De tudo, um pouco. Essa é a ideia mestra desenvolvida pelo projeto Viva Usina durante oito meses do ano na Usina Cultural Energisa, em Tambiá, na capital. De hoje a domingo (28), a casa abre suas portas para a programação de junho, com atrações gratuitas distribuídas entre as várias searas das artes. Hoje, às 15h, na Sala Vladimir Carvalho, a palhaça Nublada Atulemada apresenta o espetáculo Reciclável público; às 20h, no Palco Bonde, os pesquisadores e artistas Diocélio Barbosa e Fabio Dal Gallo lançam o livro Escolas de circo na Paraíba: memórias e trajetos da Piollin, Pirilampo e Djalma Buranhêm; e às 21h, na Sala Vladimir Carvalho, tem o espetáculo Guerreiro (classificação 16 anos), do Grupo Móijargão de Teatro, com inspirações na dramaturgia negra brasileira. E em sua décima edição, transcorre na área externa a Feira Parahyba Vinil, com venda de LPs, gastronomia e economia criativa (sexta e sábado, das 16h às 22h; domingo, das 14h às 20h).
Amanhã, o rock paraibano de alcance internacional entra em campo com a festa do Baile Troncho – assim intitulado em menção ao autodeclarado estilo da banda Papangu, que encerrará a noite do sábado com participação especial da cantora PriCler, vencedora do Festival de Música da Paraíba de 2025. O baile se inicia na Tenda da Música, às 19h, com as bandas campinenses Korvak (misto de metal pesado e rock psicodélico dos anos 1960 e 1970) e a veterana Zepelim & o Sopro do Cão, com setlist voltado para o hardcore e ska presentes nos álbuns Caranguejo de açude (2024) e Arquibancada sol (2025). No Palco Bonde, às 21h, Rafa Chaves apresenta o show instrumental Enquanto minha guitarra gentilmente grita, comemorando 20 anos de trajetória do artista na cena cultural paraibana.
Voltado para toda a família, o domingo traz circo, oficinas e cinema: às 16h, no Palco Bonde, a artesã, ceramista e educadora indígena Doora Tabajara ministra a oficina “Cerâmica para curumim”, atividade recreativa com argila para crianças de 5 a 12 anos. Às 17h, na Sala Vladimir Carvalho, a trupe Circo do Asfalto apresenta o espetáculo Pandorinha, com malabares, contorcionismo e dança. A Sala Vladimir projeta o cinema a partir das 19h, com os documentários Caminho de cedro (2025, 20 min), dirigido por André Queiroga e Sebastião Formiga, e Caminhos da guia (2024, 9 min), de Rana Sui e Pedro Anísio, ambos tratando de temática religiosa – o primeiro, sobre vivências de peregrinos e devoção ao Padre Ibiapina, e o segundo, sobre a romaria de Nossa Senhora da Guia, celebrada em Lucena.
História dos circos
Ao longo de 110 páginas, a obra Escolas de circo na Paraíba é fruto de investigação acadêmica dos pesquisadores Diocélio Barbosa e Fabio Dal Gallo. Nela os autores apresentam um panorama histórico de três instituições basilares para o desenvolvimento do circo no estado, quer sejam a Escola Piollin, o Circo Escola Pirilampo (descontinuado em 2010) e a Escola Livre de Circo Djalma Buranhêm.
Há 26 anos atrás, quando Diocélio iniciou sua carreira artística, sempre esteve próximo do teatro de rua e do circo, fato responsável por sua paixão pelos registros e fatos históricos sobre as escolas de circo e o movimento circense no estado. Desde então, todos os seus trabalhos tiveram um pé no picadeiro. “Me deparei com o livro Quarenta anos do teatro paraibano, de autoria de Ednaldo do Egypto, e isso me bateu muito forte. O teatro tem esse registro muito bacana, fotográfico e cenográfico do teatro, mas eu sentia falta desse lugar do circo”, lembra o autor. Diante da escassez de referencial bibliográfico sobre o tema, Diocélio resolveu, a partir do apoio inicial da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e posterior impulso da Lei Paulo Gustavo, fazer a edição em forma de livro dos materiais coletados.
“É uma pesquisa que vem sendo realizada durante muitos anos, muito também porque eu vivenciei e passei por todas essas escolas de circo. Eles liberaram a entrada de artistas; mudou muito a cena circense local”, diz ele, que teve sua primeira oportunidade como aluno na Pirilampo, em projeto social do estado. Depois, Barbosa foi convidado a ministrar aulas no Centro Cultural Piollin e chegou a ser gerente de Circo em 2015 pela Fundação Espaço Cultural (Funesc), quando criou a escola de circo Djalma Buranhêm.
E foi precisamente a experiência empírica o que mais lhe facilitou na hora de escrever o livro, em coautoria com Fabio Dal Gallo, orientador de doutorado de Diocélio. “Além da trajetória, do ensino, [o livro] aborda também alguns aspectos do teatro, da música [...]”, afirma. “Esse livro é muito mais do que um registro, é uma forma de engrossar esse caldo e incentivar que novos pesquisadores venham a tecer referências bibliográficas sobre a nossa memória circense, que é muito importante e potente, assim como outras linguagens”.
Realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo e operacionalizado pela Secretaria de Estado da Cultura (Secult-PB), o livro é dividido em três capítulos, que correspondem, cada qual, a uma das instituições circenses, já lançado em eventos como o Seminário Internacional de Circo, em Campinas (SP), na Escola Nacional de Circo Luiz Olimecha, no Rio de Janeiro (RJ), na Blitz Cultural (SE) e no Festival Literário Internacional da Paraíba (FliParaíba 2025).
Baile rock
Verdadeiro São João alternativo para os amantes do rock, o Baile Troncho congrega bandas de João Pessoa e Campina Grande no embalo do sábado. Babu, vocalista do grupo Zepelim & o Sopro do Cão, reitera a força da interação entre o interior e a capital na nova cena paraibana. “Zepelim e Papangu vinham despontando nacionalmente de forma paralela, até que a gente resolveu se unir pra fazer uma turnê – Invasão paraibana – pelo Nordeste, e deu match total”, comenta ele.
No mês de junho, inclusive, Zepelim e Papangu tocaram juntas na segunda edição do Parque do Pogo, em Campina Grande. Pedro Francisco, multi-instrumentista da Papangu, rememora encontro anterior com PriCler: “E foi incrível, mas foi uma participação mais curta. Porém agora tivemos mais tempo e isso nos fez ensaiar mais, além de arranjar as coisas de acordo com a voz dela, que é muito potente, versátil e de uma extensão inacreditável”.
Estendendo o tapete vermelho para Korvak e Zepelim e o Sopro do Cão, Rodolfo, tecladista da Papangu, atesta: “PriCler é mais rock and roll que muita banda de metal atualmente. Ela entrega na interpretação, no canto e na visceralidade o que poucos fazem hoje em dia, além de ser uma musicista brilhante, multiartista e multi-instrumentista. É uma honra ter ela neste Baile Troncho”.
“Estamos bem felizes de tá retornando a João Pessoa depois de uns quatro meses, ainda mais num evento dessa importância, fortalecendo essa união com a Papangu e também dividindo palco com nossos conterrâneos da Korvak”, sintetiza Babu, ao que Rodolfo responde: “Este é um festival para entrar para a história da música pesada e enérgica do estado”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de junho de 2026.
