Notícias

música

Uma revista a Da lata

publicado: 30/06/2026 09h26, última modificação: 30/06/2026 09h26
Fernanda Abreu conversou com A União, após show em Fortaleza, sobre os 30 anos do álbum que mudou sua carreira
EDU01066.jpg.jpeg

Fernanda Abreu no show realizado no Ceará | Fotos: Eduardo Maranhão/Divulgação

por Marianna Vieira (Especial para A União)*

Três décadas depois de lançar o disco que contribuiu para desenhar o pop brasileiro, Fernanda Abreu segue entusiasmada com “Da Lata”. Pela memória afetiva de um álbum decisivo em sua trajetória e pela convicção de que o trabalho continua vivo. Foi com esse humor que a artista nos concedeu entrevista, ao chegar em Fortaleza (CE) onde se apresentou, neste mês de junho, no encerramento do DFB Festival, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, com a turnê “Da Lata 30 Anos”. Na conversa, ela relembrou a importância do álbum de 1995, detalhou a montagem do novo show e adiantou por onde a celebração seguirá – em novembro, ela volta ao Nordeste para se apresentar no festival Coquetel Molotov, em Recife (PE).

“Foi o ‘Da Lata’ realmente um divisor de águas na minha carreira”, disse Fernanda Abreu. “Foi o que me lançou fora do Brasil, o meu primeiro disco de ouro, o disco de uma turnê muito grande aqui dentro também. Acho que ele consolidou o meu nome como uma artista nacional e, especialmente, com uma linguagem muito própria”, completou.

A resposta que ela deu à pergunta sobre o álbum resume bem o lugar que “Da Lata” ocupa na sua discografia. Lançado no ano de 1995, se tornou um marco da música pop brasileira ao fundir samba, funk, hip hop e música eletrônica em uma linguagem urbana, dançante e... Carioca. Produzido por Liminha e pelo britânico Will Mowat, da banda Soul II Soul, o disco emplacou sucessos (como “Garota sangue bom”), ganhou o mercado internacional e ajudou a consolidar Fernanda como uma das artistas mais inventivas da cena brasileira dos anos 90.

E o reencontro com esse repertório nasceu de forma intuitiva. A cantora contou que a ideia surgiu no Revéillon de 2024 para 2025, quando ela se deu conta de que o álbum completaria 30 anos no novo ano. Então, ao fazer o exercício de voltar a ouvir o disco, percebeu que havia ali um trabalho ainda conectado ao presente: “achei que o disco não tinha ficado datado. As músicas, os assuntos, a linguagem, a mixagem, o som, os arranjos estavam muito atuais ainda para as novas gerações conhecerem”. Essa constatação foi o ponto de partida para vários projetos comemorativos que extrapola o palco. A celebração dos 30 anos de “Da Lata” inclui documentário, relançamento do álbum em vinil, livro com fotos e documentos de arquivo, além de um remix inédito de “Garota Sangue Bom” com a dupla de DJs From House To Disco.

O documentário, dirigido por Paulo Severo, nasceu a partir de 40 horas de imagens gravadas em 1995 durante o processo de criação do disco. O filme mostra registros das sessões de estúdio, bastidores de videoclipes, ensaios fotográficos e da estreia da turnê original.

Fernanda Abreu conta que, num primeiro momento, pensava apenas nesses desdobramentos audiovisuais e editoriais. O show de turnê veio depois, quase como uma consequência natural da redescoberta do álbum.

A decisão ganhou força quando ela soube que a banda Soul II Soul estaria no line-up do festival Queremos!, no Rio de Janeiro. “Achei que era uma excelente oportunidade de fazer uma noite celebrativa”, ela contou. A partir daí, correu para montar o espetáculo. “Em dois, três meses eu fiz essa montagem do show e agora estou saindo em turnê”, explicou a cantora.

Fortaleza recebeu o terceiro show da temporada, depois de apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo. No papo, Fernanda falou da relação que enxerga entre o universo do álbum e o ambiente do DFB Festival, onde compôs uma programação voltada à moda autoral, ao design e à economia criativa. Para ela, há uma afinidade entre o disco e esse tipo de evento, justamente pela valorização da identidade local como motor de invenção estética: “acho que o ‘Da Lata’ trouxe para a música uma coisa muito importante, que foi colocar o Brasil dentro da linguagem da música pop”, afirmou. “Era fazer uma música de pista que não fosse cópia da música de pista feita fora do Brasil”, complementou. Na definição da própria artista, esse processo passou por incorporar ao pop dançante uma sonoridade enraizada no Rio de Janeiro – com tamborim, cuíca, surdo e referências do samba – em diálogo com a música eletrônica, os grooves e a cultura do baile. 

Ainda não há previsão de a turnê chegar à Paraíba, mas Recife já está na agenda

Ao comentar a relação com a cena criativa nordestina, Fernanda disse observar, mesmo sem se considerar especialista em moda, uma produção cada vez mais ousada e original vinda da nossa região. “Eu tenho observado que esse pessoal que tem feito moda aqui no Nordeste e no Norte está saindo na frente em termos de vanguarda da moda brasileira. Com materiais, tecidos, modelagens e inventividade muito interessantes. Então, para mim, tem tudo a ver esse show e esse conceito do ‘Da Lata’”.

No palco, a turnê privilegia o repertório do disco de 1995. Fernanda canta nove das 13 músicas de ‘Da Lata’, juntas a outros sucessos como “Rio 40 Graus”, “Kátia Flávia”, “A Noite” e “Você pra Mim”. A montagem também reúne de volta parte da equipe criativa que ajudou a construir a identidade visual do álbum há 30 anos. Luiz Stein, responsável pelo projeto gráfico e pela cenografia original, assina agora uma releitura em vídeo-cenografia; Claudia Kopke, parceira antiga da artista, divide os figurinos com Rogério S.; e integrantes da formação original reaparecem no show, como o percussionista Jovi Joviniano e o vocalista Che Leal.

“Eu quis privilegiar realmente o álbum ‘Da Lata’”, explicou Fernanda Abreu, que revelou que “tem um figurino do show que eu estou usando o original, que guardei esses anos todos”. A cenografia também passou por atualização. Em 1995, o palco era construído com painéis físicos feitos de latas, agora, se transforma em imagens e ambientações digitais em LED, pensadas para dialogar com o imaginário de cada canção. “A cada música a gente criou um imaginário próprio”, contou.

Foi toda essa síntese que fez do álbum um marco na trajetória da cantora e um ponto de inflexão na pop music nacional. Hoje, ao revisitar esse repertório, Fernanda Abreu move o projeto para novos públicos e novas cenas. Da capital cearense, a turnê seguiu para outras cidades brasileiras e também para fora do Brasil – como em Lisboa, neste início de julho. No Nordeste, o próximo encontro já está marcado: será em 28 de novembro, dentro da programação do Coquetel Molotov.

E, além da fotografia do show que estampa esta página d’A União, para o leitor que quer imergir ainda mais no universo nostálgico dos anos 90, o filme “Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos, o Documentário” está na programação do canal de TV por assinatura Curta!, até o próximo dia 30 de junho.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 30 de junho de 2026.