De todos os significados que essa palavra poderia assumir, circulando em áreas do conhecimento que vão da matemática às ciências humanas, a acepção primordial de Matriz parece ser a mais valorosa para a cantora e compositora Val Donato. Tanto que esse é o nome do seu álbum de estúdio mais recente, lançado há dois anos. O batismo repete-se com a estreia de um registro audiovisual, na próxima sexta-feira (9), às 18h, em seu canal oficial no YouTube. Munida desse repertório e da participação de colegas intérpretes, a artista campinense dá boas vindas ao novo, ao mesmo tempo em que reverencia suas origens.
O projeto foi gravado neste ano, num dos cartões postais do Centro Histórico de João Pessoa: o Hotel Globo. O horário escolhido foi o entardecer, quando a paisagem, situada numa margem elevada do Rio Sanhauá, ganha um colorido especial. O prédio, por sua vez, também guarda uma motivação especial.
“Esse marco zero da nossa capital dialoga muito com o conceito do álbum, a coisa de olhar para as nossas raízes. E por que João Pessoa em vez de Campina Grande? Porque foi a cidade que me abraçou profissionalmente. Quando eu comecei a tocar, o público daqui foi me dando um respaldo ainda maior”, afirma Val. 
Essa versão de Matriz para o YouTube contará com 15 faixas — oito do álbum de estúdio; completam o montante outras duas do primeiro disco da cantora, Café amargo, e mais cinco singles, que vieram a público recentemente. Dentre as músicas de destaque, “Estrelas”, composta por Juzé, que integra o registro.
“São sete participações: Sandra Belê canta ‘Força vital’ comigo, que é uma música dela. Tony Silva, na guitarra, em ‘Pra que você goste’. Seu Pereira, na música ‘Donos do mundo’, que é uma parceria nossa. Walter Vilaça, guitarrista, que tocava na banda da Cássia Eller, gravou ‘A onda’, tanto no CD, quanto no audiovisual”, conta.
Completam a lista de convidados, Fernando Nunes, baixista que também atuou com Cássia Eller e que faz parte, atualmente, da banda Altas Horas, e marca presença em “Viver pra duvidar”; e Giordano Frag, produtor do disco, convocado para tocar as guitarras de “Matriz”, a faixa, e “O infinito”. A banda base desta empreitada tem, na formação, outros velhos conhecidos de Val.
“Rafael Chaves, violão e guitarra, que toca comigo há 14 anos. Nido Fernandes, também com violão e guitarra, começamos lá em 2010. Junior Blau, baixista, parceiro há sete anos. E Filipe Soares está há uns quatro anos, comigo, na bateria”.
Os arredores do cenário principal de Matriz também serviram de palco para muitas apresentações de Val, em 20 anos de estrada. “Não é um clipe, ou uma música, é um show completo — e naquele espaço. Acho que a gente foi pioneiro nesse sentido, como resultado audiovisual, para valorizar, especialmente o Centro Histórico, entendendo a relevância e a importância cultural dele, como um agregador de espaços para casas de cultura, festivais, e etc”, declara.
Dando as mãos
Destrinchando os sentidos que cercam Matriz, Val Donato faz questão de frisar que, apesar de a sua iniciativa ter, como palco, uma edificação pessoense, de Campina Grande vem suas primeiras referências culturais. Lá, ela estreitou laços com os gêneros que mais pautam a sua carreira no presente, o rock e a MPB. “A matriz da minha música é, essencialmente, o rock brasileiro, dos anos 1980, além do manguebeat. Isso também se reflete em bandas daqui da Paraíba, do começo dos anos 2000, como a Cabruêra, e alguns outros artistas, como o próprio Escurinho, que mistura rock com elementos da cultura nordestina”.

Com quase duas décadas de carreira, a própria Val também se tornou, ela mesma, uma referência para alguém que está muito próximo — a filha Mel Lira. Em depoimento na versão audiovisual de Matriz, a garota destacou que acompanha os passos da mãe desde muito pequena, tendo sido influenciada culturalmente.
“O próprio Pedro Índio Negro, um artista paraibano que eu admiro demais e que é de uma geração anterior à minha, me falou certa vez, que quando viu um show meu pela primeira vez, me vendo no palco, teve a certeza que queria ser artista, que queria fazer aquilo. Isso foi muito especial para mim”, assinala.
Construir um ofício sobre essas matrizes, ou bases, não é uma tarefa fácil para o artista independente. Entre as desvantagens de seguir nesse caminho, Val elenca como principal a falta de recursos (problema que atinge a todos os cantores que seguem seu próprio caminho), compensada, em alguma medida, pela autonomia.
“Existe uma cena muito bonita, muito rica, que trabalha aqui na Paraíba. E como todo mundo é meio que independente, todo mundo se dá as mãos e forma parcerias. Isso favorece muito o nosso fazer artístico, o que acaba sendo uma vantagem: a liberdade de escolher musicalmente o que quer fazer”, crava.
Assinalando a importância de reconhecer suas próprias matrizes e de fazê-las visíveis e audíveis em sua obra, Val Donato ressalta: ainda que angariar referências externas seja um fator importante o seu incremento enquanto artista, é na subjetividade e na identidade local que sua arte encontra o abrigo mais seguro.
“Se eu for para Minas Gerais como artista paraibana, o mineiro não vai querer me ouvir fazendo música como em Minas. Ele vai querer me ouvir fazendo música como se faz na Paraíba, ainda que eu carregue referências do mundo inteiro. Preciso saber de onde eu vim, para aonde eu volto. E carregar tudo isso”, conclui.
Através deste link, acesse o canal da artista no Youtube
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de outubro de 2026.