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Uma peça para dizer "Não!"

publicado: 17/04/2026 09h13, última modificação: 17/04/2026 09h13
Adriana Birolli apresenta monólogo no Paulo Pontes, hoje e amanhã, satirizando situações em que temos dificuldade de negar convites e favores
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Adriana Birolli pediu um texto e recebeu o monólogo com que circula o país desde 2023 | Foto: João Caldas/Divulgação

por Esmejoano Lincol*

Há algum tempo, Adriana Birolli buscava um texto para encenar e, assim, retomar sua longa relação com os palcos. Ao conhecer e admirar o trabalho do dramaturgo Diogo Camargos, pediu que ele lhe escrevesse um roteiro. Ela teve como resposta um sonoro Não!. Mas, acreditem, esta não foi uma rejeição, mas o título do monólogo que, desde 2023, tem circulado o país e discutido, com muito bom humor, o poder libertador da recusa. Neste fim de semana, a atriz chega a João Pessoa e apresenta esse espetáculo no Teatro Paulo Pontes do Espaço Cultural, localizado no bairro de Tambauzinho – hoje, a partir das 20h, e amanhã, às 18h. Os ingressos estão disponíveis no site Sympla e custam de R$ 70 (meia) a R$ 140 (inteira).

A premissa da peça parte de um fato trivial, vivido pela personagem de Adriana: às vésperas de completar 36 anos, ela recebe um convite para um jantar de aniversário com a família. A protagonista resiste a dizer “não” à proposta e, por meio dessa situação em específico, ela passa a refletir sobre outros momentos em que encontrou a mesma dificuldade.

“Essa questão de aprender a dizer ‘não’ é diária, intrínseca. Às vezes, é uma coisa muito simples, como ‘Não quero comemorar meu aniversário, ou ‘Quero comemorar de outro jeito’. E as pessoas perguntam, ‘Ah, mas é a realidade de uma mulher?’. Ela pode falar sobre questões femininas, sim, mas é muito mais sobre o nosso cotidiano geral mesmo”, sinaliza.

A parceria com Diogo Camargos, também a cargo da direção da empreitada, teve início logo após Adriana assistir a montagem de A Última Hora, outro monólogo, na pandemia. O “texto-encomenda” de Adriana tinha de estar alicerçado num tema universal, que garantisse uma abrangência junto às platéias e que passasse longe da sisudez. O resultado foi Não!.

“E o meu desejo era me expressar através de uma comédia, com algum assunto que trouxesse uma transformação para o público. E aí o Diogo teve essa ideia de escrever um espetáculo sobre a dificuldade de dizer ‘não’. Rodando há três anos com essa iniciativa, eu posso dizer que eu só consigo ver mais relevância em cada apresentação desse tema”, alega.

Com o texto pronto, a atriz e o diretor passaram a construir o perfil da personagem e sua movimentação em cena. Não somente pela proposição, mas pela natureza do monólogo, o projeto demandaria uma proximidade ainda maior com o público. Nesta etapa, Adriana e Diogo afinaram a parceria e desenvolveram uma intimidade crucial para o espetáculo.

“Éramos só nós dois em todos os ensaios, então foi um dos melhores processos que eu já vivi, com muitas trocas. Porque a gente se admira muito, pessoal e artisticamente. Eu estive muito aberta a tudo que ele trouxe e ele, também, muito aberto ao que levava. Conseguimos crescer. E eu acho que, na arte, o objetivo é esse, sempre crescer junto”, aponta.

Desde a estréia, não houve mudanças significativas no texto, que segue igual há três anos. Mas Adriana destaca que, a cada sessão, ela conduz uma experiência diferente, seja pelas nuances dadas às linhas dos diálogos, seja pela reação dos espectadores, variantes em cada cidade. Ao término da peça, ela gosta de comentar com a equipe tais particularidades. 

“Esse espetáculo traz uma comunicação muito direta. A energia que eles me dão, eu transmuto e devolvo, e vice-versa. E eu recebo muito feedback pelas redes sociais também, muitas pessoas me mandam relatos depois, contam como mudaram o seu pensamento, a sua forma de agir, pensando na personagem. Vejo a arte cumprindo a sua função”, assevera.

Pronta para o “não”

Natural do Paraná, Adriana tornou-se conhecida do grande público graças à sua participação na novela Viver a vida, escrita por Manoel Carlos em 2009. Na ocasião interpretou Isabel, irmã de Luciana (Alinne Moraes) e preterida pela mãe (Lília Cabral). O sucesso lhe garantiu espaço em Fina estampa (Aguinaldo Silva, 2011), como a mocinha Patrícia.

Nos anos seguintes, ela manteve-se em atividade na TV: Império (Aguinaldo Silva, 2014) e Totalmente demais (Rosane Svartman e Paulo Halm, 2015), ambas na TV Globo; Belaventura (Gustavo Reiz, 2017) e Jezabel (Cristianne Fridman, 2018), as duas na TV Record. Em 2021, a atriz estrelou, no cinema, Lucicreide vai pra Marte (com direção de Rodrigo César).

O currículo de Adriana é bem mais longevo no teatro. Seu primeiro crédito como atriz foi aos oito anos de idade; já a primeira produção, aos 13. Entre as décadas de 1990 e 2010, esteve em O despertar da primavera (2002), O teatro dos vampiros (2003), Sou ator mas não sou Gay (2007) e A república em Laguna (2010), aqui, dando vida à heroína Anita Garibaldi.

Por 10 anos, a curitibana esteve em cartaz com Manual prático da mulher desesperada, adaptação de Ruiz Bellenda para os contos escritos pela estadunidense Dorothy Parker sobre a solidão feminina. Logo no primeiro ano da peça, em 2006, a artista foi laureada com o Troféu Gralha Azul de melhor atriz – um dos mais importantes do seu estado natal.

Mesmo celebrando seu êxito no audiovisual, Adriana sustenta que o ator vive sua plenitude, de fato, no teatro. Ela justifica sua declaração mediante a autonomia que ela e os colegas têm nos palcos, versus a dependência que eles mantêm com as câmeras e com os outros equipamentos do cinema e da TV, sem falar na influência do diretor, mesmo indireta.

“No teatro, apesar de termos a iluminação, que faz o destaque cênico, quando dá o terceiro sinal, somos nós, atores, que vamos lidar com tudo o que acontecer. Pode acabar a luz e eu precisar fazer a peça à luz de velas. Pode passar um bicho, como acontece num teatro do Rio de Janeiro, e a gente vai ter que lidar com aquele gambazinho”, afirma, brincando.  

Analisando situações que lhe colocaram em situações similares às de sua personagem em Não!, Adriana informa que também teve de rejeitar convites ou circunstâncias, mas que nem sempre foi capaz de levar isso a cabo. Segundo a atriz, acumular recusas necessárias a situações potencialmente desconfortáveis ou tóxicas pode sobrecarregar o indivíduo.

“Como profissional, muitas vezes o medo é dizer ‘não’, e a partir disso, fechar portas. É muito complicado. Mas eu acho que a gente tem que saber o que quer, e a partir disso, saber também o que a gente não quer. Porque quando estamos fazendo algo que gostamos, toleramos tudo com mais facilidade. ‘Deu errado, mas eu estou tão feliz aqui...’”, pondera.

Para além do cuidado em não magoar as pessoas que gostamos ou de não interditar chances profissionais, recusar aquilo não agrega em nada nos âmbitos subjetivo ou pessoal e que possa nos ferir contundentemente, são as principais lições que essa comédia pode deixar junto ao público, resume Adriana. Parte desses conselhos está descrita ao longo da peça.

“Quem assistir ao espetáculo vai saber quais são as dicas que nós damos. Mas eu acho que sim, todos nós estamos prontos para aprender a dizer não. Todos nós temos, sim, que parar e pensar nessa questão de uma maneira mais simples, no nosso cotidiano e nas pequenas coisas, para a gente levar a vida de uma maneira bacana, sabe?”, conclui. 

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*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de abril de 2026.