma antologia de histórias assustadoras (exibições nos dias 5 e 7). Morto não fala (Dennison Ramalho, 2018) acompanha a rotina de Stênio (Daniel de Oliveira), funcionário de um necrotério que é capaz de ouvir cadáveres (nos dias 6 e 7). O lobo atrás da porta (Fernando Coimbra, 2014) atualiza o mito de Medeia por meio da fúria de uma mulher traída – Rosa (Leandra Leal) (nos dias 4 e 6). 

O policial Amei um bicheiro, com Grande Otelo, de 1953 | Foto: Divulgação/UCB

Questões sociais ganham espaço graças a narrativas ficcionais e documentais. No novo clássico Que horas ela volta? (Anna Muylaert, 2015), a vida da empregada Val (Regina Casé) tem seus valores questionados com a chegada da filha Jéssica (Camila Márdila) – esta, em confronto com seus patrões (dias 7 e 8). Branco sai preto fica (Adirley Queirós, 2014) analisa o preconceito racial na contemporaneidade (dias 8 e 9). E Últimas conversas (2015), derradeiro projeto de Eduardo Coutinho, compila uma série de entrevistas com estudantes (dias 10 e 11).

Fechando a lista, o Bangüê exibe: Los silêncios (2018), coprodução internacional, dirigida por Beatriz Seigner com uma narrativa fantástica sobre os conflitos armados na fronteira do Brasil com a Colômbia (nos dias 10 e 12); Abrigo nuclear (1981), ficção científica pioneira no país, escrita e realizada por Roberto Pires, na Bahia, emulando um cenário pós-apocalíptico (dias 9 e 10); e O homem do pau-brasil (1982), pornochanchada de Joaquim Pedro de Andrade, inspirada pelas poesias modernistas de Oswald de Andrade (dias 11 e 12).  

Programação:

HOJE (1º/7)

  • 16h – Candinho (1953)
  • 18h20 – Última parada 174 (2008)
  • 20h20 – A hora e a vez de Augusto Matraga (1966)

AMANHÃ (2/7)

  • 16h – Saneamento básico, o filme (2007)
  • 18h20 – A hora e a vez de Augusto Matraga (1966)
  • 20h20 – Última parada 174 (2008)

SEXTA-FEIRA (3/7)

  • 16h – Roberto Carlos em ritmo de aventura (1968)
  • 18h20 – Candinho (1953)
  • 20h20 – Saneamento básico, o filme (2007)

SÁBADO (4/7)

  • 15h – O menino e o mundo (2014)
  • 17h – Roberto Carlos em ritmo de aventura (1968)
  • 19h – O lobo atrás da porta (2014)

DOMINGO (5/7)

  • 15h – O lobo atrás da porta (2014)
  • 17h – Amei um bicheiro (1953)
  • 19h – O estranho mundo de Zé do Caixão (1968)

SEGUNDA-FEIRA (6/7)

  • 16h30 – Amei um bicheiro (1953)
  • 18h20 – O lobo atrás da porta (2014)
  • 20h10 – Morto não fala (2019)

TERÇA-FEIRA (7/7)

  • 16h30 – O estranho mundo de Zé do Caixão (1968)
  • 18h20 – Morto não fala (2019)
  • 20h20 – Que horas ela volta? (2015)

QUARTA-FEIRA (8/7)

  • 15h – Que horas ela volta? (2015)
  • 17h – Branco sai, preto fica (2015)
  • 20h20 – São Bernardo (1973)

QUINTA-FEIRA (9/7)

  • 14h30 – O menino e o mundo (2014)
  • 16h – São Bernardo (1973)
  • 18h20 – Abrigo nuclear (1981)
  • 20h20 – Branco sai, preto fica (2015)

SEXTA-FEIRA (10/7)

  • 16h – Últimas conversas (2015)
  • 18h20 – Los silencios (2019)
  • 20h20 – Abrigo nuclear (1981)

SÁBADO (11/7)

  • 15h – Que horas ela volta? (2015)
  • 17h – O homem do pau-brasil (1982)
  • 19h – Últimas conversas (2015)

DOMINGO (12/7)

  • 15h – O menino e o mundo (2014)
  • 17h – Los silencios (2019)
  • 19h – O homem do pau-brasil (1982)

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de julho de 2026.